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Tânia Rei

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O doce sabor da vitória

“Vá, se comeres primeiro uma nata, depois compro-te um chupa-chupa”. A conversa pode não ter chegado à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, mas chegou até mim, que naquela terça-feira casualmente estava ali ao lado na cafetaria, na minha vida. Uma avó, vou deduzir, dirigia-se ao neto. Era um puto loirinho com uns 3 anos. Quando dei pela presença dele, estava já com as mãozinhas coladas à montra de vidro, a ajudar a vista. Sorri. Ingerir duas vezes seguidas açúcar refinado seria para a Tânia daquela idade uma situação de vitória- -vitória. Não vi ali algo que fosse mau, uma perda-vitória, para compensação feita à base de guloseimas, sendo que as duas opções eram lambarices. “É n’instante que a comes [à nata, ou pastel de natal, dependendo da zona do país onde estejam a ler isto]”, insistiu a avó. Pois é, assenti eu, na minha cabeça. O bolo não é assim tão grande. Dei por mim a mirar também os produtos disponíveis, à procura daquilo que faria a Tânia-criança perder as estribeiras, que seria o meu bolinho de arroz, ainda hoje um pináculo da criação da doçaria para as minhas papilas gustativas, ou um queque de laranja. E olhem que isso só acontecia em dias assinalados, em que antes das 11 da matina podia saltar o pão e o leite! Lá estavam eles, mas com a minha idade acho que já nem seria adequado este suborno à mesa, principalmente sendo eu a pagar a conta. Ainda se colocou ao loirinho a opção dos salgados, com uma espécie de lanche em caracol, recheado com chouriço e queijo. Igualmente declinada. A interacção acabou com a senhora avó a transmitir ao balcão que o pequeno, afinal, não queria nada. Eu mandei vir um descafeinado. Triste. Ficámos os dois, o menino e eu, sem embutir doces e/ ou gorduras hidrogenadas. Talvez seja difícil convencer o petiz a comer seja o que for, e vá daí a família estrategista, a experimentar de tudo, até aquilo, provavelmente reprovado por pediatras e nutricionistas. Certo é que, perante uma panóplia de oportunidades, o teimoso do garoto escolheu ficar na mesma. Levou a dele avante e preferiu ir-se embora sem nada do que ceder a chantagens. Lambiscar um chupa-chupa não valeu para quebrar e comer outra coisa que não queria. Portanto, apesar de tudo, daquele duelo que teve direito a plateia, saiu um palmo de gente vitorioso. O mais novo foi a saltitar à frente da avó, a saborear o doce da vitória de ter feito o que bem lhe deu na gana. Esta crónica não é sobre chupas nem sobre bolos.

“Fica bem”

“Vá, fica bem, sim?”, disse ela, já meio atirado por cima do ombro. “Vou tentar!”, respondeu ele com um tom de voz onde se ouviu gargalhar, mas que, na linguagem de bonecos amarelos, seria aquele emoji a sorrir com uma lágrima a escorrer pela cara. Resolvi olhar para aferir a quem se dirigiam os votos. Vi então um rapaz a ajeitar a mochila da escola com uma mão, para a manter nas costas, enquanto que com a outra segurava com veemência uma compressa contra a testa. Finalmente, pensei. Ali estava, com aplicação real e bem metida, a expressão “fica bem”. Claramente, o rapaz já viu dias melhores, ao menos sem remendos na cabeça. O que é este “fica bem”? Quase sempre vai com um tom de escárnio e como que a marcar o ponto final irrevogável no assunto em curso. Por cada vez que dizemos ou escrevemos “fica bem”, morrerá um golfinho algures. Porque, na verdade, e isto é polémico, não queremos que o receptor fique bem. Queremos é que vá para o raio que o parta. E lá deixamos aquela farpa mascarada de sensibilidade. Depois de um “fica bem” sabemos que não há mais nada a dizer. É o pináculo das despedidas. O que pode estar acima de um “fica bem”? Será que é permitido por lei voltar a entabular conversa com alguém que nos tenha dito um redondo “fica bem”? Se calhar, isso soa a desafio, voltar à carga. “Então não te disse já para ficares bem, caramba?”, poderiam levar na volta todos os que ousem desafiar as regras do “fica bem”. O “fica bem” será uma versão mais moderna e com menos carga religiosa o que um “vai com deus”, um “deus te acompanhe” ou até um “vai em paz”. E, por isso, com menos culpa por lá escrever a morada do sentido oposto ao céu. O “fica bem” não tem reforço positivo nem altruísmo. Porque não pretendemos mexer um mindinho para que tal se materialize em verdade. Reparem, dizer “fica bem” a alguém que hipoteticamente está mal é o mesmo que dizer a um doente para iniciar uma auto-cura. É deixar à sua sorte aquela pessoa que recebeu um mágico “fica bem” como um bilhete dourado, só que, na prática, é incapaz de mudança. Pode ser que o “fica bem” seja, simples assim, um voto de “espero que não fiques na fossa, qualquer coisa desenrasca- -te e não me incomodes”, quando não tem embutida a ironia. E, na prática, vai tudo dar ao mesmo. Naquele final de manhã, ali com algum drama à mistura, o rapaz da compressa na testa pôde aplicar um “fica bem” para aliviar o que tinha debaixo do paninho. Tenho para mim que não o auxiliou em nada, contudo, não vou afirmar. Quiçá um “as melhoras” tivesse surtido mais efeito, três vezes ao dia durante uma semana. O que tenho a certeza é que fiquei com mais fé na Humanidade e no “fica bem” dito sem maldade. Poderá existir. Na minha cabeça, contudo, sempre que o digo, continuará a sair-me com uma capa protectora irónica, algo teatralizada e com a morada do inferno, como uma noiva a abandonar o altar antes do “sim, aceito”. E isso faz-me ficar bem.

Livin’ la vida...de adulta

Ultimamente, estou viciada num aparelho a pilhas com cerca de vinte centímetros. Sim, é isso mesmo que estão a pensar. Comprei um batedor de leite e estou fascinada. Há um ano, ou coisa que o valha, a minha afilhada mais velha disse-me que a partir dos 35 anos é-se adulto. Eu, jovem por um fio à altura destes factos, perguntei de onde vinha aquela certeza. Acho que ainda nem havia o IRS Jovem. Pelos vistos, dá-se na escola, no quarto ano. Portanto, pela lógica dos manuais atualizados da instrução primária, se neste momento me esbardalhasse à séria e me finasse, nas notícias iria aparecer “mulher morre - inserir motivo do óbito a gosto” e não “jovem morre”. Triste. Bom, agora sou adulta. Agora, como quem diz. Há uns bons dois meses. Passado o devido período de adaptação, posso afirmar que sou adulta. Os adultos têm particularidades estranhas, como esta, de ficarem maravilhados com batedores de leite. Afirmo. Sem vergonhas. Damos por nós nas lojas a acariciar panos da loiça, a testar o quão fofinhos são e a imaginá-los a absorver a água dos nossos tachos com eficácia. Passa a ser um consolo ver trens de cozinha em promoção. No meu caso, mais, até, do que homens musculados e desnudos, porque vejo mais utilidade a longo prazo numa boa frigideira anti-aderente. E se forem eletrodomésticos em promoção? Até me arrepiei, caramba. Não é para me gabar, mas uma vez fizeram-me um desconto de dois euros e meio num jogo de lençóis e numa colcha. Foi um dia i-n-c-r-í-v-e-l. Voltei para casa com a sensação de que tinha vencido uma qualquer guerra, a exibir as cobertas, só para ostentar. Até liguei a amigos, para contar o sucedido e ficar a saborear a inveja deles. Há pior. Dei por mim um dia destes a suspirar com um suporte de papel higiénico, com peças em bambu, que tem um segundo apoio, no topo, para o telemóvel, mesmo à medida. Um Santo Graal da casa de banho, em vez de pousar o telefone na pia, como um comum mortal. Simples descascadores de batatas e utensílios que deixam os legumes e fruta em espiral ou em forma de estrelinhas passam a ser ‘must-haves’. Até porque damos por nós a contar quantas vezes já ingerimos hortícolas naquela semana, com medo de apanhar escorbuto ou radicais livres que nos causem rugas. Não que os adultos sejam velhos, calma! Ainda há duas semanas, num hipermercado, me pediram o cartão do cidadão para verificar se a minha idade permitia comprar uma garrafa de vinho e outra de sidra. É a segunda vez que me sucede no espaço de dois anos, mas agora, como adulta declarada que sou, claro que tive um ataque de riso, a roçar o histerismo, e disse para mim mesma “ainda estás aí para as curvas, miúda!”. Devo acrescentar, contudo, que quando ouvi a palavra ‘cartão’, de imediato abri a aplicação (adulta e moderna!) dos descontos. Porque adulto que é adulto faz contas às promoções. Quando era jovem (saudades!) dizia muitas vezes à minha mãe que eu não precisava de aprender as lides domésticas porque iria ter alguém a quem pagaria para mas fazer. Até ao momento, tal não se traduziu na vida real. A vós me confesso, depois do trabalho quase obsessivo-compulsivo, não há nada mais satisfatório e do que o cheirinho a lavado, com a cama feita e tudo (ganhaste esta, Mãe!). Dou por mim a sentir um certo asco, misturado com pena, de pessoas que não sabem fazer uma máquina de roupa decentemente. Ou que têm a lata de abrir a boca para dizer que não sabem cozinhar nadinha. Mas, aquilo que eu mais gosto de ser adulta é mesmo a calma que trouxe. Passamos a olhar para a vida de forma mais racional, com a certeza de que é melhor levar tempo do que agir por impulso. Amanhã, se Deus quiser, vamos estar aqui, com toda a serenidade de um crescido. E a única coisa que não pode passar da data é a promoção das panelas e o prazo para pagar porcarias às Finanças.

Eufemismos da vida

Apesar de ser espinhosa e complicada de alcançar, encontramos na Língua Portuguesa palavras, expressões e verbos que são muito auto-explicativas. Estava a ver um programa de televisão onde me chamou a atenção o empregar de um verbo talvez pouco usual, mas que entra, claramente, neste grupo - é ele o verbo desviver. Desviver é, sem margem para qualquer dúvida ou motivo de especulação, o contrário de viver. Sem grande ciência e usando pouco mais do que uma regra de três simples, entendemos que alguém que desviveu está morto. Desviver é, ainda que exatamente o mesmo, menos mau do que morrer. E morrer é pior do que falecer, finar ou perecer. Estar morto é, por esta mesma ordem de ideias, muitíssimo mais grave do que ser defunto. Desviver pode ter outro significado, que também é literal. Algo como fazer com a nossa fita do tempo o que fazíamos para reciclar as velhinhas cassetes VHS. Puxar tudo atrás e gravar outro filme por cima daquele que já nos tinha ocupado demasiados domingos à tarde. Portanto, viver outra vida. É, seguimento de raciocínio, um verbo sobre a vida, seja em ausência ou alterada. Desviver transmite uma sensação de desespero num dos significados e de esperança no outro. Se para desviver não há remédio, desviver o passado acalenta a esperança de poder fazer diferente, virar noutra encruzilhada e quebrar qualquer enguiço que se apresente. É curioso que desviver possa querer dizer tanto deixar como voltar a viver. São coisas que parecem estar em extremos opostos, acabar a oportunidade ou renová-la. Contudo, são caminhos diferentes de um mesmo ciclo. Depois de tudo desvivido e vivido outra vez, tudo indica que se desviva no deselance. Pode parecer uma charada, mas faz-me sentido. Há aqui uma péssima notícia que lamento ser eu a dar. É que, antes de desvivermos, a possibilidade de podermos desviver é algo remota. Emendar um erro de forma eficaz e sem mácula, sem ficar a parecer que passámos uma borracha azul movidos a raiva sobre o papel incauto, sucede poucas vezes. É uma chance que poucos teremos. Mesmo apagar aquela mensagem que foi por engano no Whatsapp antes de ser lida na barra de notificações. Mais difícil será poder corrigir um erro e, por cima, acertar em cheio no suposto certo. A vida é complicada. Viver é complicado. Desviver, nem tanto, pois, diria alguém famoso, que para desviver basta, pasmem-se, estar vivo (acrescentei estes clichês só para confundir um pouco mais os caros leitores, com estas palavrinhas todas iguais, juntas e repetidas. Mas já vimos que desviver também pode ser complexo, mediante o significado. Vamos vivendo e desvivendo. Que vivamos até tudo ficar desvivido. Desvivamos até vivermos tudo. Que façamos o melhor possível, se não para sempre ao menos o tem- po suficiente para tornar a nossa passagem indelé- vel, tudo antes de chegar a nossa hora de desapa- recer.

Haja vontade

Quando é que se aperceberam de que estão rodeados por pessoas extraordinárias? Talvez ainda nem se tenham dado conta. Tentem fazer esse exercício hoje - olhar para as pessoas como pessoas. Saborear-lhes a alma, ver-lhes as entranhas. Há uma famosa frase que diz que ninguém é tão ignorante que não possa ensinar nem ninguém tão sábio que não possa aprender. Todas as pessoas com quem nos cruzamos deixam algo em nós, se der-mos chance. Quando não dermos, ficamos a perder. Num presente em que tudo é uma rápida sucessão de eventos e onde nunca temos tempo na ânsia de avançar, tem-nos faltado apreciar os outros seres humanos. Apreciar, na verdadeira acepção da palavra. Quando foi a última vez que pararam para dar da vossa disponibilidade a alguém? Que se detiveram para ouvir e fazer perguntas? Ainda sabem como é ter uma conversa onde ambos estejam presentes e empenhados, sem termo? Estaremos mesmo com menos tempo disponível, fruto do ritmo de vida agitado que levamos? Ou essa é a nossa boa desculpa? A vida vai acontecendo à nossa volta, mesmo que não façamos nada por isso. Com ou sem efeitos borboleta pelo meio, vai correndo. E nós sempre a dizer que hoje não tivemos uma oportunidade para, que não deu porque, que se meteram outras coisas. E os ponteiros avançam e perdemos as pessoas. Como fumo, vão desaparecendo. Desapareceram sem que, sequer, déssemos por isso. É que “hoje não tive uma oportunidade para”, “não deu porque”, “meteram-se outras coisas”. Com elas vão lições e vivências que nunca vamos entender. É que a prioridade nunca são as pessoas. A bateria está sempre apontada para um lado menos claro e nem sempre definido. Há sempre algo que parece mais imediato. E as pessoas... bem... isso logo se há-de ver. Têm parado para dar apreço aos vossos entes queridos? Fazer-lhe perguntas sobre o mundo, sobre o que os move, sobre coisas aleatórias da vida? Sabem o que eles fazem de melhor? Já os viram em todas as suas luas? E por que motivo escolhemos manter algumas pessoas e descartar outras? Qual é o critério, se nem lhes vimos a essência? A vida é um lugar incrível para se morar, em especial rodeados de vizinhos. Viver num enorme bairro é melhor do que viver num condomínio fechado. Que bom é poder bater na porta desses vizinhos e chamá-los para uma festa, onde, a meio da dança, olhamos para o lado e vemos. Vemos, de verdade, e ficamos felizes, por saber quem é o vizinho que ali está, a segurar-nos pela mão. O relógio estica ou encolhe conforme quisermos. Não nos falta tempo - falta vontade. Haja vontade. As pessoas extraordinárias estão à nossa espera, mesmo aqui ao lado, com a mão esticada à espera que a agarremos para irmos bailar.

“O tal” possível

Este texto é inclusivo. Pode ser lido por solteiros ou comprometidos. Não quero traçar já aqui uma linha, o que me iria fazer perder leitores. E isso era uma grande chatice. Sem querer parecer alarmista, mas… já vi- ram quantas relações amorosas correm mal? Não possuo estudos estatísticos, estou só a deixar aqui esta afirmação com um objetivo definido - causar coceiras, inquietações e deixar-vos a pensar precisamente nisso que estão a pensar neste momento: quantas histórias sobre términos e falsas partidas vos foram relatadas ou experienciaram? Todos, em algum momento da nossa existência, pensámos em encontrar “o tal”. A pessoa que definimos na nossa imaginação, que tem tudo com que sempre sonhámos e que, de caminho, ainda gosta de nós da mesma forma porque só assim estão reunidas condições para viver um amor eterno e sem sobressaltos. Nos filmes, “o tal” é sempre o óbvio. Só que andam sempre às turras até que um belo dia acordam e descobrem que, afinal, “o tal” é o tal que estava ali mesmo à frente do nariz, bom de ver. E que era escusado o tempo que foi dedicado a ignorar ou a afastar o que tinha de ser. Bem diz o ditado, o que tem de ser tem muita força. Mas isto de viver em tempo real e sem guiões nunca foi bem algo certo, como o são as fórmulas matemáticas. Portanto, às vezes não tem de ser nada, ou, pelo menos, nada acontece. Então e se forem tão fra- quinhos como eu com os números, as chances de dar ruim dão astronómicas. Vai daí, penso que muitos dão desistência desta causa algures durante o processo, vencidos pelo cansaço e prontos para encontrar um lugar para descansar o coração. Contentam-se com “o tal” possível, que defino como alguém que “não era bem isto que tinha em mente mas que faz as vezes com bastante eficácia”. E assim se acaba com quem nos deixa meio felizes, quem apresenta qualidades, sim senhor, mas nem sempre as que gostaríamos . Muitas das vezes, “o tal” possível é aquele que sobrou, o que apareceu no tempo certo, o que gostou de nós e não nos causa transtornos. Tento decidir se isto é bom ou não. Se chega para encher uma vida ou não. O amor tende a dar trabalho, assim como as pessoas, no geral. Não é qualquer um que está para isso, com tanta preocupação que há para nos ocupar a cabeça, como… bem, não me ocorre agora nenhuma, por isso preenchem, por favor, caros leitores, o espaço das reticências como a vós vos fizer mais sentido, como contas para pagar no final do mês ou o preço da alface. Se calhar andamos a ver tudo mal e talvez não haja só um “o tal”. Talvez nós próprios de- vêssemos ser o nosso primeiro “o tal”, como um espelho. Voltando ao dizer popular, esse lugar-comum onde há espaço para todos, “se não gostar de mim, quem gostará?” Por isso, antes de em- barcar em qualquer sen- da épica pela metade da laranja, vamos sabo- reando com veemência a que já temos - a nossa essência. O ponto de partida está lançado. O resto logo se vê.

Um coração que não bate. Só apanha

Nestes dias de chuva, a minha Mãe andava empenhada numa batalha perdida à partida. Lavou o chão da varanda e tinha esperança que este pudesse secar em tempo útil. A água continuava a vir do céu puxada pelo vento e a humidade era palpável no ar. Claro que no azulejo também. Uma guerra entre duas Mães (a minha Mãe e a Mãe Natureza) que tinha já um ganhador desde o início. E, claro está, o chão não secou. A minha Mãe continuou a reclamar, apesar de cada vez menos, à medida que se ia resignando às condições meteorológicas. Contudo, mantinha alguma da esperança inicial, creio. A esperança é uma coisa, ao fim ao cabo, estúpida. Porque nos empresta uma certeza irrealista de que algo pode mudar e conspirar a nosso favor. Por vezes, temos só que nos resignar aos desígnios que as circunstâncias nos oferecem. Nas lides domésticas e no resto da nossa existência. É a esperança que nos coloca perante as piores situações que podemos imaginar. E acho que nem funciona, se não tivermos sorte. A esperança é o que nos faz ir. A sorte é o que nos faz vingar. O tal vento que muda e alinha os astros para nós, para tudo correr de feição. Raramente acontece, além de que nada disto é certo nem tão pouco de crença geral. Há quem siga sem expec- tativas, há quem nem acredite na sorte. Pior ainda: haverá uma franja populacional que é da equipa da frase feita “a sorte constrói-se”. Isto será mentira, na medida em que só podemos controlar aquilo que a nós nos diz respeito e todas as histórias têm, pelo menos, dois lados. E, quase sempre, controlamos muito mal. Às vezes pelas tais circunstâncias. Outras tantas só por falta de capacidade de gestão. Associado a tudo isto há sempre um sentimento de frustração, de tristeza e de angústia. A vida seria mais simples se fosse como nós queremos? Seria. Sem mais comentários. Não acho nada que os obstáculos nos tornem mais fortes ou resilientes. Tornam-nos mais amargos, inflexíveis e cépticos. Dizemos que acreditamos que coisas boas vão chegar só porque é preciso dizer alguma coisa. Para mentirmos a nós próprios e aos outros. As coisas boas que poderão chegar vão trazer novas complicações. O que vale é que a experiência vai acumulando e com isso aumenta também a leitura prévia que somos capazes de fazer para responder à questão: “Como é que será que este novo evento me pode magoar?”. Afinal, e em jeito de resumo, há corações que não são feitos para bater. Estão destinados só a apanhar.

As memórias são seguras

As memórias são o nosso único espaço seguro. Mesmo as memórias más. Porque se excluiu o factor surpresa. Por mais que possam doer, sabemos o desfecho. Escusamos de ficar ansiosos, à espera do porvir. Nas nossas memórias podemos ser miseráveis , sim, ou felizes, a gosto. O bastante é focar-nos num acontecimento em específico. Os entendidos dizem que o nosso cérebro não guarda tudo o que vivemos. É como um disco rígido com capacidade limitada, que depura o que não tem interesse nenhum. Por acaso, é pena. Assim poupava-nos, tantas vezes, a uma ginástica mental para nos lembrarmos onde pusemos as chaves do carro ou se desligámos o ferro de engomar. Muitas séries futuristas debruçam-se sobre esta matéria - as nossas memórias e forma de as guardar. Aí, nas telas, é possível rever acontecimentos ao detalhe, com recurso a chips e máquinas. Para reparar em coisas que as nossas falhas humanas não conseguem perceber de uma só vez - a vez em que as vivemos. Também quando o assunto é magia estão muitas vezes presentes. Como a possibilidade de voltar atrás no tempo para mudarmos o seu rumo ou de as armazenar num local à parte, numa espécie de memória externa. Até, e o mais relevante, de as apagarmos. Exercício coletivo: apagariam ou alterariam alguma memória, se vos fosse possível? Muitos dirão que não. Que são as nossas memórias, boas ou más, que nos definem. Que, sem elas, seríamos conchas vazias. A memória é também o que nos livra dos perigos, tantas vezes. Lembrámos da vez em que nos queimámos com água quente e assim aprendemos a importância de avaliar a temperatura. Por exemplo. Outros dos caros leitores, por sua vez, iriam eliminar algo que passa em repetição na cabeça e que queriam, simplesmente, esquecer, para poder ter uma vida mais descansada. Ou mudar algo. O arrependimento não mata, mas mói. Pode ser difícil lidar com a bagagem deixada pela memória. Ou na memória, como preferirem. Teimamos em revisitar o que não vai voltar. Ou em pensar demasiado, tentando apanhar detalhes que, entretanto, vão ficando desfocados. É como tentar acertar com a fechadura de casa depois de emborcar uns copos. Acaba por parecer um esforço hercúleo patético para o qual não estamos capacitados e vamos sempre acabar a prometer a nós mesmos nunca mais o repetir. Felizmente, as memórias são só isso mesmo. Memórias. Vivem dentro de nós, fechadas. Não há tecnologia ou magia para as ma- terializar, apagar ou mo- dificar. Acaba por ser um problema sem solução. É ir fazendo contas para amenizar. Choramos ao lembrar algumas. Sorrimos com outras. Choramos a rir, também. Mas são como fantasmas, não são cor- póreas. Já não nos podem fazer bem nem mal. Já não estão no mesmo plano. As memórias são um lugar seguro, imutável. O único. Todos os dias somos, contudo, empurrados para fora dessa bolha para vi- vermos o presente. E, se o hoje são as memórias de amanhã, diria que tudo o que nos resta é trabalhar para que o espa- ço seguro futuro da nossa mente não seja um cemi- tério sombrio. Ou, a haver algumas sepulturas, que sobre elas consigamos depositar uma coroa de flores, sem pesar.

Uma vida desinspirada

A falta de inspiração é algo que me tem acontecido. Devo confessar que tenho dado por mim, não raras vezes, a ponderar seriamente em abandonar a escrita. Por consequência, teria que abandonar o trabalho, as redes sociais, a vida social e, enfim, num resumo, tornar-me eremita. Mais ou menos por esta ordem. Enquanto escrevo estas que podem ser as minhas últimas linhas de sempre (não há muita rede nas cavernas), ouço Jeff Buckley. Pode não ser uma banda sonora alegre. Mas é boa. O que me parecem atributos a ter em conta por quem está neste barco - triste, porém, nunca descuidando a qualidade. A falta de inspiração tem reflexos claros no resto da existência - tudo sabe a pouco, parece que falta sempre alguma coisa; o tempo passa com um vagar irritante. É mais difícil estar vivo, de forma produtiva, quando não vislumbramos um rasgo de novidade no horizonte. Ainda não estou mesmo decidida. Esta poderá não ser a minha despedida. Tirem essa cara de lamentação, vá! Sempre imaginei a minha retirada para os Himalaias mais teatral, sabem? Não assim, uma coisa meio apagada e sem glamour. Acho que tudo o que queria dizer, em boa verdade, é que é OK termos dias sem arco-íris e purpurinas. Sem fogo-de-artifício. Um dia em que, anormalmente, não tivemos que salvar o mundo, e pudemos ficar no sofá, a preguiçar. Os dias só mais ou menos farão, com certeza, dar valor aos óptimos. Mas... Creio que é suposto valorizar os chamados dias normais. Se calhar, analisando de forma mais profunda, é mais ajuizado valorizar todos os dias - maus, normais ou óptimos. Porque é sinal que tivemos direito a mais um dia. E quem tem mais dias, estatisticamente, vive mais. Pode não parecer grande coisa, quando não vemos um grande propósito. Mas, a acumulação de dias dá-nos a dádiva do futuro. E pode vir a ser maravilhoso. Espio pelo canto do olho a mala já começada para rumar às montanhas. Será que as grutas modernas têm aquecimento central? É melhor levar uma mantinha. Já não me parece tão boa ideia como no início destas linhas...Lá é longe. Tem neve. É grande. Tudo alto. Nem conheço lá ninguém! Haverá bonitas cavidades rochosas disponíveis para alugar antes em Montesinho? E se optar por uma ilha tropical? Poderei conviver melhor com os mosquitos do que com certas pessoas? Bem...É melhor uma pesquisa mais aprofundada antes de decisões tão radicais. A vida é, afinal de contas, uma questão de perspetiva. Pode ser que amanhã me sinta mais inspirada. Aliás, já me sinto mais inspirada, na verdade. É que, assim, sem dar por conta, estamos no fim desta crónica. Até uma próxima, caros leitores. Vou ali tirar a manta da mala de viagem.

A evolução do consumo de álcool por causa dos males de amor

Superar um desgosto de amor nem sempre é uma tarefa fácil. O fim pode ser difícil de digerir. Talvez porque não queríamos que tivesse sido assim. Talvez porque ficámos descontentes com a forma como tudo se processou. Talvez porque ficámos tão chateados que queríamos ser um polvo, para poder dar oito socos de cada vez ao agora ex. Voltando à síndrome do estômago amoroso sensível, para ajudar a desfazer todos os nós na barriga, o ser humano inventou o álcool. Uma arte que se foi aprimorando ao longo dos milénios. E assim fica explicada a variedade de bebidas capazes de nos deixar ébrios que temos hoje à disposição. Se, por um lado, temos uma carta de pinga jeitosa, agora temos também a internet. Algo que quando os nossos antepassados se meteram na destilaria não poderiam imaginar que iria revolucionar o mundo das comunicações. E aqui está uma combinação que me deixa nauseada só de pensar. Um bêbedo meio apaixonado ou em recuperação tende a ter imensas (demasiadas?) coisas a dizer ao outro. A fase de adaptação pode ser tumultuada. Inventaram o vinho antes da escrita (faz sentido). Por isso, porventura houve um momento da História em que a única maneira de desabafar os males embriagados seria encontrar o visado ou pintar uma parede. Avancemos, e poderíamos mandar cartas, com a letra toda tremida. Quando a missiva chegasse, até já a ressaca tinha passado. Mais tarde, quiçá, ligavam para o telefone fixo. A seguir, o pager. Telemóveis, com mensagens escritas. Ou toques na madrugada, para os mais forretas. E agora, com o raio dos smartphones e os dados móveis podemos humilhar-nos em qualquer lado, num instante, enquanto emborcamos o equivalente a drenar o Oceano Pacífico. Somos agora sofredores por amor mais perigosos, porque temos mais destreza e, obviamente, mais recursos. Mas o que muita gentinha não dava para ser possível possível malhar numa garrafa de uísque como em cereal maduro, só a ostentar um semblante introspectivo. Em vez disso, provavelmente acaba é a ostentar um olhar vidrado, a mirar um ecrã, enquanto digita uma mensagem ou grava um áudio em voz arrastada que começa com “só acho engraçado que...”.