Editorial

É tão honorável fazer política nos altos estratos como na comunidade que nos viu nascer, assim como, em ambos os casos, pode ser deplorável. Depende da integridade dos protagonistas ou da falta dela.

Campeão da popularidade, Marcelo não esmorece no seu entusiasmo de bater todos os recordes, mesmo quando vai crescendo o número de cépticos que esperam confirmar, a qualquer momento, o rebentar da bolha da fama presidencial.

As boas almas já tinham relegado o demo para o lugar sórdido em que o mal se debateria com a sua própria nulidade, convencidas que, com o tempo lá iríamos, até ao novo Eden, onde a brutalidade não passaria de memória, suavizada pelas conquistas da inteligência e da sensibilidade.

Um sorriso quase empolgado aflorou-nos ao rosto quando foi divulgada a informação de que a maternidade de Bragança viu nascer, no ano findo, mais 22 crianças do que em 2015, tal é a vontade de acreditar que ainda é possível inverter a tendência demográfica e celebrar primaveras de novíssimas vida

O país está a viver o cerimonial do passamento de Mário Soares, figura que certamente, nos próximos séculos, terá lugar na história de Portugal, da Europa e do mundo.

As mudanças de ano, neste calendário do papa Gregório, são sempre marcadas por votos pios de prosperidade e felicidade, conceitos difusos que servem para que qualquer pobre de Cristo sinta um frémito fugaz de optimismo, para logo voltar à dolorosa via do absurdo, que Camus ou Kafka trouxeram, acutilante, à superfície do nosso quotidiano.
 

Bem pode Francisco apelar às lágrimas por Alepo e pelos milhões de deslocados, por cima de mais um Natal de luzes cintilantes, mesas fartas e planos para festarolas de fim de ano, que o mundo continuará no seu ritmo de desgraças, sem contemplações por piedosos lamentos ou simples alívios de consciência.

Há 102 anos o mundo resvalou para o festival de sangue porque a displicência de alguns poderosos da velha Europa, dados a festas e cerimoniais, não distinguiram uma mesa de bridge dos campos de batalha e se perderam a beber champanhe, enquanto ouviam relatórios de serviços secretos, também eles i

Nas sociedades consideradas exemplos de prosperidade multiplicam-se organismos de promoção de um dos principais desígnios da civilização: a solidariedade, a preocupação com o próximo, na terminologia cristã.

A idade do ferro é um período do catálogo da historiografia, um instrumento conceptual, útil para entendermos algumas das mudanças que se processaram na civilização desde há pouco mais de três milénios.

Aos 90 anos partiu Fidel Castro para a aventura, última quanto sabemos, da eternidade, o tudo ou nada da existência de cada um de nós.
Marcou mais de seis décadas da história recente, um perfil de profeta, com barba e tudo, a prometer, como sempre fazem os profetas, a salvação para lá do horizonte e a justiça implacável para os incréus, que seriam comidos pelas pragas que ele próprio lançava da sua praça em Havana.
 

Foram décadas a estiolar num país de misérias, reais e dolorosas, quando se sentia que havia tempo, ainda, para tentarmos erguer-nos de um destino que não procurámos, mesmo se a lassidão nos comeu as raízes, derramando a seiva sobre a inutilidade.