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Luís Ferreira

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A aventura de Ventura

A novela que tem vindo a passar a nível nacional em todas as televisões e órgãos de comunicação social, tem tido o condão de prender, de algum modo, os espectadores e leitores portugueses e não só, ao desenrolar da trama que envolve o tema central. De facto, o Orçamento Nacional e a sua viabilização têm assumido a primazia temática no dia a dia dos portugueses e de todos os partidos, sendo estes os mais interessados em criticar e lançar achas para a fogueira que continuará a arder nas semanas próximas. Na verdade, o que tem contribuído mais para esta intriga é o constante ataque entre os dois maiores contendores, o governo e o Partido Socialista, remetendo para segundo plano todos os outros. De facto, a viabilização do Orçamento tem levado a uma série de reuniões entre o Primeiro Ministro e o líder do PS, com a finalidade de chegarem a um acordo que permita essa viabilização orçamental. Mas não tem sido fácil. O que se tem visto é um aceitar das exigências do PS por parte de Montenegro, aproximando as linhas do Orçamento às pretensões de Nuno Santos. Mas a verdade é mesmo essa. As linhas vermelhas do PS já não existem. Ora isto levou a considerações várias dos outros partidos que criticaram essa aproximação ou até ficarem longe das propostas apresentadas por eles, como é o caso do IL e do CHEGA. Curioso é verificar que os partidos de esquerda estão, não só contra essa aproximação como rotular o PS como um partido de centro direita. Na realidade, quando as coisas não interessam, critica-se tudo e mais alguma coisa, demonstrando que a melhor defesa será realmente o ataque. Mas não é. Neste caso não é. O que se verifica é que esses partidos de esquerda não são tidos nem achados nestas negociações. Mas isto acontece porque o Partido Socialista com eles não consegue qualquer maioria que lhe permita impor a sua vontade política e governamental. Portanto, não vale a pena negociar com eles. Mas, também é facto conhecido que o governo reuniu com todos e ouviu o que todos tinham a dizer ou acrescentar para o Orçamento. Claro que coube ao governo aceitar o que se integrava nas suas linhas de pensamento e recusar as ou- tras propostas. Podemos dizer que este Orçamento tem um pouco da vontade de todos os partidos, até mesmo do Partido Comunista. Mal seria que estes não quisessem aumentar os salários de quase todos os funcionários das instituições públicas, uma melhor educação, melhorar as condições das forças de segurança, na saúde, na justiça, enfim, dar melhores condições de vida aos portugueses. Todos querem, embora uns quisessem ainda mais, como se o dinheiro nascesse debaixo do interesse e vontade de quem governa. Não há árvores do dinheiro. Mas a novela adensou-se nesta última semana com as pretensões do CHEGA e de André Ventura. Como um autêntico catavento, como disse Montenegro, ele veio à praça, como costuma fazer, lançar atoardas contra tudo e contra todos, especialmente contra o governo e o Primeiro Ministro. Porquê? Porque não foi ouvido nem achado na negociação final para a viabilização do Orçamento. Acusou o governo e Montenegro de só negociar com o PS e nada querer com o CHEGA. Veio a público e apareceu nas televisões nacionais como o artista principal da novela, procurando um papel para o qual não foi selecionado. Ficou-lhe mal. Muito mal. Como não conseguiu ter essa primazia que o levaria a ser o único a viabilizar o Orçamento, levou as suas críticas mais longe ainda, sustentando-se num milhão e duzentos mil votos que teve, para poder exigir alguma coisa do governo. A verdade é que este resultado lhe tem permitido ter uma aventura nas pistas da política como nunca imaginou, mas também é verdade que o PSD igualmente nunca esperou que viesse a acontecer. Os portugueses estavam fartos de oito anos de governação socialista. Foi um desabafo. Um desabafo que pode ter consequências graves. A viagem de Ventura tem sido tentar capitalizar politicamente esses votos. Será que consegue? A sua atitude de chamar mentiroso ao Primeiro Ministro foi grave. Sem provas concretas de ter havido proposta de lugar no governo, a sua critica e revelação fraudulenta foram desajustadas e graves. Mas também não sabemos se houve essa reunião com Ventura ou não. Não sabemos se é mentira ou não. Montenegro desmentiu, mas não justificou mais nada. Será que tem de justificar? Nuno Santos aproveitou e também veio a terreiro acusar Montenegro e Ventura desses arremessos de mentiras e promessas, tentando também ele, tirar lucros do impasse sobre a possibilidade de viabilização do Orçamento. Todos sabemos que este Orçamento não é do PS, nem tem que ser. Quem governa é a AD. Contudo Nuno Santos faz render o peixe sem querer tomar uma posição clara sobre o Orçamento. Reme tudo para a discussão na especialidade. Aí pode haver alterações, como sabemos. Conta com elas. Ventura também, mas a sua aventura quer chegar mais longe, arrepiando o caminho sinuoso que se avizinha. É uma aventura que pode sair bem, apesar do irrevogável! Quem ganhará este braço de ferro? Montenegro, Nuno Santos ou Ventura? Nada está decidido ainda e tudo está em aberto, até novas eleições. Contudo e para bem do país, espero que Nuno Santos tenha consideração pelos portugueses e não dê ao Chega a arma que ele procura para terminar esta aventura.

Sem trunfos na manga

A recente viagem de Zelensky aos Estados Unidos foi antecedida por avisos universais numa tentativa de alertar especialmente Putin do seu objetivo. Na mala, levava somente uma proposta para a paz sem saber se ela seria aceite por quem quer que fosse. Na verdade, tudo estava estruturado e programado, até mesmo o encontro com Biden, com Kamala e até com Trump. Trump! O tal que tão mal disse dele, que o criticou e que disse que lhe tirava todo o apoio se fosse eleito presidente da América. E disse mais: que se ganhasse as eleições terminaria com a guerra da Ucrânia de um dia para o outro. Como se isso fosse possível. Enfim. Coincidiu esta viagem com a reunião de todos os líderes mundiais com acento na ONU. A presença de Zelensky não foi coincidência. Foi mais uma porque ele é também um líder mundial de um país chamado Ucrânia e iria estar onde também a Federação Russa estava representada. No entanto, enquanto os outros nada tinham avisado sobre o que iriam dizer, ele já levava o assunto bem estudado e com um objetivo já conhecido. A paz. Mas ganhar a paz só com um discurso repleto de razão, não é coisa fácil quando do outro lado está Putin. Claro que ele não estava presente para não ser preso. Mas os representantes da Federa- ção Russa estavam lá e bem atentos ao que Zelensky disse. Certamente sem concordar, mas com uma vontade intrínseca de que a paz chegue sem demora e sem que Putin conheça essa vontade, sob pena de desaparecerem sem deixar rasto, como é habitual. Afinal, quem quer a guerra? Só a quem ela dá dinheiro, segurança e enche o ego do poder. Gente menor, mas em grande número infelizmente! Mas Zelensky levava um plano de paz bem estruturado. Entregou-o em mão a Biden, apresentou-o a Kamala e discutiu-o certamente com Trump, embora este não lhe tenha dado grande crédito, já que nada lhe dizia nem seria o seu plano para uma paz que ele tanto apregoa. Uma questão de cortesia, por parte de quem não tem cortesia nenhuma. Mas teria de o fazer sob pena de ser altamente criticado e condenado, coisa que não lhe dá jeito nenhum numa altura de campanha. Para Putin a paz significa ficar com o território que supostamente ganhou até agora a par de uma quase rendição da Ucrânia à Federação Russa e uma proibição da Ucrânia aderir à NATO. Isto é inaceitável para Zelensky assim como para Kamala Harris e para muitos países europeus que se têm empenhado na ajuda ao povo ucraniano. Perante estas condições, onde entra o plano de paz de Zelensky? Bem, para Zelensky a paz só será atingida se a Ucrânia obrigar a Rússia a capitular. Mas como? Para isso ele levou na sua bagagem um pedido não só ao Presidente americano, mas também aos líderes mundiais. A Ucrânia precisa de uma ajuda enorme de armas, de autorização para utilizar armas de grande alcance e de muito dinheiro. Dinheiro, ele conseguiu encher o bolso, mas armas de longo alcance para atingir a Rússia no seu interior, será mais difícil. A política internacional aqui funciona de modo diferente, até porque há dependências várias entre Estados incluindo a Rússia e muitos países europeus. Para além disso, Putin já avisou que usará armas nucleares se a Ucrânia usar armas ocidentais que atinjam o seu território ou até a Bielorrússia. Claro que ele usa esta ameaça com demasiada facilidade o que lhe confere pouca credibilidade, mas nunca se sabe. Se se sentir muito apertado e não almejar saída fácil, é muito capaz de usar a força nuclear como intimidação e defesa. As consequências serão terríveis, mas isso não conta muito para quem tem os dias contados. Deste modo, Putin não deu crédito algum ao plano de paz de Zelensky e ainda deixou um aviso a todos os que pretendem ajudar a Ucrânia e prolongar a guerra. Mas uma coisa é certa: Putin não atingiu os seus objetivos e está longe de os conseguir. A guerra está a sair demasiado cara à Rússia e ao povo russo. São já milhares de soldados mortos e o povo russo não vai aguentar esta situação muito tempo. Até quando? Afinal que trunfos levou Zelensky para a Assembleia da ONU? Nenhuns. Para além de uma proposta de paz que nada tem de novo, faltou-lhe um trunfo forte que obrigasse a Federação Russa a negociar uma paz real e credível. Mas isso não vai acontecer. Pelo menos por agora. Seja como for, ficou a ideia de que Putin está disposto a negociar a paz. Há uma abertura, mas duvida-se que seja a que a Ucrânia pretende. Isto reflete alguma fragilidade da Rússia nesta guerra e neste momento. O líder ucraniano quer aproveitar esta debilidade, mas para isso precisa do que não tem. Na ONU ele deixou somente um pedido e uma proposta de paz que não terá viabilidade sem a concretização do pedido. Sem trunfos na manga, Zelensky regressou a casa com uns milhões de dólares e a promessa de Joe Biden de que o ajudará até ao final do seu mandato. Será que chega? Penso que não. Nem mesmo as ajudas e os apelos da França e da Inglaterra para continuar a luta contra a Rússia, serão suficientes para assustar Putin. Ele já respondeu e com a ameaça que tem: o nuclear. Este sim, tem um trunfo na manga e que todos conhecem e não é pequeno. Zelensky terá de conseguir um trunfo rapidamente se não quiser ficar eternamente de mão estendida. E o nuclear está fora de equação. Dos EUA os trunfos existentes podem acabar de um momento para o outro.

O feitiço e o feiticeiro

Na vida nem tudo nos corre tão bem como imaginamos e mesmo quando nada preconiza o contrário, eis que surge uma contrariedade e estraga toda a estratégia preconcebida. Hoje são imensos os exemplos destas contrariedades. Nas conversas que no dia a dia temos e travamos com os amigos, salientamos estas nuances mais discrepantes que são expostas na comunicação social mais assiduamente. E é tanto mais acentuada e falada a contrariedade que surge quando menos se esperava, especialmente quando ela apanha quase de surpresa quem parecia ter a maior das certezas. Neste regresso das férias e quando todos estavam à espera das famosas rentrées dos partidos políticos, parece que nem todos o fizeram e nem todos disseram o que os seus seguidores queriam ouvir. Nada há de novo politicamente. O que se verifica é um jogo do empurra onde o PS empurra a AD a clarificar as entranhas do Orçamento e Montenegro a nada dizer além do que tem dito sempre. Nada parece ter mudado. É o jogo do Orçamento que terá de ser aprovado em outubro, ou não. Tudo depende de possíveis negociações entre eles, que parecem estar emperradas. A teimosia de um e de outro leva a um equilíbrio que nada mais é do que um impasse político que terá de ser ultrapassado. Diz o PS que sem informação não há negociação. Mas segundo parece, há cartas secretas trocadas entre os dois líderes a este respeito. O que dizem e o que propõem, não sabemos, mas eles dirão a seu tempo. Entretanto o CHEGA, como sempre, vai-se posicionando e tentando deitar achas na fogueira, para ver se, com algumas ameaças veladas, tira, a seu tempo, alguma vantagem política. Faz o seu papel e atira o voto no Orçamento como o trunfo que a AD necessitará para o aprovar. Para desviar a atenção, o PCP vai atirando que o PS namora o CHEGA para deitar o Orçamento ao chão e, com isto deixar a AD quase sozinha sem saber o que fazer com o Orçamento. Não se vislumbra, por enquanto, quem tem o feitiço e quem é o feiticeiro. Foi o que aconteceu este sábado quando Rui Costa resolveu dispensar o treinador Roger Schmidt da equipa do Benfica. De facto, após o empate em Moreira de Cónegos no sábado, já no prolongamento, pouco mais havia a fazer quanto à manutenção do treinador. No entanto, este nunca pareceu ter grande preocupação a esse respeito, pois sempre se mostrou confiante no lugar que ocupava e na relação de amizade que tinha com o presidente do Benfica. Enganou-se. A sua teimosia, quer na manutenção dos seus sistemas de jogo como na utilização dos jogadores disponíveis, saiu-lhe cara. Foi despedido, mas leva 20 milhões. Pois é! Deste modo e com estas condições muitos gostariam de ser despedidos. Os títulos ganhos nas épocas anteriores não lhe serviram de trunfo e perdeu. Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Identicamente, aconteceu a Elon Musk quando convencido que todos lhe deviam obediência pela sua influência e riqueza por ser dono e senhor de muitas empresas e especialmente da X, viu Lula da Silva e o Brasil proibirem esta rede social no país. Não contava com esta contrariedade, mas nem o seu rótulo de um dos homens mais ricos do mundo, lhe serviu de grande coisa. Há coisas com as quais não se contam definitivamente. E porquê? Porque Lula associou o X à extrema direita e no Brasil isso não é viável com este governo. Simples. O feitiço da influência social do X, virou-se contra o feiticeiro. O poder e a riqueza têm destas coisas, felizmente. No Médio Oriente continua a pairar no ar, quer o feitiço, quer o feiticeiro, embora não se saiba exatamente quem se vai virar contra quem. Com o poder nas mãos, Netanyahu enfrenta uma guerra que mantem porque lhe interessa, contra a maioria das opiniões internacionais. De facto, no dia em que a guerra acabar ele será julgado e possivelmente condenado e preso apesar de ser o todo poderoso de Israel. Não gerou esta guerra, como todos sabem, mas tem ido muito além do que deveria especialmente depois de ter causado já mais de 40 mil mortos incluindo milhares de crianças. Hamas e Hezbollah são os seus adversários diretos e próximos, coadjuvados pelo Irão, inimigo secular. Como sair desta guerra? Nunca pensou que teria de enfrentar durante tanto tempo os terroristas do Hamas. Mas enganou-se. Com quase mil dias de guerra e com as ameaças e ataques do Hezbollah e do Irão, Israel e o seu líder vivem momentos muito difíceis. Gaza está destruída. As famílias, já de si com poucas posses, vêm-se sem casas, sem trabalho, sem nada. O futuro é um deserto onde nada nasce e nada existe. Não parece que Netanyahu seja o feiticeiro capaz de dar o que lhes faz falta depois de lhes ter destruído tudo. Quem terá o feitiço? Também a Putin, detentor de um feitiço que pensa inabalável e indestrutível, vê-se confrontado com o que nunca pensou que acontecesse. Zelensky entrou na Rússia e domina agora mais de cem localidades, além de atingir com alguma facilidade pontos chaves dentro da Rússia. Putin parece pasmado perante tal sucesso ucraniano e parece não saber muito bem o que fazer. Não desiste do seu projeto e diz que nada disto é demasiado, mas o território que a Ucrânia conquistou é muito e será moeda de troca numa possível negociação de paz entre os dois países. Será que Putin vai acordar? Agora que o feitiço se virou contra o feiticeiro, o melhor mesmo é pensar duas vezes. Sempre é melhor a paz negociada, do que pressionada. Venha o feiticeiro.

Quem são os condenados?

Acabaram os Jogos Olímpicos. O Mundo “quase” todo esteve unido pelos atletas em cuja mente perpassa simplesmente a competição saudável, a união, a amizade, o desporto. Nada de guerras. Outros na exuberância de comportamentos, arrogam-se do poder que não têm para a justificar e não aceitam criticas de ninguém. Ao longo dos muitos séculos de História isso mesmo nos foi confirmado para mal da humanidade. Mas restava para o Mundo, a fraternidade dos desportistas. Pena é que os que se seguiram não aprenderam com os erros dos outros e continuam a apregoar o seu poder pessoal frente ao poder do povo que supostamente os deveriam eleger. Mas isso não acontece. Infelizmente. No entanto, alguns já estavam condenados sem saber que um dia seriam julgados por aqueles que subjugaram durante anos a fio. Aliás, a História ensina-nos muito claramente que é o que acontece a essas personagens poderosas e autocratas. Lembremos Napoleão, Mussolini, Hitler, Sadam, Kadafi para não descer na geografia do planeta que habitamos. Contudo os novos governantes que assumiram o poder por vias travessas e que pensam que é eterno, julgam estar a salvo da justiça humana, mas enganam-se. Mais tarde ou mais cedo serão julgados e condenados. E se não for pela mão dos que obrigaram a obedecer-lhes, será pela mão de um ser superior que lhes infligirá a morte como castigo merecido. À condenação não fogem, embora pensem que sim. O tempo aqui é que marca o momento do castigo. Poderá ser demasiado tarde ou antes do que eles esperam. A morte só avisa quando é anunciada. Um condenado à morte pela justiça, sabe até o dia em que vai morrer. É terrível que em pleno século XXI ainda haja a pena de morte, mas por mais que isso nos custe aceitar e custa, alguns condenados criam em nós tal raiva que lhes desejamos inconscientemente a morte. Depois de matar tantos seres humanos, seja pela guerra, seja pela condenação direta como fuzilamento ou pela cadeira elétrica ou por gás ou qualquer outro modo horrendo, o ódio e a raiva que cresce em nós não tem tamanho nem limites. O que custa saber é que esses indivíduos governantes ou simples detentores de poder, não tenham receio que lhes aconteça o mesmo nos dias mais próximos. O poder e o dinheiro não compram tudo muito menos a morte de que ninguém escapa e eles não vão escapar. Olhando o Mundo do alto da nossa parca sabedoria, encontramos umas dezenas de semelhantes espécies e só esperamos que sejam julgados rapidamente, porque condenados já estão. Basta passar uma rápida olhadela por alguns países para nos apercebermos efetivamente quem desempenha esse papel odioso de poderoso autocrata, de ditador, de prepotente ainda que alguns deles, exuberantemente se aleguem de democratas. Democratas! Como se a democracia coubesse em todos os buracos! O único buraco onde ela cabe é na boca desses alarves para não ir mais longe. Mas como sabemos é pela boca que morre o peixe. Também é verdade que alguns desses governantes foram eleitos mais ou menos democraticamente. O problema é que depois de terem na mão o poder, este subiu-lhes à cabeça e passaram a usá-lo como entenderam e entendem, para seu proveito e só. Vejamos o que passa com os governantes da Bielorrússia, da Federação Russa, da Síria ou da Venezuela para simplesmente exemplificar alguns dos condenados. Sim, condenados, porque serão julgados mesmo depois de já serem condenados. Que ninguém duvide. O mal que têm feito aos povos que governam e não só, é demasiado evidente e terrível para não serem condenados. Pior, é que o mal que descarregam estende-se a mais países e mais povos que nada têm a ver com eles e não são culpados de nada para serem abrangidos pela sua arrogância, prepotência e ganância. Que culpa têm os ucranianos para serem es- magados pela arrogância e prepotência da Rússia? Quantos mortos e quantas cidades destruídas já assinam a sentença merecida da condena- ção de Putin? O que ganha com tudo isto esse governan- te ditador da Rússia? Sujeitou e está a sujeitar o povo russo a uma guerra que lhes infligiu já igualmente milhares de mortos. Pensa que tudo isto não tem consequências? Engana-se se pensa que não. Já está a ter algum retorno. Também convém não esquecer o que se passa em Israel. A condenação do primeiro ministro vem a caminho. E Maduro da Venezuela? Perdeu as eleições e não quer perder o poder. Não aceita as exigências esclarecedoras pedidas pela comunidade internacional,vai adiando a apresentação das atas que estão a ser “fabricadas” para enganar os incautos e justificar a sua permanência no poder, ameaçando com banhos de sangue se o empurrarem contra a parede. Até diz que não está disposto a entregar o poder a fascistas e ditadores. Francamente. Ele sabe que vai acabar por ser julgado e condenado. A sua permanência no poder, terá fim. Possivelmente mais rápido do que ele pensa. No dia em que o povo unido deixar de ter medo, ele cairá sem misericórdia do pedestal que criou.

Indecisões

Se pudessem haver somente certezas na vida, perder-se-ia possivelmente, o interesse que a mesma vida encerra, pois, os dias tornar-se-iam demasiado monótonos e desinteressantes. Faltar-lhes-ia o condimento essencial que os torna mais apetecíveis. A incerteza do que vai acontecer cria no espírito humano uma ansiedade e uma esperança enormes e ao mesmo tempo uma vontade de saber como tudo vai acabar. Dia após dia, é sempre assim. Como só a morte é uma certeza absoluta, ainda assim permanece a incógnita do dia em que ela ocorre e ainda bem. O contrário seria desolador. Mais cedo ou mais tarde todos teremos de a enfrentar e com ela acabam-se as certezas e as esperanças. A par de tudo isto, as in- decisões que todos temos e enfrentamos quando estamos perante determinados problemas para os quais temos de procurar soluções, permanecem igualmente dia após dia. Se elas se resumem ao que nós, simples mortais, devemos ou não fazer no nosso dia a dia, nada de especial poderá alterar o rumo do que seria desejável. Pior é quando essas indecisões são vividas por quem tem o dever de decidir coisas importantes e que poderão alterar as vidas de quem delas depende. Neste campo estão os governantes. O poder que lhes é dado para decidir entre o bem e o mal, entre o que devem fazer e não devem, entre a indecisão e o seu contrário, é tão grande que o erro da indecisão momentânea pode ser fatal. É uma corda bamba sempre prestes a rebentar. Na hora de decidir, a maior parte deles fica indeciso e quando todos esperam saber a decisão, ela demora e a crítica surge, mordaz e terrível. Por vezes a decisão é tão aberrante que mais valia prolongar a indecisão e escolher o melhor caminho. Se olharmos à nossa volta e tentarmos ver bem o que sucede na maior parte dos países e o que os poderosos decidem em determinados momentos, verificamos as asneiras imensas que eles praticam e as consequências terríveis que disso resultam. Olhemos por exemplo, para o que se tem passado na França, na Hungria, no México, na Argentina, na Alemanha, em Portugal, na Finlândia, na Venezuela, na Rússia, na Bielorrússia e tantos outros. Que indecisões estão por detrás das decisões tomadas? Que consequências surgiram? Remeter para as indecisões toda a culpa das consequências nefastas que esses governantes tomaram, possivelmente será demasiado pois as conjunturas determinaram limites e impuseram barreiras, mas o tempo que durou cada indecisão até ao momento final, foi demasiado. Alguns ainda se mantêm numa indecisão preocupante e perigosa. Curiosamente, as indecisões parecem prender-se com a noção de democracia ou a sua aplicação deturpada. Na verdade, para Maduro, a Venezuela vive em plena democracia, mas não se decide por eleições livres e justas. Porquê? Perderia certamente o seu poder e cairia a ditadura a que ele chama democrática. Enfim! Mas também a Argentina tem um dirigente que pensa que é democrático ser de extrema direita, embora fosse eleito, vá-se lá saber porquê! De indecisão em indecisão ainda não se decidiu pela política certa para o povo da Argentina que vive momentos aflitivos. Culpa de quem? Da Bielorrússia quase não vale a pena falar, pois as decisões são as que Putin dá ao seu criado e este só tem de cumprir. A política passa ao lado, mas é sempre uma ditadura pura e crua. Ele também não se decide a tomar o pulso do governo e libertar-se das algemas que o prendem e subjugam à Federação Russa. Paciência! Mas já agora e a talho de foice, Putin entende que a humanidade atingiu o fundo quando se usa o assassinato para eliminar adversários políticos. Dizia isto referindo-se à tentativa feita a Trump. Isto é mesmo uma aberração. Ele que tem eliminado todos os adversários políticos que lhe fizeram frente, tem uma afirmação destas? Ele atingiu de facto, o fundo há muito tempo e ainda vive! Os franceses já têm tomado decisões erradas ao longo da sua História. Nas últimas eleições não souberam decidir ou decidiram mal, de tal modo que na segunda volta tiveram de alterar a sua decisão inicial. Mais vale tarde que nunca, mas com a democracia não se pode brincar. Macron está à pega e os franceses à espera do que não vem. O que será? Também em Portugal, Montenegro não se decide sobre o que fazer quanto ao dialogar com os partidos da oposição, especialmente o PS e o Chega. Não basta dizer que sim, que há diálogo, que se de- bateu isto e aquilo, que não se quer ultrapassar linhas vermelhas e azuis e não sei que mais, quando na verdade sabemos que isso não está a acontecer. Sentem-se de uma vez por todas e conversem sobre o essencial e deixem-se de vaidades. Decidam-se. As indecisões podem custar demasiado caro e o povo é quem vai ter de pagar as arrogância e vaidades alheias.

A Europa a braços com a democracia

Parece que o tempo passa demasiado de- pressa para muitas pessoas e para outras muito devagar. Demasiado lento e sem soluções. Assistimos hoje a uma azáfama europeia inimaginável há algum tempo atrás. As crises que já se viveram na Europa foram demasiado graves e quase todas levaram a alterações drásticas e fora do comum ou pelo menos, do que seria normal. As consequências foram terríveis. Quando a Europa vivia o tempo das democracias liberais, pensava-se que tinha chegado a um patamar democrático de que não se sairia mais e que isso agradaria a todos os que deseja- vam estar em paz. Mas não foi bem assim. A crise que se instalou na Europa nos anos trinta e que se arrastou ao mundo inteiro, veio acabar com as democracias liberais para dar lugar às ditaduras e ao fascismo. Isto teve consequências desastrosas, pois como sabemos, levou o mundo a uma Segunda Guerra Mundial. Como os governos das democracias liberais não resolveram a crise económica e social de então, o povo foi atrás de quem lhe prometia tudo e mais alguma coisa, como melhores salários, emprego para todos e governos fortes e seguros. O que se passou foi surgirem líderes como Mussolini na Itália que guiou o povo até à vitória que lhe valeu ser o governante fascista que se iria aliar a outro que, de igual modo, apareceu na Alemanha e que se afirmou rapidamente como o Führer nazi que guiaria a Alemanha à ideia de construir um Império, o Espaço Vital, onde a raça ariana se afirmaria acima de todas as outras raças. A consequência foi envolver os países europeus e mundiais na Segunda Guerra mergulhando o mundo numa tremenda depressão económica e social embrulhada numa confusão jamais imaginada. Durante cinco longos anos o mundo tremeu. As bombas atómicas fizeram a mortandade e destruição que sabemos. Os povos assustaram-se e os governos acabaram por soçobrar dando lugar, novamente, às democracias desta vez com retoques mais democráticos. Hoje a Europa vive uma crise política, económica e social idêntica. As eleições que estão a acontecer em alguns países onde vigorava a democracia, levam a governos de direita e de extrema direita. Os partidos que os governos e alguns partidos democráticos procuravam afastar, são os que agora ganham as eleições. O susto surgiu rapidamente no meio das populações francesas, italianas, em países nórdicos e até na Alemanha, onde o nazismo quer voltar a vingar. Em Portugal aconteceu o mesmo. A extrema direita está a afirmar-se e a associar-se às direitas europeias. Tudo prometem a todos e têm seguidores. Porquê? Porque como os governos atuais não lhes dão o que pretendem, e eles prometem dar tudo e como quem nada tem, nada tem a perder, procuram a mudança. Fiam-se no voto como arma que agora arremessam, mas que amanhã podem deixar de arremessar. Contudo, pode ser demasiado tarde. A crise não se resolve com promessas loucas nem com partidos antidemocráticos. A seriedade da política não pode deixar-se ludibriar nem chantagear. Desconfiamos da seriedade das pessoas que se deixam guiar pelas ideias fascistas, nazis, racistas e xenófobas. A loucura tem limites. A democracia parece uma miragem. Nos anos trinta esses limites foram ultrapassados e todos caímos numa guerra sem sentido, promovida por loucos com sede de poder que nada resolveram. Mataram milhões de pessoas, destruíram cidades, fábricas, populações, enfim, aquilo que outros construíram para o bem de todos. Todos juraram que não voltaria a acontecer. Hoje a crise que se está a instalar na Europa e no Médio Oriente com as guerras que por cá e por lá se vivem, está a alastrar-se de tal modo que os governos democráticos não tardarão a cair e a dar lugar a governos de extrema direita que vão acabar com a união que existe na Europa e que tanto custou a construir. Foi assim que começou a derrocada das democracias liberais no século passado. Esperemos que não aconteça o mesmo no século XXI, mas o exemplo que vem de França, não é nada animador. A democracia perde força. Exceção feita à Inglaterra. Pior que isto, é que o próprio Parlamento Europeu vive momentos históricos e vê a sua composição alterar-se grandemente, de tal forma que leva à união de partidos para se poder manter a democracia mais íntegra e funcional, não se deixando vergar à força que a extrema direita e a direita não democrática está a ocupar. A Presidente Ursula viu a sua candidatura tremer e procurou apoios onde pôde, para segurar a democracia e a ela mesma. Costa conseguiu os apoios necessários para Presidente do Conselho. Portugal marca pontos. Em França a extrema direita ganha cada vez mais força e tem um pé no governo. A União Republicana que se desenha, poderá não chegar. Será que a França quer mesmo a extre- ma direita no poder? Vai ser difícil parar esta onde extremista. Na Itália a direita conservadora ou quase extrema direita se quisermos, já conseguiu o poder. Perante isto, como não há de tremer esta Europa cada vez mais frágil? A culpa, que ninguém quer ter, terá de ser atribuída a alguém. Vamos esperar que se saiba ter tino suficiente para segurar a débil democracia que ainda existe. Caso contrário, que palavras teremos nós para justificar o injustificável? Não há tempo a perder e deixemo-nos de palavras vãs que o tempo leva e não trás.

A cimeira de paz que tarda

A guerra cansa e muito, além de muitas outras coisas. No passado, as guerras duravam anos e anos e pouco se sabia sobre o cansaço dos intervenientes. O que interessava era ganhar e até lá chegar não havia canseira que tal impedisse. Como exemplos temos a Guerra dos Cem anos, a Guerra dos Trinta anos e muitas outras. As causas, passado uns tempos, já não interessavam ou estavam esquecidas. Muitos lutavam, mas não sabiam as razões verdadeiras. Hoje tudo é diferente. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa viveu anos de paz e a guerra parecia ser uma coisa que jamais voltaria a acontecer no Velho Continente. Enganaram-se todos, ou quase. Na mente de alguns líderes, essa hipótese era bem real. Era só preparar o momento certo. Mas a Europa não esteve nunca à espera de uma tal anormalidade e nunca se preparou para essa eventualidade. A União Europeia, com o seu ego repleto, achou que não era necessário preparar-se para uma guerra entre fronteiras europeias. Enganou-se. A União Europeia vê-se agora num momento caricato e de difícil resolução e a sua preparação não pode ser feita de um dia para o outro. Os países recorrem com urgência aos armamentos que têm para se resguardarem das hipóteses menos retrógradas e os exércitos voltam a ser uma questão em cima da mesa. Talvez tarde demais. A Guerra na Ucrânia provocada pela invasão ilegal da Rússia ao invocar razões absurdas e que jamais justificariam a usurpação da integridade nacional de um país soberano e independente, trouxe para a Europa o que esta não esperava que acontecesse. E os vários países envolveram-se numa ajuda solidária à Ucrânia na tentativa de travar o avanço das tropas russas. Mais de dois anos passados continuamos a assistir à loucura de Putin, ao seu desmando, à sua prepotência e à vontade de impor uma vontade única de conquista a um povo que nada lhe fez para merecer tal afronta. É vergonhoso que tal aconteça. Contudo, há uma séria demonstração de cansaço de todas as partes envolvidas nesta guerra de loucos. No início, houve negociações tendentes a uma paz em que a Rússia saía francamente a ganhar, embora nada tivesse ganho, além da ocupação de algumas aldeias fronteiriças. Nada foi conseguido. Zelensky impôs condições e não encaixavam nas pretensões russas. A guerra continuou e os países europeus posicionaram-se ao lado da Ucrânia esperando conseguir travar definitivamente Putin. Mas não conseguiram. Entretanto, os EUA enfrentaram a possibilidade de lhes ser negado o desbloqueamento de capital necessário para enviar à Ucrânia o armamento que esta pedia com urgência. A tropa ucraniana estava a enfraquecer. Sem material de guerra para fazer frente à tropas russas, temiam pelo colapso de mais território, aldeias e cidades. Putin apercebeu-se e acelerou o ataque a várias cidades ucranianas. Lançava o terror e a incerteza no âmago dos ucranianos. Zelensky implorava por ajuda e os seus soldados operavam milagres, aguentando na frente. A Europa pouco podia fazer além de se movimentar entre si na busca de ajudas possíveis, mas sob os avisos de Putin sobre qualquer envolvência. Uma incongruência injustificável e absurda. A Rússia podia atacar outro país inde- pendente, mas nem a Ucrâ- nia nem qualquer país aliado podia atacar a Rússia. Regras de Putin. Mas o cansaço esta- va a chegar. Putin passa a dizer que está disposto a negociar a paz com a Ucrânia. Mas nada diz sobre como seria a negocia- ção dessa paz. Putin está farto da guerra. Enfrenta mais de 500 mil soldados mortos e as suas famílias para quem a questão ucraniana nada diz. É-lhe difícil explicar os motivos. Quase implora pela paz, mas continua a querer que se faça à sua maneira. Não seria um acordo de paz, certamente. Por seu lado, Zelensky pede que os EUA e a China façam uma cimeira para a paz na Ucrânia. Como será, se a China e a Rússia ainda agora encontraram e reforçaram os laços de defesa além de acordos comerciais entre ambos? O que irá responder Xi à solicitação de Zelensky? Putin até pode ver com algum alívio essa tal negociação para a paz, já que lhe alivia o stress em que se encontra depois de tanto tempo de guerra sem conseguir nenhum dos seus objetivos iniciais. A paz é bastante necessária para a Rússia e, para a Ucrânia era o fim de um pesadelo. Para a Europa, seria um descanso extraordinário e um tempo para se precaver para novas solicitações deste género. Não acredito que a cimeira para a paz na Ucrânia seja para já. Levará o seu tempo, mesmo com todo este cansaço de parte a parte. A teimosia de Putin vai sair-lhe caro. Muito caro. Para a Ucrânia continua a ser o destruir de um país que se erguia aos poucos depois da sua inde- pendência. Sem culpa sobre o que lhe está a acontecer, deseja fortemente a paz, mas não quer perder a sua integridade territorial para um tonto abusador que julga ser o dono da Europa. É tempo de parar. Uma cimeira de paz definitiva é urgente, ainda mais que outras guerras surgem sem deverem. Afinal, além de uma cimeira de paz, parece-me que outra deverá ter lugar com urgência. Amanhã será tarde demais.

Trapalhadas em S. Bento

Não se deve louvar quem bem começa, mas sim quem bem acaba, diz o povo e parece que é uma verdade indesmentível. Após a vitória escassa nas últimas eleições legislativas, a AD lançava no ar uma esperança de mudança, como tinha apregoado e o afastamento de velhos papões que teimavam em assustar os mais desprevenidos. Passado um mês de governo, o que temos assistido é a uma confusão e desnorte quer na manutenção de uma coerência que seria indispensável existir, quer no cumprimento de promessas atiradas ao vento durante a campanha e que agora parecem estar mais distantes. De quem é a culpa? Ninguém quer assumir culpas e elas não serão exclusivamente do PS, que acabou de governar, nem do Chega, que teimou em ser parte da solução governativa. Efetivamente parece que há uma grande trapalhada para os lados de S. Bento. Uns dizem uma coisa e outros dizem outros. Ninguém fala a uma só voz, de tal forma que Montenegro quer que agora tudo o que se vai dizer passa pelo crivo do seu conhecimento. Até parece a velha censura a funcionar! A verdade é que ou se põem todos de acordo ou estão no fim do túnel não tarda nada. A vontade de cumprir algumas promessas levou a um querer avançar demasiado depressa com determinados assuntos sem ter suficientemente preparados os dossiers. O tempo é pouco, já sabemos, mas isso não significa que se tenha de saltar de acordo em acordo sem chegar a conclusão alguma. É o que se tem verificado nas várias reuniões com os sindicatos da Polícia, da GNR, da Educação e outros sem que alguma proposta seja aprovada. As críticas que se têm feito às propostas do governo que são chamadas de atentados à dignidade dos profissionais, levam-nos a acreditar que tudo está bem mais difícil do que se imaginava. Contudo, os Ministros continuam a dizer que tudo vai no bom caminho. Como, se já vão na terceira reunião sem chegar a qualquer acordo? Estou crente que haverá acordos, mas não se pode garantir que sejam os desejados nem por uns nem por outros. Trinta dias já passaram. Os sessenta que Montenegro adiantou como limite para algumas decisões importantes serem implementadas podem ser poucos para o cumprimento prometido. A comprometer todo o trabalho governativo, surgem problemas graves como as substituições feitas um pouco à pressa com a aparência de serem saneamentos políticos, ou seja, a instalação de membros dos partidos antes que seja tarde. O caso da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa parece ser um exemplo, ainda que possa haver um buraco financeiro enorme. Uma vez mais, as culpas ninguém as quer assumir. Terá o governo razão? Os cargos importantes, normalmente são ocupados por elementos indicados pelo governo. É uma forma de ter em lugares chave, pessoas da sua confiança. No entanto, essa confiança é algumas vezes, defraudada. O certo é que todos os partidos que chegam ao governo têm a mesma forma de proceder o que não significa ser com a pressa que este governo está a demonstrar. O que está a preocupar o governo? Por outro lado, as desculpas de Montenegro sobre algumas tomadas de posição no Parlamento, tentando culpas aproximações do PS ao Chega, parecem-me injustificadas e surreais. Se a AD não consegue fazer impor as suas propostas e outras são aprovadas com votos de outros partidos, como o PS e o Chega, isso só significa que os dois comungam dos mesmos fins que a proposta propõe. Isto só acontece porque Montenegro e o PSD não gostam de negociar devidamente as propostas que têm. Não se podem queixar. Aliás, há demasiado silêncio por parte do governo, especialmente de Primeiro Ministro sobre determinados assuntos que se julgam importantes e que todos estamos à espera de saber algo de concreto. Talvez por isso mesmo, outros ministros digam o que não devem dizer e acabam todos por se contradizer. Uma trapalhada! Para complicar tudo isto, Marcelo ajuda um pouco a toda esta trapalhada ao fazer afirmações indevidas e infelizes sobre alguns temas quentes como foi o da reparação devida às antigas colónias e ao chamar rural, indiretamente, a Montenegro e ao PSD. Não é que isto seja um insulto. Montenegro até é de Bragança e por isso, um rural no sentido lato e não um urbano, como muitos outros lisboetas. Enfim, tudo ajuda à trapalhada que se vive para os lados de S. Bento. Resta saber, isso sim, se no final dos sessenta dias, o governo efetivou os temas a que se propôs para que nenhum dos partidos o continuem a acusar de trapalhão, de falso e mentiroso, além de incompetente, como fizeram com o Ministro das Finanças. Ninguém aguenta! Este inicio parece deveras complicado para quem que dizia que ia mudar tudo e que era tempo de mudança. Na verdade, onde está a mudança? Ninguém a viu, mas a esperança ainda continua no coração dos portugueses, especialmente nos que acreditaram nela. Trapalhadas destas, já chegam!

50 anos de memórias

Todos os povos têm memória e é esse atributo que lhes dá a consistência da sua própria existência como povo, como Nação e como Estado. No dia 25 o povo recordou e festejou abril. Festejou a revolução dos cravos. Tinham desembarcado na Praça do Comércio, a liberdade, a democracia e a igualdade. Três passageiros de um barco enviado pelos quatro cantos do mundo e que se associaram a batalhões cujos interesses eram idênticos. A ânsia de liberdade era enorme e a necessidade de viver em democracia era demasiado apelativa para quem nunca a tinha conhecido. Na realidade foi em África que se iniciou a revolução. Foi em África que se lutou pela liberdade e pela democracia e foi de lá que partiu o barco que trouxe esses passageiros especiais e os espalharam por cá com a ajuda dos capitães de abril. No dia 25 eles efetivaram todas as ânsias contidas, tanto de lá como de cá. E com a serenidade e o perfume de cravos vermelhos de Tavira, impediram as armas de disparar e espalharam sorrisos e esperança no meio do povo. Este agradeceu profundamente a liberdade que lhe deram. Alguns não a souberam usar, pois não estavam habituados. Desculpável. Hoje recorda-se e a memória subsiste. De todos os cantos do mundo, Portugal recebeu neste dia os parabéns pelos cinquenta anos da Revolução dos Cravos. Meritoriamente. Valores como a democracia, a liberdade e a dignidade foram exaltados por todos os países e desejaram que nunca mais se percam. Portugal recebeu o recado e agradeceu. De África à América e a uma Europa unida, os ecos chegaram e repercutiram. Certamente esses valores que tanto custaram a obter, não se vão perder, porque o povo português não vai querer perder o que tanto custou a ganhar. Ainda há memória! Foi na casa da democracia que no dia 25 se recordaram estes cinquenta anos que medeiam entre a revolução e a atualidade. Muitos viveram as memórias que subjazem ainda, outros não as têm porque nasceram depois, já em mares muito mais calmos e recordaram apenas os anos que a democracia lhes ofereceu. Todos os partidos se referiram a abril e aos valores que ele trouxe. Há cinquenta anos que assim é. Desfilam-se memórias e referências históricas porque é preciso não esquecer, mas pouco se ambiciona para o futuro e do que se promete pouco se concretiza. E como se pode concretizar se até mesmo a própria democracia não está consolidada? Como se pode concretizar a liberdade se ainda não há dignidade e igualdade para todos? Mas falou-se de liberdade tanto do lado dos mais velhos como dos mais novos. Uns que pouco a conheceram e outros que nasceram no seu seio. Mas falaram dela. Desde o líder do Livre que recordou os tempos em que a mãe era empregada de um brigadeiro do Antigo Regime que lhe perdoava as referências ao sistema, até à jovem deputada do PSD que não tendo vivido a Revolução, mas que nasceu no seio da democracia e apelou a um futuro melhor e a um Portugal mais forte, todos exaltaram abril. Não se esperava outra coisa. Entenda-se, no entanto, que só compreende a revolução quem verdadeiramente viveu no antigo regime. Os mais novos conhecem o valor da liberdade e da democracia porque sempre viveram nela, mas não aquilatam o seu valor. Não conseguiriam viver hoje sem liberdade. Não basta falar da ditadura e da necessidade de a derrubar. É preciso sentir essa necessidade. Saber que é necessária. Todos se referiram aos capitães de abril e ao que conseguiram conquistar. De uns, presentes, recordaram o que viveram, de outros, hoje resta simplesmente a memória do que fizeram e a importância que tiveram. Mas também se referiram aos ganhos que abril trouxe nestes cinquenta anos. Mal seria se nada houvesse para comemorar nos tempos que correm. Mudou muito. Ações concretas e palpáveis, umas mais aceitáveis que outras. Mas avanços, sim. Já Marcelo deu uma aula sobre a História do antes e do depois da Revolução. Dividiu o tempo em ciclos e neles referiu os avanços e os atrasos que Portugal atravessou. Nada se conquista facilmente, nem a democracia, nem a liberdade. Portugal abriu tanto as portas que teve de as fechar rapidamente, antes que fosse demasiado tarde. No final, o Parlamento dividiu-se quando ecoou Grândola, vila morena. A es- querda levantou-se e cantou, enquanto o centro direita e a direita radical saíram. Afinal abril ainda consegue dividir! É pena. Na rua, a comemoração do 25 de abril tinha lugar marcado em todo o lado. A Avenida da Liberdade viveu talvez o maior desfile destes cinquenta anos de liberdade. Mas quem se mobilizou mais para sair à rua e aparecer no desfile, foi a esquerda, talvez porque se sente ameaçada pelos resultados que obteve nas últimas eleições. Mas é o povo quem mais ordena. Do Quartel de Santarém até ao Rossio e daí até à Pontinha, passando pelo Quartel do Carmo, sobressai o nome de Salgueiro Maia. Dele resta a memória. Não caiu em combate, mas a morte levou-o talvez antes da hora. Ele fará sempre parte integrante desta História que nos pertence e da qual nunca sairá. Da- qui a cem anos, talvez ainda permaneça a memória deste herói de abril a par da data de uma Revolução que trans- formou Portugal com cravos vermelhos.

Uma esmolinha, por favor

Nos tempos que correm e nas voltas que a vida dá, muitos, infelizmente, recorrem à beneficência de quem os pode ajudar e não se intimidam em estender a mão, na esperança que alguma moeda aí caia ajudando a minimizar as agruras do dia a dia. São tantas as infelicidades da vida que alguns são atirados sem dó nem piedade para as esquinas ou parques, ruas e ruelas de algumas cidades, na esperança de assim sobreviverem. No fundo trata-se simplesmente de sobrevivência. Mas há várias formas de sobreviver. O dia 10 de março trouxe à luz a necessidade de uma mudança pedida pelos portugueses, muito embora essa mudança não fosse suficientemente explicita, já que os votos, apesar de significarem mudança, o que trouxeram foi, à partida, uma complicação enorme, lançando o país para uma situação nunca antes vivida. Sabemos o que aconteceu. A AD venceu com maioria relativa, mas uma terceira força política também se afirmou, desequilibrando o embate político a que já estávamos habituados. Perante isto, uns deitaram foguetes, outros andaram a apanhar as canas. O partido de extrema direita içou bandeiras e fez a festa como se fosse o ganhador das eleições. Por acaso não foi e não ganhou nada, a não ser 50 deputados o que não é coi- sa pouca. Foi o suficiente para começar a exigir negociações, a ameaçar a formação do governo e a aprovação do Orçamento de Estado, ou seja, impor-se a tudo e todos como se fosse a peça chave para que tudo pudesse funcionar. Funcionar como ele queria e com queria. Mas não. Contudo, todos os portugueses temeram o pior e começaram a lançar hipóteses sobre como poderia funcionar o futuro governo. Enquanto isso, Ventura continuou a pavonear-se e a impor-se a tudo e todos, até na comunicação social, esperando o contacto do PSD pedindo ajuda e apoio. Nunca aconteceu. As intervenções continuaram e o trunfo de ter tido um milhão e duzentos mil votos, servia de argumento para tentar Montenegro e levá-lo a uma conversa onde desdissesse o Não é Não. Como se os outros partidos não tivessem muitos mais milhões de votantes! O dia 25 de março chegou e com ele a eleição do Presidente da Assembleia da República. Depois dos argumentos do diz que disse, Montenegro sempre calado, apresentou o candidato que falhou a eleição. Aguiar Branco não foi eleito. O PS votou em branco e o CHEGA também. Uma confusão total que requereu uma segunda votação e a mudança de candidatos. Acusações de lado a lado e a afirmação de supostos acordos com Ventura, levaram a novo desenten- dimento e novo chumbo dos candidatos propostos. Uma vergonha na casa da democracia! Três eleições sem maioria e sem Presidente. Nenhum governo pode funcionar sem haver um Presidente da Assembleia da República e sem que esta funcione devidamente. Era necessário arranjar uma solução. Adiado o processo para o dia seguinte, era neces- sário ter uma solução credível para um problema tão grave e ridículo como este. A democracia portuguesa estava a ser seguida e criticada pelo mundo inteiro. Uma imagem inimaginável e desnecessária. Durante o resto do dia 25, a noite e a manhã de 26, houve um esforço tremendo para ultrapassar o imbróglio causado pela insensatez de um partido que queria a todo o custo fazer parte da solução, mas que só piorou o problema. Se lhe dessem atenção e falassem com ele, ele resolveria tudo, mas tinha de ter a última palavra para poder vangloriar-se do seu feito. Andava nos corredores da Assembleia insinuando-se, de mão estendida, pedindo que lhe dessem atenção. Falou com a comunicação social e reiterou o seu pedido. Ele só queria um pouco de atenção por parte do PSD. Depois tudo ficava resolvido, incluindo acabar com a influência do PS. Resolvia tudo. Só queria uma palavra com Montenegro. Nada. Ventura só queria uma esmolinha! O dia 26 de março trouxe uma solução repartida entre o PS e o PSD. A presidência da Assembleia da República seria repartida pelos dois partidos. Dois anos cada um. Os primeiros dois anos serão do PSD, com Aguiar Branco. Esta solução foi o entornar do copo. Ventura perdeu a compostura, pouca, que tinha e atirou-se a Montenegro e ao PS e ao acordo que tinham acabado de fazer. Acusou-os de tudo e mais alguma coisa, não se conformando ter sido posto de lado e ninguém lhe ter estendido a mão. A extrema direita continuaria solteira, tal como a culpa. O que é certo é que se Ventura fosse mais comedido e mais político em vez de ser tão impulsivo e quase arruaceiro politicamente, claro, ganhava muito mais e até teria sido ouvido como queria, mas não. Não conseguiu ser sábio e quis-se impor pela arrogância. Não conseguiu. Não se pode queixar. No final até teve sorte, pois foi do PSD que recebeu os votos para eleger o vice-presidente da Assembleia da República. Acabou por receber a tal esmolinha que andou a mendigar durante tanto tempo. Mas não nos iludamos. Montenegro e este governo que já conhecemos, vão ter um osso muito duro de roer pela frente. Durante seis me- ses, as coisas serão mais pacíficas, pois governarão com um Orçamento que o PS fez e aprovou. Depois, vem o novo Orçamento e aqui, Ventura quer vingar-se. Ou Montenegro e Nuno se entendem e os ministros são muito hábeis a negociar ou Ventura continuará a ser o trunfo que sempre foi. E aqui, talvez queira mais do que uma esmolinha.