Editorial

Com a pré-campanha a terminar, houve nova corrida, nova viagem dos responsáveis dos partidos maiores, por enquanto, pelas terras do distrito.

Tempos estranhos são os que vivemos. Os sistemas democráticos parecem destinados a segregar venenos que podem matá-los em breve, quando esperávamos que o mundo estivesse à beira de fazer a festa da liberdade, da fraternidade, da igualdade de todas as diferenças, mas também da solidariedade, porque o que vier a acontecer dirá respeito a todos.

Em fim de férias, quando a maralha tuga serpenteia pelas autoestradas maravilha, tejadilhos pejados de malas e embrulhos, ocupando de forma displicente as faixas centrais, com o pára-brisas de trás tapado por roupa e sacaria, a RTP transmitiu a gala da versão do passatempo 7 Maravilhas, desta vez dedicado às aldeias do velho rectângulo. 

Veio, finalmente, a chuva, qual bênção a refrescar-nos do fogo já quotidiano, desde o fim da Primavera.

Num país a arder, observa-se uma sequência estranha de decisões dos responsáveis da governação, que nos leva a considerar que quem manda, afinal não pode ou, pior, não quer que as coisas mudem, apesar da simplicidade das decisões que inverteriam uma situação que está a tornar-se uma normalidade i

É vulgar ouvir por aí que os órgãos de informação estão a perder credibilidade, que nem tudo o que se lê e ouve nos noticiários corresponde à realidade, que há sempre algo menos claro por trás do que se edita neste ou naquele jornal.

Quando Podence, uma aldeia do nordeste transmontano, teve quase um dia inteiro de antena na televisão pública, a propósito de um concurso que não foi realizado por lume de palhas, mas que, vá lá, serviu para divulgar algumas qualidades da nossa regi

Um calo de muitos anos não nos deixa saltar de contentamento quando ouvimos, de vez em quando, novas promessas de atenção ao interior do país.

Virtude maior de qualquer cidadão é a participação cívica, visto que as sociedades humanas não existem nos caminhos paralelos em que, ausente a política, se consuma o poder da força bruta, que esmaga ou dilacera ao ritmo do instinto.

Está a perder-se o respeito pelos exames nacionais, instituição que, com limitações, legitimou a dignidade do sistema educativo, desde a sua reposição no ano lectivo de 1993/94.

A lendária história de António, o santo de Lisboa, a falar aos peixes, na sequência das orelhas moucas dos homens, já inspirou milhentas reflexões, mas continua a constituir um bom ponto de partida para falar da sina deste humilde editorialista.

Vivem-se tempos paradoxais em que, apesar de todas as globalizações, festejadas ou sofridas, os indivíduos se deixam embalar em ilusões sobre redomas que os manteriam a salvo das agruras da história, mesmo quando os sinais de risco se repetem a ritmos avassaladores.