Editorial

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A vida também pode ser um fardo e a vontade de morrer não é uma novidade destas gerações que vivem tempos propícios a delírios sobre prenúncios de novíssimo apocalipse, definitiva tragédia, sempre esperada, prometida e reiterada, onde seria possível vislumbrar possibilidades de nos calhar um lugar entre os eleitos para a eternidade.

A democracia representativa, sistema de organização política que se consolidou nos últimos dois séculos e meio, já deu provas inequívocas de constituir cimento fundamental para garantir um presente e um futuro de dignidade para as comunidades neste mundo de esperanças, mas também de desilusões demolidoras.

Brumosa chegou a manhã, neste Fevereiro quente e vaporoso, ilusória Primavera a meio do Inverno natural, nesta terra semeada de cabeças encanecidas, rostos sulcados por rugas profundas, olhares indiferentes e sorrisos indefinidos.

Terá havido festa em Alcanices, nesse longínquo dia de Setembro de 1297 da era de Cristo, 1335 depois de César, quando Dinis, rei de Portugal e Fernando, rei de Leão e Castela assinaram o tratado que definiu a raia que separa os dois países.

O pior que pode acontecer à democracia é prestar-se ao ridículo, justificando as diatribes dos seus inimigos, que infestam a história política dos milénios que já levamos à face da terra.

A nossa relação com a realidade é um processo dialéctico, que nos permite abordagens progressivamente mais próximas da compreensão dos fenómenos, na medida em que nos vamos construindo como observadores racionais, capazes de reconhecer o erro e de encontrar métodos adequados ao esclarecimento, sempre provisório, da complexidade que nos rodeia.

Bragança voltou às manchetes por razões estranhas, desta vez com tons de morte, na sequência de um episódio absurdo, em que, aparentemente, a vítima maior foi o mais bem intencionado dos intervenientes numa altercação, quando se respirava instinto, uma característica de que a humanidade não se libertou, nem se libertará nunca, a não ser que ascendamos à condição divina.

Quando passarem umas horas estaremos a assistir à sequência de foguetório que tem início na Nova Zelândia e se arrasta até ao Leste do Pacífico, sempre imagens empolgantes de luz, som e transes de uma alegria efémera.

Este ano calha que o jornal sai oficialmente no dia de consoada, 24 de Dezembro, que toda a gente entende como o Natal verdadeiro, do bacalhau, do polvo, do azeite gostoso e, por cá, das rabas que trazem um toque da terra mãe, lembrando o abandono em que a fomos deixando, pecado sem remissão, por mais lágrimas que nos turvem o olhar, que a grande farra do consumo secará, qual lencinho de papel quimicamente perfumado, com insuspeitadas virtudes de iludir o cheiro incomodativo a morte, que espreita, gulosa, na próxima esquina da história.

No estado actual do nosso conhecimento, construído à custa da razão, não é possível conceber o mundo e a humanidade sem os integrar nessa estrutura radical, cósmica, essencial, a matéria, secularmente demonizada, pretendida refugo incómodo, dispensável na eternidade, notável fantasia de desiludidos, empenhados em sacudir as escórias da vida.

A oliveira, o seu fruto e o azeite que dele se extrai são referências fundamentais das civilizações mediterrânicas, associadas a confortos de divindades e às aspirações humanas na partilha das essências do que consideram as delícias da imortalidade.

A essência da política é a liberdade de pensar, que orienta a acção na res publica, a comunidade, polis ou civitas, como diriam os nosso maiores, gregos e romanos.