Editorial

Ontem acordámos em Bragança com cinza a cair-nos sobre a cabeça, um céu cor de brasas mortiças, o ar tomado por um fumo de lume gasto, que nos fazia respirar como nos arrabaldes do inferno.

Um balde de água gélida deixou pingados os entusiasmos que querem fazer crer que o país vive tempos de celebração do sistema educativo.

Apesar da sensação de que a política se vai reduzindo a uma trama urdida à revelia, senão mesmo nas costas do povo, de vez em quando a força da democracia irrompe, sísmica, provocando abanões que nos acordam para a inefável convicção de que a vontade dos cidadãos é factor decisivo no percurso das

As campanhas políticas já eram alegres, ao que parece, nos tempos idos em que Eça de Queiroz se dedicava ao jornalismo, no século XIX, quando o país fazia que andava, mas não andava na senda do progresso.

Com a pré-campanha a terminar, houve nova corrida, nova viagem dos responsáveis dos partidos maiores, por enquanto, pelas terras do distrito.

Tempos estranhos são os que vivemos. Os sistemas democráticos parecem destinados a segregar venenos que podem matá-los em breve, quando esperávamos que o mundo estivesse à beira de fazer a festa da liberdade, da fraternidade, da igualdade de todas as diferenças, mas também da solidariedade, porque o que vier a acontecer dirá respeito a todos.

Em fim de férias, quando a maralha tuga serpenteia pelas autoestradas maravilha, tejadilhos pejados de malas e embrulhos, ocupando de forma displicente as faixas centrais, com o pára-brisas de trás tapado por roupa e sacaria, a RTP transmitiu a gala da versão do passatempo 7 Maravilhas, desta vez dedicado às aldeias do velho rectângulo. 

Veio, finalmente, a chuva, qual bênção a refrescar-nos do fogo já quotidiano, desde o fim da Primavera.

Num país a arder, observa-se uma sequência estranha de decisões dos responsáveis da governação, que nos leva a considerar que quem manda, afinal não pode ou, pior, não quer que as coisas mudem, apesar da simplicidade das decisões que inverteriam uma situação que está a tornar-se uma normalidade i

É vulgar ouvir por aí que os órgãos de informação estão a perder credibilidade, que nem tudo o que se lê e ouve nos noticiários corresponde à realidade, que há sempre algo menos claro por trás do que se edita neste ou naquele jornal.

Quando Podence, uma aldeia do nordeste transmontano, teve quase um dia inteiro de antena na televisão pública, a propósito de um concurso que não foi realizado por lume de palhas, mas que, vá lá, serviu para divulgar algumas qualidades da nossa regi

Um calo de muitos anos não nos deixa saltar de contentamento quando ouvimos, de vez em quando, novas promessas de atenção ao interior do país.