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PODER E RIQUEZA

Nos conturbados tempos que vivemos estamos a ser confrontados com uma alteração acelerada dos códigos tradicionais de convivência societária. Com o passar dos anos e o almejado progresso e melhoria, em todas as vertentes, do nível de vida e das regalias sociais, fomo- -nos habituando a uma casa comum onde a coabitação se regia por regras, cada vez mais democráticas, justas, racionais e solidárias. É verdade que, em várias partes do mundo, continuam ainda a existir (e a surgir, de vez em quando, embora com menor frequência), regimes autoritários, porém, com medidas de cariz democrático, efetivas ou, pelo menos, simuladas. Escorados, estes últimos, na sua maioria, em poderes de base religiosa, hereditária e, quase todos, no controlo e uso, em proveito próprio das forças militares. A luz ao fundo do túnel aparecia, praticamente sempre, na forma de um golpe revolucionário, na alternância de um poder popular (nos casos em que os arremedos de democracia pudessem permitir a realização de eleições) ou no aparecimento de alguma vaga de fundo nascida do esclarecimento, da cultura e do triunfo da razão. Porém, o início do novo milénio, concretamente na terceira década deste século, começam a surgir movimentos que, em sociedades maduras, livres e progressistas, sendo autoritários e despóticos que, mesmo usando os mecanismos legais, explorando a mentira, o exagero, a distorção e a bazófia descarada, chegam ao poder e começam a alterar, em seu proveito as regras estabelecidas. A expressão máxima e, igualmente, a mais perigosa tomou os comandos da governação da mais poderosa nação do mundo e isso é, inegavelmente, um risco para toda a humanidade. As notícias vindas dos Estados Unidos da América confirmam a tomado do poder por quem olha para todo o mundo com uma lógia mercantil em que a tradicional diplomacia entre estados autónomos é substituída pela ardileza negocial do mercado. Tanto assim que, com todo o despudor, colocam-se em lugares de poder efetivo, interno e, por essa via, com capacidade de influenciar os poderes externos, pessoas cuja característica mais relevante é a sua desmesurada riqueza. Obviamente que as grandes fortunas, sempre tiveram de ser levadas na devida conta, pelos governantes, como forças de pressão influenciadoras das políticas públicas, mas nunca como decisores do futuro de cidadãos, sociedades, países e nações. Porém, tal como noutras circunstâncias, o poder adquirido de tal forma, não é inelutável. E, curiosamente, a luta contra tal tirania, nem sequer implica grandes arrojos, perigos ou sacrifícios. O desmesurado poder de Elon Musk, Jeff Bezos e companhia, advém-lhes do seu colossal património mas este não lhes caiu do céu, não o colheram nas árvores, nem tão pouco o exploraram no subsolo. Quem fez deles ricos e por consequência lhes abriu as portas do poder, fomos todos nós. Ora, se tal distorção nos incomoda a solução é simples: boicotemo- -los. Deixemos de comprar Teslas de fazer compras na Amazon e, tão simplesmente, passemos a ignorar o X.

Por uma reforma radical do regime político vigente

Deixemos, por agora, os “political shows” que um tal Trump persiste em dar na emblemática Sala Oval até que se clarifique, de uma vez por todas, de que artista se trata, se de um malabarista, de um engolidor de espadas, de um domador de feras ou de um trampolineiro, que é o mais certo. A democracia, genericamente aqui citada, enfrenta problemas preocupantes em todos os países em que foi instaurada, a bem ou a mal, da melhor ou da pior forma. Em Portugal, como se sabe, foi implantada a mal, por um golpe de estado militar e não da melhor forma porque teve que enfrentar, logo à nascença, um processo revolucionário injustificado, que forçou a instauração, felizmente sem sucesso, de um sistema ditatorial bem pior do que o anterior, desde logo porque exibia no seu cadastro o massacre de milhões de seres humanos. Sistema vulgarmente designado por comunismo, que acabaria por se esboroar em todos os países em que vigorava, decorridas escassas décadas desde a sua instauração, com fragoroso estrondo no caso do sinistro império conhecido por União Soviética. Voltando a Portugal: a democracia, que havia sido implantada a mal, também o não foi da melhor forma, porque a Assembleia Constituinte eleita para redigir e instituir a Lei Fundamental do novo regime democrático, esteve sequestrada durante 36 horas, para lá do clima de insurreição geral reinante. Episódio antidemocrático que gravosamente condicionou o espírito e a forma do texto constitucional que, apesar de todas as vicissitudes, seria aprovado em 2 de abril de 1976. Assim se compreende que a denominada Constituição de 1976 sofresse, à partida, de malformações e desajustes antidemocráticos que não terão sido completamente eliminadas com as 7 revisões de que foi objecto, alguns dos quais persistem, condicionando gravosamente leis regulamentares do processo político quotidiano. Importa, por isso, para clarificação do debate político que presentemente se trava acaloradamente, distinguir sistema político democrático de regime político propriamente dito, conceitos que são correntemente confundidos, por ignorância ou má fé. É que o sistema político democrático, conceito teórico e englobante, pressupõe a garantia das liberdades e direitos fundamentais e que os governantes sejam escolhidos mediante eleições justas e livres, para lá de igualmente consagrar a separação de poderes, um só voto por cada cidadão e a justa representação nos órgãos de poder das diferentes tendências de opinião. Já o regime político, conceito pratico e concreto, que deve respeitar todos esses pressupostos, poderá assumir modalidades diversas, nomeadamente a presidencialista, a semipresidencialista, a parlamentar, ou mesmo a monárquica, como acontece na Inglaterra ou em Espanha. Ora, o regime político português, muito embora não deixando de ser basicamente democrático é de duvidosa composição porquanto o Presidente da República, o Governo, a Assembleia da República e o próprio Sistema Judiciário, poderão dar-se ao topete de mandar cada um para seu lado e de não se respeitarem mutuamente, como já por diversas vezes se verificou. Pior um tanto, é na “entourage” destas instituições democráticas fundamentais que preferencialmente se acoitam subversores da democracia, que impunemente se servem ilicitamente do Estado, traindo o interesse nacional. Donde resultam os males crónicos que gravosamente afectam a imagem da democracia, o funcionamento dos organismos de Estado, designadamente: - Os elevados índices de corrupção e de pobreza; - O funcionamento deficiente dos serviços públicos principais; - O atraso de desenvolvimento de Portugal relativamente aos seus parceiros da União; - A Justiça lenta e controversa; - O desfavorecimento das regiões interiores; De quem é a culpa de tudo isto, perguntar-se-á? Não é seguramente do povo português que sobejamente tem dado provas de ser pacato e respeitador da lei, talvez em excesso até. Também não será da democracia, como muitos pretendem. É, sobretudo, do regime político vigente que, asfixiado pela hegemonia partidária, afasta os melhores da política e obsta à eleição para a Assembleia da República de deputados independentes ou mesmo de representantes de associações cívicas. Regime que auto gera uma classe política de insuficiente competência ética e cívica, de que Assembleia da República é espelho, para lá de promover o nepotismo, o clientelismo e o compadrio, que minam o Estado e viciam toda a vida nacional. Denunciar os vícios do actual regime político, para lá de um imperativo moral e patriótico, é a melhor forma de defender a democracia, contrariando quantos interesseiramente se batem pela manutenção do status quo. Mais do que nunca se justificam, portanto, reformas radicais do regime político vigente, sem as quais continuará a degradar-se, imparavelmente, até ao colapso total.