Editorial

As mudanças de ano, neste calendário do papa Gregório, são sempre marcadas por votos pios de prosperidade e felicidade, conceitos difusos que servem para que qualquer pobre de Cristo sinta um frémito fugaz de optimismo, para logo voltar à dolorosa via do absurdo, que Camus ou Kafka trouxeram, acutilante, à superfície do nosso quotidiano.
 

Bem pode Francisco apelar às lágrimas por Alepo e pelos milhões de deslocados, por cima de mais um Natal de luzes cintilantes, mesas fartas e planos para festarolas de fim de ano, que o mundo continuará no seu ritmo de desgraças, sem contemplações por piedosos lamentos ou simples alívios de consciência.

Há 102 anos o mundo resvalou para o festival de sangue porque a displicência de alguns poderosos da velha Europa, dados a festas e cerimoniais, não distinguiram uma mesa de bridge dos campos de batalha e se perderam a beber champanhe, enquanto ouviam relatórios de serviços secretos, também eles i

Nas sociedades consideradas exemplos de prosperidade multiplicam-se organismos de promoção de um dos principais desígnios da civilização: a solidariedade, a preocupação com o próximo, na terminologia cristã.

A idade do ferro é um período do catálogo da historiografia, um instrumento conceptual, útil para entendermos algumas das mudanças que se processaram na civilização desde há pouco mais de três milénios.

Aos 90 anos partiu Fidel Castro para a aventura, última quanto sabemos, da eternidade, o tudo ou nada da existência de cada um de nós.
Marcou mais de seis décadas da história recente, um perfil de profeta, com barba e tudo, a prometer, como sempre fazem os profetas, a salvação para lá do horizonte e a justiça implacável para os incréus, que seriam comidos pelas pragas que ele próprio lançava da sua praça em Havana.
 

Foram décadas a estiolar num país de misérias, reais e dolorosas, quando se sentia que havia tempo, ainda, para tentarmos erguer-nos de um destino que não procurámos, mesmo se a lassidão nos comeu as raízes, derramando a seiva sobre a inutilidade.

Primeiro o espanto. Depois o choro e ranger de dentes, os suspiros de desânimo. Este é o retrato das criaturas desesperadas, que sempre recusaram ver o outro lado do espelho.
Foi o referendo na velha Inglaterra, agora as eleições na América, com a França a desaferrolhar a porta.

A menos de um ano das eleições autárquicas, os municípios do distrito de Bragança continuam, na generalidade, a viver numa estranhamente tranquila paz do senhor, sem que se vejam surgir candidaturas capazes de animar a participação política dos cidadãos.

Pregar no deserto foi sorte que acompanhou profetas, nesta nossa civilização, longos milénios hesitante entre semear a solidariedade ou, pelo contrário, manter a selva predatória, sempre com renovadas ameaças, a ressurgir do sangue derramado na disputa de míseras migalhas do tempo.

Os líderes políticos do nordeste transmontano não têm demonstrado poder atingir condição que nos obrigue a reconhecê-los como valorosos combatentes pelos interesses da região. Não se lhes sente coragem, nem ousadia e mesmo a dedicação à causa do nosso futuro deixa muito a desejar.

Aparentemente o país está farto das nossas lamúrias, cansado da nossa pieguice, incomodado com as inconveniências que perturbam a suave leveza dos dias, sem sintomas agudos dos males que nos roem a vida.