Quando a vindima chega mais cedo, a amizade continua a amadurecer
Diz o povo: “Outubro vem entrar, toca a vindimar.” Pois este ano, quando outubro chegar, já há muito vinho a ferver e outro a descansar nas pipas!
Chegamos à última edição de setembro, precisamente no dia 29, em que a Igreja Católica celebra os três Arcanjos: São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Antigamente, por muitas aldeias da Lombada, falar em São Miguel era também falar no começo das vindimas. Mas este ano, meus amigos, quando o santo chegou, já muita uva tinha desaparecido das videiras!
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O calor antecipou a maturação e, por terras de Valpaços, Mirandela e outras localidades da Terra Quente, houve vindimas quase um mês antes do habitual. Até nas aldeias mais fresquinhas, onde se esperava pelo São Miguel, as tesouras começaram a trabalhar mais cedo. As alterações do tempo também vão mudando os calendários da agricultura e obrigam quem trabalha a terra a estar cada vez mais atento ao ponto certo da uva.
Diz o povo: “Outubro vem entrar, toca a vindimar.” Pois este ano, quando outubro chegar, já há muito vinho a ferver e outro a descansar nas pipas!
Mas a vindima continua a ser uma das maiores festas das nossas aldeias. É família, entreajuda, boa disposição e, naturalmente, uma mesa onde nunca falta lugar para mais um. Há sempre alguém que aparece, alguém que traz uma história, alguém que ajuda a carregar uma caixa ou simplesmente fica mais um bocadinho à conversa.
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Que o digam o tio António Reis, de Talhas, o tio Fernando Palas e a tia Esperança, da Fradizela! Há vindimas com mais de trinta vindimadores e mais de quarenta pessoas à mesa. Isto já não é uma vindima, é praticamente um casamento! Só falta aparecer o padre!
E há histórias que merecem ficar registadas. Na vindima do tio Adérito Pinela, de Sacoias, houve este ano uma surpresa especial: a visita do tio Fernando Caiado, de Vinhais, amigo da família e ultimamente muito participativo no nosso programa. Foi visitar os amigos e acompanhar a vindima, porque também é assim que se mantêm e fortalecem os laços entre as pessoas.
Vindimar é trabalhar, conviver e estar presente.
E depois há uma tradição muito bonita que ainda se mantém em muitas aldeias: a torna-jeira.
A torna-jeira é simples e bonita: eu vou à tua vindima, levo quatro ou cinco braços para te ajudar; depois, quando chegar a minha vez, vêm quatro ou cinco de vocês para a minha vindima. É uma troca de trabalho, uma troca de boa vontade, uma verdadeira entreajuda entre famílias, vizinhos e amigos.
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Antigamente havia também o “dar o salto”, as partidas aos patrões e outras brincadeiras que transformavam os dias de vindima numa verdadeira festa. Entre uma cepa e outra havia sempre tempo para uma brincadeira, uma cantiga ou aquela partida que ainda hoje é recordada muitos anos depois.
Atualmente, muita gente vende as uvas ou entrega-as nas adegas cooperativas. Outros continuam a fazer o seu próprio vinho, mantendo vivos os costumes herdados dos pais e dos avós.
É o caso do nosso amigo Luciano Nogueiró e da tia Fatinha, que ainda fazem vinho à moda antiga, pisando as uvas e acompanhando todo aquele ritual que começa no lagar e acaba na pipa. É um trabalho que dá muito mais do que vinho: dá memória, dá identidade e mantém viva uma maneira de fazer que não queremos perder.
Quem nunca sentiu aquele cheiro tão característico do mosto a fermentar? Quem nunca ouviu os mais velhos dizer que o vinho está a ferver? Há adegas onde já se sente o resultado de mais um ano de trabalho, enquanto noutras o vinho começa a repousar nas pipas.
E não podemos esquecer os outros vindimadores, aqueles que ninguém convidou, mas que aparecem sempre: os javalis! Em algumas vinhas, segundo nos contam, chegaram primeiro, escolheram os melhores cachos e nem sequer ficaram para ajudar a carregar as caixas!
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Brincadeiras à parte, a vindima é muito mais do que apanhar uvas. É preservar tradições, juntar gerações, recuperar histórias e manter vivas as nossas aldeias. É recordar os que já partiram, ouvir as histórias dos mais velhos e ensinar aos mais novos que há coisas que não estão nos livros, mas que se aprendem vivendo.
E talvez seja precisamente isso que torna cada vindima diferente. A uva pode amadurecer mais cedo, o calendário pode mudar e o tempo pode trocar-nos as voltas, mas há coisas que continuam iguais: a vontade de ajudar, a porta aberta, a mesa cheia e o prazer de estar com os outros.
Nestes últimos dias estiveram de parabéns Alzira da Luz Cordeiro (100), Rio Torto (Valpaços); Irene Geraldes (84), Babe (Bragança); Alzira Coelho (83), Couços (Mirandela); Eurico Rebelo (81), Real Covo (Valpaços); Rosa Machado (75), Bragança; Luís Ramos (75), Caçarelhos (Vimioso); Maria de Fátima Alves (72), Golfeiras (Mirandela); Esperança Palas (62), Fradizela (Mirandela); Maria Manuela (54), Martim (Murça); Paula Cavalheiro (46), Vilarandelo (Valpaços); Domingos Afonso (39), Carragosa (Bragança); Cristofe Morais (38), a sua esposa Patrícia Santos (37) e a filha Leonor (7), Rebordelo (Vinhais); Julien Santos (32) e Luís Santos (7), Torre da Chama; Marco Silva (27), Caravela (Bragança); Márcia Romão (23), Argozelo (Vimioso). A todos, muitos parabéns e muitos anos de vida!
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