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O doce sabor da vitória

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“Vá, se comeres primeiro uma nata, depois compro-te um chupa-chupa”. A conversa pode não ter chegado à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, mas chegou até mim, que naquela terça-feira casualmente estava ali ao lado na cafetaria, na minha vida. Uma avó, vou deduzir, dirigia-se ao neto. Era um puto loirinho com uns 3 anos. Quando dei pela presença dele, estava já com as mãozinhas coladas à montra de vidro, a ajudar a vista. Sorri. Ingerir duas vezes seguidas açúcar refinado seria para a Tânia daquela idade uma situação de vitória- -vitória. Não vi ali algo que fosse mau, uma perda-vitória, para compensação feita à base de guloseimas, sendo que as duas opções eram lambarices. “É n’instante que a comes [à nata, ou pastel de natal, dependendo da zona do país onde estejam a ler isto]”, insistiu a avó. Pois é, assenti eu, na minha cabeça. O bolo não é assim tão grande. Dei por mim a mirar também os produtos disponíveis, à procura daquilo que faria a Tânia-criança perder as estribeiras, que seria o meu bolinho de arroz, ainda hoje um pináculo da criação da doçaria para as minhas papilas gustativas, ou um queque de laranja. E olhem que isso só acontecia em dias assinalados, em que antes das 11 da matina podia saltar o pão e o leite! Lá estavam eles, mas com a minha idade acho que já nem seria adequado este suborno à mesa, principalmente sendo eu a pagar a conta. Ainda se colocou ao loirinho a opção dos salgados, com uma espécie de lanche em caracol, recheado com chouriço e queijo. Igualmente declinada. A interacção acabou com a senhora avó a transmitir ao balcão que o pequeno, afinal, não queria nada. Eu mandei vir um descafeinado. Triste. Ficámos os dois, o menino e eu, sem embutir doces e/ ou gorduras hidrogenadas. Talvez seja difícil convencer o petiz a comer seja o que for, e vá daí a família estrategista, a experimentar de tudo, até aquilo, provavelmente reprovado por pediatras e nutricionistas. Certo é que, perante uma panóplia de oportunidades, o teimoso do garoto escolheu ficar na mesma. Levou a dele avante e preferiu ir-se embora sem nada do que ceder a chantagens. Lambiscar um chupa-chupa não valeu para quebrar e comer outra coisa que não queria. Portanto, apesar de tudo, daquele duelo que teve direito a plateia, saiu um palmo de gente vitorioso. O mais novo foi a saltitar à frente da avó, a saborear o doce da vitória de ter feito o que bem lhe deu na gana. Esta crónica não é sobre chupas nem sobre bolos.

Tânia Rei