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Editorial

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Já estávamos a habituar-nos a rever com bonomia os registos de discursos histéricos de Hitler, das estridências de Mussolini, dos tropeções de Trotsky ou das encenações que suportavam o orgulho de Estaline.  Não dávamos muita importância às multidões que os aplaudiam, vibrantes.

Num tempo em que as aparências invadem o espaço público, servindo para nos distrair da essência dos processos políticos, viveu-se verdadeiro frenesim com a divulgação, às pinguinhas, dos membros do novo governo.

O regime democrático português adoptou o método de representação proporcional de Hondt para apurar os mandatos de deputados. Percebia-se que assim se garantia mais autenticidade na expressão institucional das opções realmente existentes na comunidade e a consequente pluralidade na Assembleia da República, mas também nos órgãos deliberativos e executivos dos municípios.

Parece que já lá vai o tempo dos sistemas democráticos quase tranquilos, marcados por decisões pragmáticas dos eleitores, que não esperavam consumar na sua participação cívica as mudanças deleitosas para o seu ego, mas aceitavam que o mundo, com todas as agruras e desilusões, ali estava, para além da ponta do nariz de cada um.

O texto atribuído a João, o evangelista, que relata o sonho do fim do mundo, constitui uma peça literária que marcou gerações de cristãos, mesmo se não passaram os olhos pelo texto, ficando-se pelos ecos das pregações de profetas da desgraça, empenhados em convencer os outros de que a vida não passava de uma tortura, castigo adequado à simples aceitação da existência.

 

A informação livre é um dos esteios das sociedades democráticas, suporte de decisões dos cidadãos com a necessária autonomia, condição para o exercício da verdadeira liberdade política, uma referência civilizacional de difícil concretização porque também depende de factores que estão para além da racionalidade.
 

 

A relação equilibrada com a natureza é vital para que se mantenha expectativa de futuro longo e tranquilo para a humanidade.

Nós, por cá, somos pouco dados a pantominices e, por isso, dificilmente ficamos fascinados com protestos de arrependimento e promessas de nova atenção, que marcam as passagens apressadas dos responsáveis nacionais pelos caminhos desta santa terra, onde a dureza da vida nos tempera o corpo e a alma.

 

O conceito de Estado como entidade que exerce a soberania em representação da vontade de cidadãos livres e activos tem história breve. Se relembrarmos tempos medievais, iremos encontrar modelos de exercício do poder que se sustentavam na afirmação da força pura e dura, com os reis a reclamar como propriedade sua os territórios e as comunidades, às quais concediam ou retiravam direitos ao sabor dos seus desígnios, que não correspondiam aos interesses dos povos que governavam.
 

 

A intervenção política requer paciência e serenidade, mas também coragem para persistir na defesa de princípios e valores que a civilização consagrou, ao longo de milénios, de que não devemos abdicar.

São muitas as razões para termos chegado à condição difícil, talvez irrecuperável deste nordeste transmontano, em agonia prolongada há décadas, sem que alguém tenha encarado a realidade com a necessária coragem de agir para reverter o que nunca foi inevitável.

O direito à greve é conquista recente das sociedades democráticas, apesar de haver registo de fenómenos similares desde tempos recuados na história europeia.