Ter, 20/01/2026 - 09:54
No silêncio agreste do Planalto Mirandês, onde o amanhecer, nesta altura, costuma trazer apenas o som do vento a varrer a terra, instalou-se, nos últimos tempos, um ruído diferente. O da inquietação.
Os recentes ataques de lobos a rebanhos, com especial gravidade nesta região do distrito de Bragança, vieram expor de forma crua uma realidade que há muito se vinha anunciando e que hoje já não pode ser ignorada, o receio e a sensação de desamparo entre criadores de ovinos e caprinos.
Em Vimioso, as perdas, no fim da semana passada, foram significativas e o impacto vai muito além do número de animais mortos.
Cada ataque representa meses e até anos de trabalho comprometido, um investimento perdido e uma ferida aberta numa atividade já de si frágil e exigente.
Os criadores vivem com o medo constante de encontrar, ao romper do dia, o rebanho dizimado. Vivem também com a apreensão de não saber se os apoios chegam a tempo, se as indemnizações cobrem verdadeiramente os prejuízos ou se as medidas de prevenção prometidas se concretizam no terreno. A criação de gado, sobretudo em regime extensivo, sempre foi uma vida dura, feita de longas jornadas, de escassa rentabilidade e de uma ligação profunda à terra. Hoje, é uma vida ainda mais vulnerável.
É impossível analisar esta situação sem reconhecer a complexidade do problema. O lobo-ibérico é uma espécie protegida, parte integrante do património natural da região e do equilíbrio dos ecossistemas. A sua preservação é um dever coletivo. Mas também o é a defesa de quem, geração após geração, moldou a paisagem, manteve vivos os territórios de baixa densidade e garantiu a sobrevivência de práticas ancestrais que dão identidade ao Nordeste Transmontano.
Os incêndios florestais, a redução das presas naturais e a alteração dos habitats criaram um cenário de maior proximidade entre o predador e a atividade humana. Este contexto exige mais do que discursos genéricos ou soluções avulsas. Exige políticas públicas eficazes, presença no terreno, prevenção séria e um diálogo permanente com quem sente o problema na pele.
A grande questão que se coloca é simples na formulação, mas complexa na resposta. Como garantir a coexistência entre a conservação da natureza e a viabilidade da atividade agropecuária? Como pedir a um criador que continue, resiliente, quando se sente sozinho perante prejuízos sucessivos?
Se queremos um interior vivo, com pessoas, rebanhos e futuro, não podemos normalizar o desespero de quem vê o seu sustento ameaçado. O caso de Vimioso, agora, deve, finalmente, servir de alerta e de ponto de partida para uma reflexão séria e responsável. Porque proteger o lobo não pode significar abandonar quem cuida da terra. E defender os criadores não deve implicar negar a importância do equilíbrio ambiental. Entre o medo e a indiferença, é urgente escolher o caminho da responsabilidade.
Ignorar ou menorizar este conflito é condenar ao silêncio não apenas os criadores que diariamente lutam para manter vivos os seus rebanhos, mas também um território inteiro que resiste com dificuldade entre a necessária preservação da natureza e a urgência de garantir condições dignas a quem continua a viver, trabalhar e produzir no distrito de Bragança.
Carina Alves, Diretora de Informação.


