Ainda Sabemos Ouvir Quem Pensa Diferente?

Hoje em dia, a simples divergência de opinião parece ditar que o outro já não merece ser escutado.

25 set. 2026, 05:00

Quem acompanha o programa Parlamento Jovem, na Rádio Brigantia, às sextas-feiras pelas 21 horas, sabe que nesse dia faço uma viagem de 220 km após sair do meu local de trabalho até ao estúdio onde produzimos o programa.

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Ora, em 220 km de estrada, encontro o meu maior momento da semana para me atualizar sobre os temas fraturantes mais recentes e colocar os podcasts em dia. É aquele momento em que oiço outras vozes da nossa sociedade — vozes fora da minha "bolha" política e que me apresentam perspetivas diferentes sobre a realidade.

Um dos temas que captou recentemente a minha atenção foi a chamada "cultura do cancelamento". Qualquer um de nós que viva com alguma exposição pública, seja pela intervenção política ou pela participação em programas radiofónicos, sujeita-se a este fenómeno.

Antes de mais, importa compreender o conceito. A cultura do cancelamento prende-se com a rejeição e o bloqueio público (maioritariamente digital, embora com profundas repercussões na vida real) de alguém após a tomada de uma posição considerada, pela maioria ou por um grupo, imoral, preconceituosa ou ofensiva. No entanto, o verdadeiro problema que hoje enfrentamos é que, perante o aumento da polarização na nossa sociedade, quase tudo se tornou motivo para "cancelar" alguém.

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Hoje em dia, a simples divergência de opinião parece ditar que o outro já não merece ser escutado. Exemplo disso foi o boicote ao MEO Commedia a La Carte Fest por parte de alguns artistas nacionais, motivado pela participação do humorista norte-americano Jerry Seinfeld. O pretexto foi a recusa em partilhar o cartaz com alguém que declarou publicamente o seu apoio a Israel no conflito em Gaza. Mas será a recusa de debate e o silêncio a resposta para um conflito?

Este caso acabou por roçar o absurdo, uma vez que não existia qualquer atuação conjunta desses artistas com o humorista em questão, e o impacto da decisão foi nulo. O comediante manteve a sua atuação e os artistas que se retiraram perderam a oportunidade de usar a sua visibilidade para defender a causa pró-palestiniana.

Numa situação oposta, o rapper Macklemore viu as suas atuações de abertura nos concertos de Ed Sheeran serem canceladas por se assumir abertamente pró-Palestina. Neste caso, outros artistas recusaram atuar em solidariedade com Macklemore.

Qual é, afinal, a diferença entre estes dois cenários? No primeiro, a liberdade de expressão nunca esteve em causa: a oportunidade de palco era dada a todos, independentemente da sua posição quanto ao conflito no Médio Oriente. No segundo caso, existiu uma intenção deliberada de silenciar vozes que defendem a paz em Gaza e a libertação do povo palestiniano.

No fim de contas, o que está em debate é a crescente ausência de diálogo e a recusa em construir pontes entre pessoas, partidos e coletivos. Esta incapacidade de escutar o outro é o terreno fértil que alimenta as forças extremistas na nossa sociedade — forças que vendem soluções mágicas para problemas complexos e que promovem posições egoístas numa sociedade que se quer livre, democrática e em paz.

Por acreditar que a sociedade se constrói precisamente com base no debate de ideias e no confronto de estratégias entre pessoas de diferentes quadrantes políticos, desejo a todos os moderadores e participantes de programas de debate político um excelente recomeço de época. Que sejamos sempre um exemplo vivo de liberdade de expressão e da discussão plural de ideias capazes de melhorar a nossa sociedade e a vida de todos nós.

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