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José Mário Leite

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SAUDINHA

O maior erro do Governo da Nação, no campo da Saúde foi, sem dúvida, a dispensa de Fernando Araújo de diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, levada a cabo pela ministra Ana Paula Martins que, curiosamente, foi a primeira escolha daquele para presidir aos destinos do Hospital de Santa Maria. Foi um erro técnico por ter afastado da administração pública alguém competente, com vastas provas dadas na presidência do Conselho de Administração do Hospital de S. João do Porto tendo sido substituído por quem mal aqueceu o lugar, infelizmente depois de ter travado a remodelação em curso exonerando gestores hospitalares, a torto e a direito, antes de completarem sequer um ano de mandato, mas, igualmente, um erro político pois sinalizou uma partidarização no topo de uma das mais importantes áreas da governação e, sobretudo, porque os esperados bons resultados seriam capitalizados pelo atual governo e, os maus, se, quiçá, os houvesse, seriam creditados à gestão anterior. Os problemas e dificuldades crescentes, desde logo no topo do SNS e do INEM vieram demonstrá-lo, penalizando o Executivo de Montenegro. Por alguma razão a ministra da saúde esteve, persistentemente, na lista dos governantes remodeláveis. Porém. Os caminhos que conduzem a um determinado ponto, raramente são únicos e dificilmente se pode saber, de antemão se, não sendo os mais curtos, serão os mais eficazes. Há, no nosso país, duas conceções sobre a natureza do Serviço Nacional de Saúde, ambas legítimas. Uma que se foca na sua natureza advogando a condição de ser total e exclusivamente público por entender que é uma condição necessária para cumprir a sua função, de forma transparente e democrática; e outra, concentrando o foco na sua função, preconizando uma estrutura mista, complementando um núcleo estatizado com as contribuições dos setores privado e social que, em cada momento, contribuam para a disponibilização de um serviço de qualidade, universal, mas que tenha o menor custo possível para o contribuinte. Seguramente que o atual governo advoga esta última, ao contrário do anterior. Será que Fernando Araújo, tendo desenhado a estratégia sob a égide do governo PS teria a flexibilidade para a adaptar à nova abordagem governativa. Ou, inclusive, se teria sido possível estender a sua atuação durante o tempo suficiente para minimizar a perturbação da sua substituição, que, sendo expectável, se concretizou. Dificilmente os contratempos e distúrbios sofridos pelos utentes serão justificados pelas esperadas melhorias que já vão sendo anunciadas e haverão de ser repetidas e enfatizadas, nos tempos mais próximos, por razões óbvias. De qualquer forma o Diário de Notícias, na sua edição de 21 de março titulou na primeira página que estão a diminuir, nas urgências, quer os tempos médios quer o número de utentes. Poucos dias antes o Jornal Público trazia para a primeira página que o tratamento de doentes em casa permitiu uma poupança superior a três milhões de euros. E esta, sendo uma notícia complementar da anterior, traz consigo um potencial de enorme impacto pois os desenvolvimentos atuais da Inteligência Artificial aplicada à medicina trazem, precisamente neste segmento, grandes avanços e prometem muitos mais e maiores. Estou certo que esta será uma área de grande aposta para governo que sair das próximas eleições, seja ele qual for.

PODER E RIQUEZA

Nos conturbados tempos que vivemos estamos a ser confrontados com uma alteração acelerada dos códigos tradicionais de convivência societária. Com o passar dos anos e o almejado progresso e melhoria, em todas as vertentes, do nível de vida e das regalias sociais, fomo- -nos habituando a uma casa comum onde a coabitação se regia por regras, cada vez mais democráticas, justas, racionais e solidárias. É verdade que, em várias partes do mundo, continuam ainda a existir (e a surgir, de vez em quando, embora com menor frequência), regimes autoritários, porém, com medidas de cariz democrático, efetivas ou, pelo menos, simuladas. Escorados, estes últimos, na sua maioria, em poderes de base religiosa, hereditária e, quase todos, no controlo e uso, em proveito próprio das forças militares. A luz ao fundo do túnel aparecia, praticamente sempre, na forma de um golpe revolucionário, na alternância de um poder popular (nos casos em que os arremedos de democracia pudessem permitir a realização de eleições) ou no aparecimento de alguma vaga de fundo nascida do esclarecimento, da cultura e do triunfo da razão. Porém, o início do novo milénio, concretamente na terceira década deste século, começam a surgir movimentos que, em sociedades maduras, livres e progressistas, sendo autoritários e despóticos que, mesmo usando os mecanismos legais, explorando a mentira, o exagero, a distorção e a bazófia descarada, chegam ao poder e começam a alterar, em seu proveito as regras estabelecidas. A expressão máxima e, igualmente, a mais perigosa tomou os comandos da governação da mais poderosa nação do mundo e isso é, inegavelmente, um risco para toda a humanidade. As notícias vindas dos Estados Unidos da América confirmam a tomado do poder por quem olha para todo o mundo com uma lógia mercantil em que a tradicional diplomacia entre estados autónomos é substituída pela ardileza negocial do mercado. Tanto assim que, com todo o despudor, colocam-se em lugares de poder efetivo, interno e, por essa via, com capacidade de influenciar os poderes externos, pessoas cuja característica mais relevante é a sua desmesurada riqueza. Obviamente que as grandes fortunas, sempre tiveram de ser levadas na devida conta, pelos governantes, como forças de pressão influenciadoras das políticas públicas, mas nunca como decisores do futuro de cidadãos, sociedades, países e nações. Porém, tal como noutras circunstâncias, o poder adquirido de tal forma, não é inelutável. E, curiosamente, a luta contra tal tirania, nem sequer implica grandes arrojos, perigos ou sacrifícios. O desmesurado poder de Elon Musk, Jeff Bezos e companhia, advém-lhes do seu colossal património mas este não lhes caiu do céu, não o colheram nas árvores, nem tão pouco o exploraram no subsolo. Quem fez deles ricos e por consequência lhes abriu as portas do poder, fomos todos nós. Ora, se tal distorção nos incomoda a solução é simples: boicotemo- -los. Deixemos de comprar Teslas de fazer compras na Amazon e, tão simplesmente, passemos a ignorar o X.

UM SACO PRETO E UMA CANETA AZUL

Na noite do passado dia 19 de fevereiro, o pano do palco do auditório Emílio Rui Vilar da Culturgest estava corrido (não iria subir para dar início ao espetáculo, nem haveria de descer, no final, tal como acontecera há alguns anos atrás, no Centro Cultural de Belém, com uma outra peça de Tiago Rodrigues, “Catarina e a beleza de matar fascistas”). Em cena, uma enfermeira que, pouco tempo depois se descobriria ser belga, da região flamenga, deambula entre uma cama de hospital e imponentes penedos “trazidos” do nordeste transmontano onde se alpendorara um outro leito articulado. A magia inerente a toda esta encenação revela-se, logo desde o início pois, subitamente, o burburinho da plateia foi substituído por um silêncio reverente e atento sem que se visse ou ouvisse qualquer sinal, a não ser a perceção de que a peça iria começar. A personagem, apelidada como a “Pior Enfermeira do Mundo” dirige-se à plateia, em holandês, descrevendo os últimos dias, no Hospital Amadora-Sintra de um doente terminal, o moncorvense Rogério Rodrigues. Junto ao leito vazio ficou, num saco preto um caderno e uma caneta azul. Fora uma exigência do jornalista e escritor do Peredo dos Castelhanos para ocupar os seus dias a escrever uma reportagem do dia a dia da enfermaria hospitalar, e que o seu filho mais velho, Tiago, teria satisfeito… parcialmente pois que, por distração, trocara a cor da caneta que, devia saber, teria de ser preta e não azul. Quando, finalmente, corrigindo o erro, regressa com a esferográfica repetidamente reclamada, encontra a cama vazia e, no saco negro, um bloco cheio de riscos que, vagamente, poderiam assemelhar-se a estranhas letras de um texto, quiçá, vários desenhos ou expressões artísticas. Provavelmente as derradeiras tentativas do escritor de registar mais uma das suas reconhecidas crónicas jornalísticas. O mistério seria desfeito com um outro caderno, paralelo, ditado pelo doente e escrito por uma misteriosa Teresa das Canções (exemplarmente interpretada por Manuela Azevedo que arrepiou todos os presentes a cantar Jacques Brel) não a Teresa Torga que o Rogério descrevera quando em maio de 1975 se despira na via pública às quatro horas da tarde e que Zeca Afonso cantara em composição com esse nome, incluída no álbum “Com as minhas tamanquinhas”, mas uma outra Teresa, conhecida do Tiago e que fazia voluntariado no Hospital, onde conversava com os doentes, ouvia-os, fazia-lhes algumas vontades (como a de escrever o que eles já não eram capazes) e cantava-lhes, deixando uma mensagem diária de despedida: haverá sempre canções ao fim da tarde que, para remate (sempre com o pano corrido), deixa em aberto a dúvida, desde as primeiras cenas – será uma pergunta ou uma promessa? Poucos dias antes, em Torre de Moncorvo, o Rogério foi homenageado por um conterrâneo e amigo: Paulo Salgado, que apresentou o seu livro “O que reconheço em Paris Sou Eu” onde reuniu cartas e poemas que o jornalista lhe dirigiu.

VENHA O DIABO E ESCOLHA

Pouco tempo depois de Donald Trump ter anunciado um projeto gigantesco com biliões a serem investidos no desenvolvimento da Inteligência Artificial através do projeto Stargate fomentado pelo patrão da OpenAI com o apoio do Softbank… caiu como uma bomba o anúncio da concorrente do ChatGPT, a chinesa DeepSeek, que, sem ficar atrás na performance tem por base uma infraestrutura muitíssimo mais leve e requereu um investimento a raiar o ridículo, quando cotejado com os produtos de Silicon Valley. O Mercado de Capitais de Nova Iorque ressentiu-se e deu um trambolhão de mais de seiscentos mil milhões de euros com desvalorização bolsista das tecnológicas associadas aos projetos de Inteligência Artificial americanos. As reações não se fizeram esperar. Por um lado, a euforia de utilizadores e desenvolvedores que, tal como Liang Wenfeng, privilegiam o uso de código aberto, preferido pela comunidade científica para os seus estudos e pesquisas por facilitarem a colaboração de redes livres e universais. Por outro, em contracorrente, vieram logo os avisos, as ameaças, o semear do medo e, claro, as proibições, um pouco por todo o lado. Segundo o que é conhecido as razões para a “ameaça” chinesa repetem o cardápio já anunciado para limitar o uso da tecnologia Huawei na implementação das redes 5G e vão desde a preocupação com a privacidade dos dados, armazenados em servidores chineses, riscos de segurança nacional para os governos ocidentais, partilha de dados com os órgãos de poder e fuga de dados e informações. São preocupações legítimas, porém têm, a meu ver, de ser devidamente relativizadas. A primeira interrogação que estas preocupações devem levantar, julgo eu, é: quem aproveita, e para quê, o conhecimento das minhas informações pessoais? E, uma vez que, na prática, como seguramente já todos perceberam, estamos imersos em ambientes digitais de gigantescas bases de dados a que dificilmente escapamos, que risco adicional corro se os mesmos estiverem guardados num regime autoritário, centralizador, controlador e que em nada depende da opinião dos cidadãos para se manter no poder, em vez de estarem à disposição de um regime democrático, sim, mas onde o poder está nas mãos de quem amnistia criminosos que atentaram, violentamente, contra a integridade do Estado e das Instituições Democráticas, ameaça tudo e todos que se lhe opõem, despede seletivamente funcionários da justiça que, em algum momento, baseados na lei vigente, promoveram ações que não lhe agradaram, acha que pode invadir um país, sem sequer ter de alegar quaisquer direitos históricos ou outros, mas apenas porque lhe convém ter acesso aos seus recursos naturais, se arroga no direito de deportar milhões de cidadãos para poder promover negócios imobiliários (área de negócio pessoal e privada) e, ainda, mas não na totalidade, entende que a eficiência do serviço público pode ser determinada por um empresário lunático e com avultados interesses no investimento público? Até hoje, a única intervenção ilegal no uso indevido de dados pessoais aconteceu em resultado da colaboração da inglesa Cambridge Analytica e da americana proprietária do Facebok.

COMPADRE ZÉ

Quem, por compromisso assumido se propõe dissertar sobre temas atuais, semanalmente, confronta-se frequentemente com a dificuldade de selecionar um tema tanto em alturas em que os mesmos escasseiam como, igualmente, quando abundam. Nesta semana são variados os assuntos que agitam a sociedade desde os incompreensíveis despedimentos no Bloco de Esquerda até à humilhante acusação a um deputado da nação e, pior ainda, a estranha, incompreensível e degradante resposta do seu antigo grupo parlamentar para o ostracizar e repudiar. Por norma, não gosto de me pronunciar “a quente” sobre matérias, sobretudo quando polémicas pois as parangonas tituladas, frequentemente, mascaram a realidade, muitas vezes mais comezinha. Mantendo e respeitando esta opção entendi por bem comentar a entrevista que o antigo Presidente da Assembleia da República deu, recentemente, à RTP2 onde discorreu sobre os candidatos à Presidência da República, matéria em que é, assumidamente, parte interessada. Não para enaltecer as suas próprias qualidades (não seria o primeiro nem a primeira vez – quem não se lembra do polémico autoelogio na antecâmara da receção ao Presidente do Brasil, Lula da Silva?), mas para apontar as pretensas debilidades de putativos concorrentes. Custa-me a entender que alguém, assumindo-se como democrático e, assim sendo, respeitador das opções da maioria queira condicionar as possíveis escolhas a critérios seus, onde faz uma primeira seleção sobre o que é ou não é aceitável. Segundo Santos Silva não é aceitável uma candidatura de um comentador televisivo promovida por um partido. Muito menos a de um ex-militar. A sério? Desde quando? Desde que Gouveia e Melo e Marques Mendes aparecem à sua frente nas sondagens? Curiosamente nenhum desses “impedimentos” consta da Constituição da República, único documento determinante para a elegibilidade de qualquer pretendente a ocupar o Palácio Rosa… Ninguém deveria ir além disso, muito menos quem ocupou a cadeira mais elevada do parlamento que a redigiu! Mais contundentes e mesquinhas foram as considerações sobre o seu correligionário António José Seguro a quem acusou de se “destacar” apenas com banalidades. Não concretizou nenhuma delas mas a este propósito, lembrei-me de algumas, embora não fossem da autoria do antigo líder do PS, tais como a expressão do gosto de malhar na direita e com especial prazer nos sujeitos que se dizem da esquerda plebeia ou chique! Isto, sem esquecer a classificação de jornalismo de sarjeta à comunicação social que não acatava as diretivas de José Sócrates, à data Primeiro Ministro e seu grande amigo. O melhor ficou para o fim: o candidato ideal, o único que merece figurar no boletim de voto – António Vitorino, porque “cumpre todos os requisitos”. Aliás, se for ele o candidato, Santos Silva não se candidatará… certo que o contrário também será verdadeiro. Lembrei-me de uma história que o meu pai contava, amiúde: “Cá, na Freguesia só há dois homens bons: um és tu, compadre Zé e o outro dirás tu, compadre, quem é!”

ROSAS DE VILA FLOR

No passado dia sete de janeiro, cumpridos que foram setecentos anos sobre a sua morte, evocou-se D. Dinis, o rei-poeta. Em Odivelas, onde está sepultado, passando por Santarém onde foi relevado, entre outros, o papel do monarca no desenvolvimento agrícola, Leiria, louvando a iniciativa de plantação do célebre pinhal, berço de caravelas, tema de cantigas de amigo e gérmen da ecologia, foi, em Vila Flor, celebrado o seu génio poético, o seu lado romântico e, sobretudo, prestada a devida homenagem ao soberano que, por ocasião da concessão do seu primeiro foral rebatizou a antiga Póvoa D’Além Sabor por lhe reconhecer a beleza suficiente (e evidente) para a qualificar como sendo a Flor das Vilas do seu reino. A propósito desta merecida comemoração o município vilaflorense entendeu por bem homenagear um apoiante desta celebração, de primeira hora, o padre Joaquim da Assunção Leite, falecido recentemente. No Centro Cultural Adelina Campos, perante uma plateia de amigos, o bispo auxiliar da arquidiocese de Braga e bispo titular de Dume, D. Delfim Gomes fez o elogio do homenageado, de quem foi muito próximo não só nas suas funções paroquiais, como na vida do dia a dia naquela vila, num registo informal, mas muito emotivo. Lembrou o percurso comum desde a colaboração na gestão do Seminário Maior de Bragança até à partilha de responsabilidades na paróquia de Vila Flor. O Presidente da Câmara, eng.º Pedro Lima, abriu a sessão, salientou a importância da atividade cívica, cultural e religiosa do sacerdote e depois de enaltecer as características ambientais e arquitetónicas do concelho que lidera, justificou o apoio do município à edição e apresentação de um livro, focado nesta comemoração e escrito a partir de uma ideia do padre Leite. A apresentação da obra foi adequadamente ilustrada com a representação de um quadro aí descrito, levada a cabo pela Filandorra. O grupo de teatro recriou a chegada dos reis de Portugal à Praça da República, acompanhando a performance cénica com um cuidado e adequado momento de música medieval. Após as apresentações foi servido um Porto de Honra onde, entre os acepipes se destacaram, mesmo que nem todos os presentes se apercebessem, algumas dezenas de doces concebidos e confecionados, de propósito para aquela ocasião. Das experientes e criativas mãos de Cármen Ochoa Pimentel, saíram deliciosos bolos de amêndoa e creme de ovos, em forma de rosa, como resposta ao desafio do já citado padre Joaquim Leite. A caixa onde vieram para o Centro Cultural estava, muito apropriadamente, ilustrada com a imagem da capa do livro “O Terceiro Milagre das Rosas”, ali apresentado. Não sei se a iguaria já foi batizada, porém, sem me querer arrogar do génio dionisíaco que tão brilhantemente renomeou a Póvoa D’Além Sabor, atrevo- -me a sugerir que a iguaria se passe a chamar “Rosas de Vila Flor”. Estou certo que, uma vez conhecida e divulgada, passará a ser mais um motivo para visitar a vila nordestina e, nesta, rumar até à Casa das Tias, nas imediações da Praça da República, na vizinhança da Rainha Santa, quem, primeiramente, atribuiu a estas flores, características alimentícias. Ou vice-versa…

PERCEÇÕES

A experiência é sobejamente conhecida dispensando-me de a descrever, aqui, com toda a minúcia. Se colocarmos uma mão num recipiente com água gelada e a outra num com água muito quente, metendo ambas, depois num tacho com água à temperatura ambiente, o mesmo líquido parece-nos, ao mesmo tempo quente e fria, de acordo com a mão e o lugar onde esta esteve, antes. Não podendo ser uma coisa e o seu contrário a única explicação é que a perceção que temos, baseada nas sensações, é enganadora. Sendo porém tão fortes e insistentes estas impressões, durante muito tempo condicionaram a forma como olhámos para o mundo levando a teorias tidas por verdadeiras e supostamente científicas como as que assumiam que a terra era plana e ocupava o centro do universo. Foram tão propaladas e assumidas, tão geralmente consideradas como indubitáveis que o seu abandono só foi possível com o talento de reputados cientistas, alguns com risco da própria vida, como Galileu e Giordano Bruno. Felizmente, depois de Descartes, a realidade começou a ser percebida, assumida e compreendia com base em factos inquestionáveis (cogito ergo sum) e tudo quanto possa ser deduzido destes de forma racional. Foi assim que a humanidade abandonou o obscurantismo medieval e entrou na era moderna recheada de descobertas científicas geradoras e promotoras do progresso e do bem-estar. Ao começar a atuar com base em perceções, assumindo que é o combate a estas que o move, ao mesmo tempo que concede que as mesmas são substancialmente diversas, em qualidade e intensidade, da realidade, o Governo da Nação, liderado pelo Primeiro Ministro não só promove um retrocesso civilizacional como, se aventura por um caminho perigoso e arriscado, para o próprio poder instalado. Ao agir, de forma semelhante à usada por poderes totalitários para manterem a autoridade despótica, só para “reduzirem” a perceção de insegurança, corre o risco de criar a perceção de que está em curso uma deriva autoritária coordenada pelo poder legítimo ou, pior ainda, de fora por interposta força que apesar de legal é minoritária e, como tal, carece de legitimidade para condicionar a vida de toda a população. Acresce que os números dizem que, existindo abuso no uso do Serviço Nacional de Saúde, por alguns estrageiros que vêm ao nosso país com o fito explícito de aqui receberem tratamento em condições privilegiadas, este fenómeno é residual e com fraco impacto real no financiamento do SNS, podendo (e devendo) ser combatido com o quadro legal já existente. Ao legislar especificamente para dificultar o apoio médico a recém-chegados, a pedido de uma força política que publicamente ataca e quer perseguir quem procura o nosso país para trabalhar e viver, parece que o partido do poder está a reboque de quem diz querer afastar-se. De pouco adiantará proclamar e reafirmar que o não é não se a prática, mesmo que o não seja, causar a perceção de que quem efetivamente manda no país não é o Primeiro Ministro mas quem se autointitula de líder da oposição!

SETECENTOS ANOS

Há sete séculos atrás, Portugal, conquistado o reino dos Algarves, desenhara já as suas fronteiras que, aparte alguns pormenores e pequenas disputas raianas, são as que ainda hoje prevalecem, fazendo do território lusitano aquele que há mais tempo tem os seus limites continentais definidos e internacionalmente reconhecidos. Mas o reino que D. Dinis recebeu de seu pai, D. Afonso III, estando estabilizado no que concerne aos objetivos da reconquista cristã, como resposta à invasão muçulmana de cinco séculos atrás, no que concerne ao poder da Nobreza subsidiário do poder real, estava claramente dividida entre a Velha e a Nova Nobreza. Ao grupo daqueles que, baseados nas famílias tradicionais (os Sousões, Bragançãos, da Maia, Baiões e Riba Douro) tinham andado a “filhar Portugal”, nos primeiros reinados, detentores de largos poderes e grandes domínios a norte do rio Douro, opunha-se o grupo dos cavaleiros que, tendo acompanhado o infante D. Afonso, quando este foi para terras de França, emergiram quando este assumiu o trono e cujas posses e domínio se situavam a sul, nos territórios que ajudaram a reconquistar, nomeadamente o simbólico e disputado reino dos Algarves. Culto, inteligente e grande estratega, D. Dinis procurou no reino de Aragão o aliado que lhe permitiu consolidar a fronteira com Castela, reforçando as suas disputas com o vizinho e, igualmente, potenciar as ambições mediterrânicas, como forma de responder à pretérita invasão muçulmana e que haveria de se concretizar, com a tomada de Ceuta, um século depois. Esta aliança traduziu-se no matrimónio do Rei Poeta com a Princesa de Aragão, piedosa, caritativa e devota que muito contribuiu para a normalização das atribuladas relações com a poderosíssima Santa Sé. Tendo-se oficializado em Barcelona, para ultrapassar a interdição dos templos portugueses, foi replicado, simbolicamente, em Trancoso, no norte do reino, mas a sul do rio Douro. Igualmente simbólica foi a entrada no reino lusitano de Isabel de Aragão que, estando programada para acontecer, naturalmente, por Almeida, veio a concretizar-se por Bragança, tendo a nova rainha pernoitado em Castro de Avelãs sob a proteção do Braganção Nuno Martins de Chacim. Para que este acontecimento fosse memorável, dando corpo ao espírito romântico e poético, D. Dinis ter-se-á deslocado de Trancoso ao Mosteiro brigantino para a saudar com uma serenata noturna. Porém, naquele tempo, não havia forma de percorrer a distância num único dia. Por isso, o monarca teve de pernoitar na Póvoa D’Além Sabor que, quatro anos depois, haveria de visitar para lhe conceder Foral e rebatizar como Vila Flor, rendido à sua beleza natural. É este acontecimento que a Câmara Municipal da Vila da Flor de Liz irá comemorar no próximo dia 7 de janeiro de 2025, por ocasião do septingentésimo aniversário da morte de D. Dinis, Rei de Portugal e dos Algarves. Nesta efeméride será igualmente homenageado o padre Joaquim Leite e apresentado o livro “O Terceiro Milagre das Rosas” idealizado por si e escrito por mim, com base nas suas notas e ideias transmitidas oralmente.

DA LEGITIMIDADE POLÍTICA

Acontece coincidirem num curto intervalo de tempo vários acontecimentos que nos interrogam sobre a melhor resposta a dar aos dilemas que, no mundo política, exigem uma resposta dos vários poderes instituídos. Enquanto se digere a inquestionável vitória de Donald Trump, em terras do tio Sam, não é legítimo questionar quer o resultado quer as suas consequências, mesmo quando esse parece ameaçar os princípios da democracia, tal como a conhecemos e a que nos habituámos. Trump foi eleito, sem qualquer dúvida, Presidente da América e, nesse cargo, pode, efetivamente, promover, executar e validar todas as ações previstas na lei e consentidas no estatuto do cargo a que ascendeu. Desde as nomeações polémicas para cargos e posições-chave da administração até aos indultos a quem, no passado, desrespeitou a lei e a ordem pública… desde que se limite a fazê-lo no âmbito do quadro legal em vigor no país. E, custe-nos ou não, a amplitude dos poderes que a Constituição Americana lhe atribui dá-lhe uma larga margem que não pode ser questionada por um grupo minoritário, por mais razoável e ética que possa parecer. Os partidos políticos têm como fim principal ganhar eleições e ascender aos vários patamares do poder. Em nome de uma ideologia a que devem aderir os votantes conferindo aos eleitos a legitimidade de implementar as várias ações contidas no seu ideário. O sistema democrático em vigor confere aos líderes partidários a prorrogativa de fazerem uma pré-escolha já que o ato eleitoral, mesmo livre e universal, traduz-se sempre numa opção limitada às opções em sufrágio. Isto implica que nem sempre o resultado de uma eleição se traduz na seleção do melhor, frequentemente, no menos mau. E, igualmente, não é inédito que o mesmo indivíduo se apresente, em períodos consecutivos, sob bandeiras diferentes revelando uma débil adesão a um determinado ideário. Costuma prevalecer a capacidade de ganhar o pleito. Tanto assim que, o espírito ganhador do candidato se sobrepõe a outras características humanas muitas vezes apreciáveis. Mas não há como fugir a essa questão. Pedro Nuno Santos tem de decidir se quer manter um candidato, supostamente ganhador, em Loures ou defender, intransigentemente o ideário herdado dos fundadores do PS e cultivados por muitas e gradas personalidades do socialismo democrático. Dilema parecido tem Luís Montenegro. Terá, inevitavelmente, de optar entre acolher, em sede de votação do orçamento, uma proposta de descida de IRS defendida e proclamada como virtuosa durante toda a campanha eleitoral ou manter um acordo de cedência que lhe garantiu o desanuviar do espetro de eleições antecipadas que pairou no ar, durante o verão. Mas, pior ainda, é a necessidade de escolher entre a manutenção, na importantíssima pasta da Saúde, de uma equipa mi- nisterial que se tem notabilizado mais em desfazer o que encontrou do que em construir alternativas funcionais ou dar prioridade ao bem-estar dos cidadãos mesmo que, para isso, tenha de dar a mão à palmatória, indo buscar quem foi afastado sem que houvesse substância concreta e evidente de desadequação das opções em curso e desfazer-se da titular de um ministério que, confiando nas suas próprias ideias e preferências, demitiu quem não lhe agradava, e quem, mesmo com erros e dificuldades, mantinha o INEM em funcionamento, cumprindo mais do que os mínimos, para colocar no seu lugar quem nem sequer tomou posse ou quem levou o referido instituto a níveis inadequados como a própria titular já admitiu.

O ORIGINAL E A CÓPIA

O mundo da política é, no mínimo, um mundo estranho. Nos últimos anos os vários partidos políticos tradicionais e com assento parlamentar tentaram, sem grande sucesso, diga-se, em abono da verdade, estabelecer um cordão sanitário à volta de um neófito emergente que, à boleia de novas/velhas correntes quis fazer germinar no nosso país um ideário de extrema direita. O empenho e a valoração da distância a tal ideologia foi tal que marcou e balizou muitas das opções políticas e até, ao que se julgou saber, determinou uma reviravolta em vésperas de eleições proporcionando uma maioria absoluta a quem melhor soube gerir o afastamento e a rejeição de tal ideário. Mas se favoreceu quem soube afastar-se e penalizar quem não conseguiu isolar-se de forma eficiente, não penalizou quem adotou e abriu as velas aos ventos que começaram a soprar do exterior. Pelo contrário, a ideologia que, julgada esmagada e enterrada no século passado, destruída pelo desfecho progressista da Segunda Guerra Mundial, ressurgiu, ganhou fôlego e impôs-se de tal forma que nem o “não é não”, limitando estragos, impediu o crescimento extraordinário da extrema direita, nem o incómodo da convivência forçada no parlamento evitou alguma normalização não só de ideias abstrusas, mas igualmente de comportamentos absolutamente estranhos e condenáveis, mesmo em ambiente de confronto ideológico nunca vistos, antes, nem sequer nos anos da brasa do PREC. Mas, o mais estranho de tudo isto, foi o que começou a acontecer, desde há algum tempo para cá. Em vez de tais atitudes, propostas e modus operandi desencadearem a sua rejeição, o combate democrático e o aprofun damento das teorias democráticas e humanizadas… ao mesmo tempo que as forças radicais “desenvolvem” as suas opções, radicalizam as suas propostas e até deixam de se coibir de exibirem e verbalizarem propostas absolutamente desprezíveis e condenáveis por todos e qualquer democrata, de qualquer quadrante… começou a surgir, aqui e ali, inicialmente ainda com alguma timidez mas, pouco a pouco mais claras quem, vindo e inserido em partidos democráticos, comece a adotar bandeiras do outro lado da barricada. Estranha e espantosamente, não foi só a influência do CDS nas questões supostamente polémicas das aulas de cidadania, o próprio e ambicioso Presidente da Câmara de Lisboa começou a ensaiar um discurso xenófobo e perigoso sobre os “riscos e perigos” da imigração para, recentemente, um outro autarca, militante e dirigente do partido socialista, não só acarinhou uma proposta trazida a reunião camarária pela direita do executivo municipal como, querendo apoderar-se dela e roubar-lha, aprovou-a e, não contente com isso, adotou-a, potenciou-a e proclamou-a, como sendo sua, adjetivando a inominável intenção de proceder a despejos, injustos, ilegais e desumanos “sem dó nem piedade”! O que se estará a passar na cabeça desta gente? Pensarão, por acaso que é adotando as ideias mais reacionárias e descabeladas que sustentam determinada força política, por mais difundidas que sejam e, até, com alguma aceitação, mesmo que crescente, que vão recuperar o eleitorado que, nos últimos anos lhe anda a fugir? Bem pelo contrário. Quem perfilha tal ideologia, podendo apoiá-la nos que lha trouxeram em primeira mão, dificilmente a irão buscar aos que mais não sabem fazer que copiá-la. E, ao mesmo tempo, não recuperando apoiantes desavindos afastam todos quantos poderiam servir de base para uma verdadeira batalha ideológica que os próximos tempos exigem e que, queiram ou não, é necessário travar. A menos que queiram imi- tar quem, começando por “meras” ambições locais acabou projetando-se ao nível nacional, renegando o partido que lhe deu apoio… mas, nesse caso, também a cópia dificilmente suplantará o original.