Ter, 20/01/2026 - 09:56
Portugal entra num momento raro e exigente da sua vida democrática. Pela segunda vez desde o 25 de Abril, os eleitores são chamados a decidir o Presidente da República numa segunda volta, marcada para 8 de fevereiro. A primeira aconteceu em 1986, sendo que o país acabava de entrar na então CEE, antecessora da atual União Europeia. Portugal vivia um tempo de mudança. Mário Soares acabou por vencer Freitas do Amaral.
Quase quarenta anos depois, o país volta a dividir-se entre dois projetos presidenciais claramente diferenciados: António José Seguro e André Ventura.
A primeira volta revelou sinais que merecem reflexão serena. António José Seguro venceu em grande parte do território nacional, incluindo distritos onde o Chega havia sido a força mais votada nas últimas legislativas. No distrito de Bragança, essa tendência confirmou-se. Seguro foi o candidato mais votado, com cerca de 31% dos votos, superando André Ventura, que ficou próximo dos 28%. A distribuição do voto, concelho a concelho, mostra um distrito plural, longe de leituras simplistas, onde coexistem diferentes sensibilidades políticas e preocupações sociais.
Mas o dado politicamente mais marcante destas eleições não pode ser ignorado. Em apenas cinco anos, André Ventura passou de uma expressão residual para mais de 1,3 milhões de votos, garantindo um lugar na segunda volta. Este crescimento, comparável ao de outros movimentos populistas europeus, obriga a um debate profundo sobre as razões do descontentamento, da desconfiança nas instituições e da fragmentação do espaço político tradicional. Ignorar este fenómeno seria um erro, normaliza-lo sem espírito crítico seria outro, ainda maior.
A segunda volta não é apenas uma escolha entre dois nomes. É, sobretudo, uma decisão sobre o papel do Presidente da República num tempo de tensões sociais, incerteza económica e desgaste da confiança pública. As palavras proferidas na noite eleitoral pelos dois candidatos apontam caminhos opostos. De um lado, o apelo de António José Seguro à convergência dos democratas, progressistas e humanistas, à defesa das liberdades e ao combate ao extremismo. Do outro, a afirmação de André Ventura como líder do espaço não socialista e a promessa de uma rutura com o sistema político vigente.
Para Bragança e para o interior do país, esta eleição tem um significado particular. A escolha presidencial deve ser também um compromisso com a coesão territorial, com a valorização das regiões esquecidas e com um país que não se esgota nos grandes centros urbanos. O Presidente da República é, por natureza, um garante da unidade nacional, alguém que escuta todos e fala para todos.
A campanha que agora se iniciará deverá ser firme nas ideias, mas elevada no tom. O país não ganha com o ruído, a divisão ou o insulto. Ganha, sim, com um debate claro, exigente e responsável. No dia 8 de fevereiro, caberá aos portugueses decidir que tipo de voz querem em Belém e que imagem de Portugal desejam projetar para dentro e para fora.
Num tempo de escolhas decisivas, o voto consciente será o maior garante de que a Presidência da República continuará a ser um espaço de equilíbrio institucional, defesa das liberdades fundamentais e respeito pela diversidade política, social e territorial que compõe Portugal.
Carina Alves, Diretora de Informação.


