Portugal entra num momento raro e exigente da sua vida democrática. Pela segunda vez desde o 25 de Abril, os eleitores são chamados a decidir o Presidente da República numa segunda volta, marcada para 8 de fevereiro.
Editorial
No silêncio agreste do Planalto Mirandês, onde o amanhecer, nesta altura, costuma trazer apenas o som do vento a varrer a terra, instalou-se, nos últimos tempos, um ruído diferente. O da inquietação.
Aqui, no Nordeste Transmontano, o tempo não se mede apenas em datas, mede-se em rituais, em gestos repetidos, em máscaras que regressam ao rosto e devolvem sentido às comunidades.
O ano que agora se fecha ficará registado, no Nordeste Transmontano, como um tempo de acertos de contas com o passado e de interrogações sobre o futuro.
Há datas que chegam como um sino que dobra por todos, lembrando-nos que a violência que se oculta por trás de portas fechadas não é um sopro distante, mas um fenómeno que atravessa silenciosamente a nossa comunidade.
Há territórios onde o silêncio ganha peso de pedra e Bragança é hoje um desses lugares onde o tempo parece caminhar mais devagar, como se carregasse às costas a memória de quem partiu. Os números da GNR não surpreendem quem conhece estas terras.
Há lugares onde o tempo não passa, antes se debruça, comovido, sobre aquilo que a humanidade decidiu preservar.
Há decisões que, pela sua natureza, não reparam o tempo perdido, mas restituem dignidade à própria ideia de justiça.
Há em Bragança, nestes dias de outono, uma cidade que observa, atenta, as direções em que cada um se move.
Há números que falam mais do que longos discursos. Quatrocentos e vinte bebés nasceram em Bragança entre janeiro e setembro deste ano. Quatrocentas e vinte novas vidas num distrito inteiro. É o número mais baixo de Portugal. E, mais uma vez, o último lugar.













