class="html not-front not-logged-in one-sidebar sidebar-second page-taxonomy page-taxonomy-term page-taxonomy-term- page-taxonomy-term-94">

            

Henrique Pedro

PUB.

O capital não tem pátria e a corrupção não tem partido

Tudo que de relevante acontece no Brasil é acompanhado em Portugal como se de uma telenovela se tratasse. E não é só porque os meios de comunicação social internacionais, e os portugueses em especial, lhe dão particular importância mas também por um visível fenómeno de afectividade histórica.
Para lá de que o Brasil continua a ser o maior país onde se fala a universal língua de Camões, ainda que desgraçadamente adulterada, e também porque as relações familiares ancestrais entre portugueses e brasileiros continuam a ter forte peso social e económico. E político, naturalmente.
Não é de estranhar, portanto, que os monumentais casos de corrupção que ocorrem no Brasil tenham especial relevância para os portugueses, até porque o Regime reinante em Portugal também se encontra atolado em escândalos que parecem não ter fim.
A prisão de Lula da Silva como corolário de um demorado processo judicial conduzido por alargado número de investigadores e tratado por vários tribunais qualificados, representa um sério aviso, mais um, para todos aqueles que se julgam acima da lei ou se sentem protegidos pelo sistema. E também constitui uma lição exemplar para a classe política portuguesa que continua a menosprezar o papel da Justiça na democracia.
Não é preciso ser-se conhecedor de ciências políticas e jurídicas para justamente se compreender que o Regime político português está mais próximo das pseudodemocracias russa, chinesa e latino-americanas em que a corrupção e o nepotismo são lei, do que das verdadeiras democracias do mundo livre.
Em Portugal os processos judiciais que envolvem rufiões políticos e financeiros são quase sempre inconclusivos ou postergados indefinidamente, enquanto políticos e magistrados do topo da hierarquia fazem discursos eloquentes em actos solenes, por mero exercício intelectual ou evidente hipocrisia política, já que a reforma da Justiça continua a marcar passo e a moralização da vida pública não passa de letra morta. Em matéria de corrupção Portugal e Brasil são, sem dúvida, países irmãos.
O povo português, porém, já não vai em cantigas e sabe muito bem que o capital não tem pátria e a corrupção não tem partido. Por isso exige a todos os governantes indiscriminadamente que não se limitem a bem governar mas que igualmente o façam com honestidade. Santo que seja quando peca deixa de o ser.
Não é de admirar, portanto, que a opinião pública prevalecente em Portugal seja que, na democracia portuguesa, o crime político e a corrupção de Estado continuam impunes e a compensar. É de esperar, por tudo isso, que a actuação corajosa e pertinaz do juiz Sérgio Moro também se repercuta positivamente do lado de cá do Atlântico.
Sobretudo agora que já vai adiantado o processo Marquês, cujas semelhanças com o processo Lava Jato são mais do que evidentes, ainda que a opinião pública não esteja tão dividida em Portugal como no Brasil.
Cá como lá, é de lastimar que governantes destacados quando acossados pela Justiça lancem mão, em desespero de causa, de argumentos e artifícios políticos e populistas à falta de outros melhores. É o caso de Lula da Silva e do seu partido que pretenderam anular a Justiça com uma estrondosa golpada que não teve, até ver, o sucesso esperado mas que, tudo leva a crer, vai prosseguir.
Também o processo Marquês se prefigura como a verdadeira prova de fogo da Justiça portuguesa. Esperemos que em Portugal não haja lugar a golpadas políticas, públicas ou sub-reptícias, e que deixem a Justiça funcionar plenamente sem constrangimentos ideológicos e partidários.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Um caixão de surpresas

Uma destacada militante do Partido Social Democrata, que também já foi sua líder mor, disse que o seu partido não era nenhum saco de gatos. Lamentavelmente muitos críticos entenderam exactamente o contrário, ou seja, que o PSD seria isso mesmo, sem apelo e com agravo.
Pessoalmente também entendo que não, que é por demais óbvio que não há gatos e muito menos ratos no PSD ou em qualquer partido que se preze. Tal seria um contra-senso, de resto, dado que gatos e ratos não se dão lá muito bem.
Quanto a mim o PSD é, isso sim, uma grande caixa de surpresas. Um caixão, melhor dizendo, tantas, tão grandes e tão surpreendentes elas são e tendo em conta também que o seu destino poderá ser a cova política. Ao fim e ao cabo o PSD é o espelho do Regime.
Já para os presunçosos partidos de esquerda o PSD é uma verdadeira caixa de Pandora, um jarro mais precisamente, dado que esse foi de facto o artefacto oferecido a essa primeira mulher da mitologia grega, no qual todos os males do mundo se acoitavam.
Jarro de vidro ou de barro, não importa, que Passos Coelho entreabriu e agora Rui Rio fragorosamente partiu, libertando inesperados infortúnios e malefícios, sem que se possa imaginar quando e como a tormenta irá terminar. Afinal o diabo de Passos Coelho morava dentro do próprio PSD, somos levados a concluir.
Tudo isto está a ser particularmente triste e frustrante para muitos portugueses, militantes ou simplesmente simpatizantes do PSD que, como agora se constata, depositavam infundadas esperanças em Rui Rio, a quem tinham como um político pragmático, um paladino da ética política e um acérrimo defensor das tão ansiadas reformas do Regime e do Estado e que, por isso mesmo acreditavam que ele iria acordar muitos abstencionistas, com efeitos salutares na deprimida democracia portuguesa.
Foi esta auréola de Rui Rio que se esfumou ruidosamente dando lugar à imagem de um líder titubeante, que dificilmente encontra pessoas credíveis que com ele queiram trabalhar e que ainda não mostrou saber lá muito bem o que quer e muito menos para onde vai.
Rui Rio, até mais ver, por azar ou inabilidade, apenas conseguiu transformar a esperança, que também estava aprisionada no jarro de Pandora do PSD, no pior dos malefícios.  
Porque o mais provável, agora, é mesmo que António Costa alcance a maioria absoluta nas próximas legislativas, que a Geringonça se desconjunte, que o presidente da república fique refém do PS e que o CDS de Assunção Cristas acolha a multidão de desiludidos do PSD, uma vez que Rui Rio não será capaz de fazer o pleno no seu próprio partido.
Contudo, manda o bom senso que se diga que ninguém pode prever com rigor o comportamento do PSD nos próximos tempos e muito menos se António Costa será capaz de corrigir e fazer esquecer os fragorosos fracassos da sua administração, por mais que os ventos económicos continuem de feição.
Em qualquer caso a maioria absoluta do Partido Socialista seria um mal maior que o próprio monstro do Bloco Central, só mesmo comparável à de um governo do PS com o BE. A má memória da governança de José Sócrates, que ainda queima, aí está para o sugerir.
Uma coisa é certa: a democracia portuguesa precisa de ser reformada ou mesmo refundada. Portugal não pode continuar a sofrer eternamente as injúrias sistemáticas de um Regime imoral, por mais legítimo que ele seja.
Bem pode o PSD, portanto, tratar de arranjar uma nova imagem, um novo líder, uma nova direcção e um novo rumo, enquanto é tempo. Para bem de Portugal e da democracia.
 
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O Regime e seus acólitos

Mal comparadas Lisboa é Roma, não a Roma do império mas a Roma de Berlusconi, e São Bento o Vaticano. E, se assim for entendido, o presidente da república Marcelo será o papa Francisco português que, como é sabido, não é bem quisto por muitos cardeais da cúria republicana embora seja idolatrado pela maioria dos fiéis.
Ainda nesta alegoria, que não pretende ser uma parábola, os partidos pouco mais são que seitas, os líderes partidários bispos e os deputados seus acólitos, coadjuvados por legiões de anjinhos que prometem levar os portugueses para o céu dos pardais, voando graciosamente na atmosfera rarefeita do Regime, lado a lado com os milhafres da desigualdade e da corrupção.
Tudo terá mais sentido se olharmos o Regime sem dó nem piedade, preferencialmente a partir da província de Trás-os-Montes que os políticos persistem em considerar uma colónia pobre e longínqua, habitada por nativos rudes e ignorantes e que ainda não comungam plenamente da religião democrática esotérica de confissão lusitana.
Claro que os transmontanos descrentes duvidam da apregoada infalibilidade dos profetas Costa, Jerónimo e Catarina escaldados que estão com os demiurgos que os antecederam. Para eles Lisboa será mais parecida com Brasília e São Bento com o Olimpo da mitologia grega, morada celeste de deputados vitalícios e de outros que tais e onde muitos dos fiéis militantes partidários sonham, um dia, montar barraca para o resto da vida.
Crentes e não crentes num ponto parecem, todavia, estar de acordo: os deputados da nação, no actual quadro constitucional bem como os autarcas mais categorizados, não passam disso mesmo: de acólitos, que o mesmo é dizer, em linguagem mais terra a terra, de sacristães e sacristãs do Regime que lhes garante prebendas e sinecuras e apenas resmungam ou se revoltam contra os bispos quando sentem ameaçadas as suas mordomias.
Quando tal não acontece, porém, cumprem exemplarmente as tarefas que lhe estão acometidas: tocam o sino, recolhem as esmolas, acendem e apagam velas, servem a água e o vinho, tratam da palamenta e da ferramenta do ofício, batem com a mão no peito, a tudo dizem amém e sobem ao altar para as leituras litúrgicas.
Tanto assim é que apesar das muitas vozes de revolta, profanas e populares, que se fizeram ouvir recentemente, quando o cardeal primaz António Costa veio em visita pastoral à diocese de Bragança abençoar o TGV castelhano e amansar os transmontanos, nenhum acólito do Regime, deputado ou autarca melhor dizendo, ousou erguer-se em defesa da região.
Mais grave ainda: uma semana depois o mesmo cardeal primaz benzia a ferrovia Évora-Elvas que, pelos vistos, pretende ressuscitar o TGV de seu correligionário José Sócrates e que não será mais rentável nem terá maior impacto nacional e regional que uma eventual via Porto-Zamora, cruzando Trás-os-Montes de lés-a-lés.
Mais grave ainda: enquanto que no Alentejo o monumental empreendimento do Alqueva é uma positiva realidade, o velho sonho transmontano de ligar os rios Tuela e Rabaçal num sistema de rega que beneficie a vasta e fértil Terra Quente continua a ser uma quimera que esturrica os campos pelo Estio. Segundo o evangelho do governo da Geringonça meia dúzia de charcas bastarão para que as rãs continuem a coaxar a seu contento. A tudo isto os acólitos do Regime, deputados e autarcas melhor dizendo, dizem nada.
E depois queixam-se que os transmontanos não vão à missa.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Uma democracia de moscas e de mel

Contrariamente ao que muitas vezes ouço dizer, nós portugueses somos um povo dócil, ordeiro, trabalhador, inteligente, solidário, destemido e universalista.
Há milhares de provas e exemplos em todos os domínios de actividade a confirmar que assim é. E não só em Portugal! Por esse mundo fora, o que é mais relevante. É certo que os portugueses também têm alguns defeitos mas que não são para aqui chamados.
Já o mito de que portugueses são iguaizinhos aos lusitanos do tempo de Viriato, que não mais se livraram da má fama que lhes terá sido lançada pelo romano Galba, no longínquo século III antes de Cristo, quando escreveu «Há, na parte mais ocidental da Ibéria, um povo muito estranho: não se governa nem se deixa governar!», não passa disso mesmo, duma grande estória.
Talvez o maior defeito dos portugueses de hoje, que não é bem defeito mas feitio, seja mesmo deixarem-se governar com leviana credulidade, que é como quem diz intrujar, explorar, manipular, contrariamente aos lusitanos daquele tempo, com os quais temos pouco ou mesmo nada a ver.
Então nós, os transmontanos, valha-nos Deus! Somos mais crédulos que São Tomás que acreditou que um boi poderia voar. Agora até já nos comprazemos com o TGV espanhol que o primeiro-ministro António Costa nos veio impingir e que passa a voar a dezenas de quilómetros de Bragança.
Eu teria perguntado, se me tivessem dado voz para tanto: e porque não um TGV do Porto a Zamora, passando por Vila Real, Mirandela e Bragança, senhor primeiro-ministro?
Também são por demais conhecidas as desgraças em que os portugueses se deixaram envolver, sem tugir nem mugir, ao longo da sua História gloriosa, não se contestando, como é óbvio, a epopeia a que generosamente aderiram de corpo e alma.
Mais frescas estão, ainda assim, as vergonhas e misérias dos quarenta anos da República Democrática de Portugal provocadas por governos que, verdade seja dita, apenas representavam a vontade de uma minoria de eleitores já que a maioria sistematicamente se refugia na abstenção.
A classe política de topo, que apenas é portuguesa no cartão de cidadão e no idioma em que se expressa, mas que em boa verdade pertence a outra nação e vive num país exterior, desde o primeiro dia de democracia que dela se aproveita para habilmente explorar, iludir, espoliar, massacrar os portugueses. Sobretudo os que resistem nos intestinos da pátria a que os políticos do país exterior chamam interior.
Senão, atente-se nas vezes em que os Estado português foi levado à ruína, na Justiça que marca passo, na desigualdade social que prevalece, nas assimetrias regionais, no rosário interminável de escândalos e assaltos ao erário público, para não citar outros exemplos.
Podemos concluir, portanto, que a classe política portuguesa de topo essa sim é a herdeira natural dessa histórica virtude dos lusitanos de que falava o romano Galba: governam mal, não deixam ninguém governar, mas sabem muito bem governar-se e andam sempre zangados uns com os outros. Assim como as comadres e os compadres da Geringonça que, apesar de tudo, lá vão baptizando os filhos, atirando os foguetes e apanhando as canas. Os meus sinceros agradecimentos.
Outro exemplo elucidativo é o que presentemente se passa no PSD no qual ferve o ódio e a afronta. PSD que já foi comparado a um saco de gatos e que corre o risco de que alguém lhe ate a boca, com consequências imprevisíveis para a democracia.
No fundo é o que se passa em todos os partidos e entre todos eles entre si. Que não se riam os socialistas, os bloquistas, os comunistas ou os centristas porque, lá diz o ditado: gaba-te cesto roto que logo vais à vindima.
Outro mito perigoso que se instalou no bom censo comum é que só as moscas mudam. Puro engano. É verdade que o Regime político que tantas moscas atrai permanece inalterável desde há décadas, mas é igualmente verdade que as moscas, sobretudo as varejeiras, também são sempre as mesmas. Mudam é de tacho.
E enquanto o Regime for o que é, um apetitoso prato de mel de que as moscas se alimentam e tanto gostam, nada vai mudar. Nem as moscas nem o mel.
Eu o garanto.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

O que querem os transmontanos, afinal?

Não me alongo ao Alto Douro, para tanto. Fico-me por Trás-os-Montes, por agora.
Trás-os-Montes que no presente é irrelevante no contexto nacional porque, politicamente falando, não existe. O que não deixa de ser surpreendente porquanto se trata de um espaço geográfico diversificado mas coerente, com múltiplos recursos a que os tempos modernos dão importância acrescida em cada dia que passa.
E, se Trás-os-Montes não existe politicamente, também não existe administrativamente, pelo que nenhuma entidade o representa e defende enquanto tal.
Ninguém está formalmente habilitado, portanto, a traçar-lhe um rumo, a definir-lhe uma estratégia de desenvolvimento coerente e consequente, preservando e dignificando os seus usos e costumes e promovendo a cultura transmontana no seu todo.
Não passa de uma região teórica portanto, que é administrada a esmo, a granel, fragmentada, segundo o conhecido lema “dividir para reinar”, como convém ao Governo central que assim pode livremente privilegiar o quê mais lhe interessa, a começar pelos poleiros em que toma assento.
Os transmontanos, esses, existem, mas só o são quando se afirmam como tal, porque, se assim não for, também ninguém dará conta deles.
E tempos houve em que sabiam bem o que queriam porque nada tinham, embora tivessem tudo que era seu: serras, rios, vales, hortas, searas, olivais, vinhedos, caminhos para caminhar, braços para trabalhar e o suor do rosto.
Nem sequer tinham quem pensasse por eles, como hoje têm. Nem precisavam porque as suas carências eram por demais evidentes de tão elementares que eram: chafarizes, escolas, hospitais, esgotos, telefones, electricidade, estradas e pontes.
Porém, com o advento da democracia, os transmontanos passaram a ter milhares de cérebros a reflectir e a decidir por eles: demagogos, ex-governantes em processo de expiação dos seus fracassos governativos, deputados e autarcas que supostamente os representam mas que em boa verdade obedecem a outros interesses e muitos doutores e mestres, intelectuais e especialistas em todas as áreas, a quem o poder não dá ouvidos.
Não se compreende, por isso, que Trás-os-Montes esteja cada vez mais despovoado e deprimido. O Regime já pôs a hipótese de regionalizar e de descentralizar, já criou comissões regionais e unidades de missão, distribuiu subsídios a rodos, rasgou uma autoestrada, ainda que tardega, furou o Marão, vendeu rios, edificou universidades e centros culturais, mas os transmontanos não dão mostras de abandonar a saga emigrante e muito menos de retornar à pátria, o que parece ser, hoje mais do que nunca, um estigma maior.
O que querem os transmontanos, então?
Será que querem ser independentes, como os escoceses, os catalães ou os corsos? Ser uma região autónoma como a Madeira ou os Açores? Ter uma Autoeuropa instalada em Vimioso e um Google em Vinhais? Casas da Música como o Porto tem? Estádios de futebol como a Nova Luz ou o Dragão? Milhares de turistas endinheirados que animem o comércio, a hotelaria e as hospedarias rurais? Ou apenas que o azeite, o vinho e a castanha sejam pagos ao preço da prata?
Talvez os transmontanos não queiram nada disso ou talvez até queiram muito mais. O Regime é que parece não saber o que os transmontanos querem nem estar habilitado a responder.
Por isso, o que falta à região transmontana é cérebro para pensar por ela própria e ser bem governada. Como um todo e não como uma colecção de municípios e freguesias, a jeito de capelas e sacristias, em que os vigários (Honi soit qui mal y pense) se limitam a dizer amém à Roma dos partidos.
O que os transmontanos querem, afinal, é políticas, projectos e investimentos de âmbito regional que tenham impacto nacional. E vice-versa.
Começando, por exemplo, por uma profícua defesa do meio ambiente e o aproveitamento integrado e racional das suas águas, enquanto é tempo.
Que é o mais urgente, para começar.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O novíssimo fado lusitano

A canção nacional por excelência é o fado muito embora haja quem considere que o dito cujo, que também é sinónimo de pândega e de farra, apenas merece o epíteto de canção de Lisboa.
É verdade que em Coimbra e no Porto também se canta fado regularmente e por tradição mas o de Lisboa é, sem dúvida, o mais escutado e popularmente consagrado.
Lisboa é, portanto, a verdadeira capital do fado, com casa de maior solenidade e tradição no palácio de S. Bento, sede da Assembleia da República, paredes meias com a morada oficial do primeiro-ministro.
Desta boa, ou má, vizinhança advém uma vantagem de grande significado: o fado que o primeiro-ministro Costa concerta e canta é prontamente acompanhado ao vivo pelo seu grupo de guitarristas privativo, em que pontifica o desafinado naipe de cordas da Geringonça.
Cujos acordes são perfeitamente audíveis, ali perto, nos jardins suspensos do palácio de Belém, onde o presidente Marcelo, embevecido, os escuta e aplaude com muito afecto.
Até há pouco tempo, o fado tradicional, menor e vadio, feito de desgraça, crime, ciúme, mentira e traição, que muitos maldosamente baptizaram de fado democrático, era o mais cantado por ministros, deputados e jornalistas na sala dos Passos Perdidos do palácio de S. Bento.
O fado da moda, porém, embora dê continuidade à tradição do vira o disco e toca o mesmo, é o novíssimo fado lusitano que tem superior desempenho do fadista Mário Centeno e primoroso acompanhamento à guitarra portuguesa de seis pares de cordas e um sem número de cordelinhos, do mestre guitarrista António Costa.
Este novo paradigma do fadário português que agora é tocado em ré maior, tonalidade mais alegre e viva, ignora os réus maiores, os escândalos, as tragédias, os muitos casos de personalidades de topo do Regime que andam emaranhados nas malhas da Justiça.
O próprio primeiro-ministro António Costa mais uma vez deu o lamiré deste novo fado, com a sobranceria que se lhe conhece, quando afirmou, a propósito da investigação de que o titular da pasta das Finanças está a ser alvo, que este “em circunstância, alguma sairá do Governo, mesmo que venha a ser constituído arguido”. Que é como quem diz: alto e para o baile, que quem manda aqui sou eu e a justiça sou eu que a faço!
É o Regime no seu máximo esplendor!
Posto isto, que ninguém se espante se um grupo de deputados, ad hoc e à socapa, incapazes de se entenderem quanto à transparência, decretar que os titulares de cargos políticos passam a gozar de impunidade criminal, total e vitalícia.
Na práctica, foi o que aconteceu, até há pouco tempo, por longos e felizes anos de democracia, em que o regabofe partidário levou o Estado à falência e os “donos disto tudo” sub-repticiamente fizeram valer a sua lei.
Estamos, agora, perante um fado novo, sem dúvida. Que não evoca desgraças e tristezas passadas e antes canta fortunas e sucessos presentes e futuros, mas continua a predispor os portugueses, como convém, para dar de beber à dor, se embriagarem com futebol e telenovelas e a remetê-los para a abstenção eleitoral.
Assim é que, a ajuizar pelas letras deste novo fado, que é como quem diz discursos governamentais, não haverá mais incêndios florestais no verão que se avizinha. Deus queira que não. E secas, se chover, também não.
Igualmente foi concedido ao povo saber que não houve assalto nenhum ao quartel de Tancos como o ministro da Defesa previra e que tudo se ficou a dever à irresponsabilidade de magalas infelizes.
E mais! A dívida pública nacional, que é das pesadas do mundo está garantidamente controlada, a carga tributária aumentou mas as famílias vão pagar menos (será?!), muito em breve alcançaremos o pleno emprego e os emigrantes vão regressar em massa, agora que as multinacionais tecnológicas, como a Google e Amazon, se aprestam a montar tenda em Lisboa e no Porto. E em que outras terras haveria de ser se a competência e prestígio dos nossos governantes não dá para mais?!
Quanto ao nosso querido Trás-os-Montes espera-se que continue a ser a reserva natural que sempre foi, espécie de jardim zoológico, com raros indígenas pasmados a ver passar os comboios e os navios do Tua.
Muito felizes serão os transmontanos se os seus autarcas e deputados deixarem de se dar ao desfrute de alienar e deixar estragar o muito de bom que ainda lhes resta.

Bem-falantes, fala-baratos e vendedores de banha da cobra.

Na política portuguesa pululam os bem-falantes altifalantes. Sobretudo nos estratos mais altos da governação como sejam a Assembleia da República e o Governo.
Bem-falantes porque fluentes nas ideias e nas palavras. Altifalantes porque dado os postos elevados que ocupam lhes é facultado falar alto e bom som sempre que lhes apetece, na certeza de que serão ouvidos. Sobretudo quando se dão ao desfrute de bolsar os milhões, as boas intenções e as presunções com que ateiam o inferno da má governação.
Acresce que muitos dos políticos portugueses de topo a quem estão atribuídas as maiores responsabilidades públicas não se limitam a ser bem-falantes mas primam igualmente por serem fala-baratos e mesmo vendedores de banha da cobra, faculdades que deveriam ser apenas homologadas a certos profissionais animadores de feiras e romarias e nunca a dignatários do Estado que aos feirantes fazem concorrência desleal.
Mesmo assim havemos de reconhecer que é um regalo ouvir certos artistas da palavra exibirem as suas prodigiosas verves e verborreias nos plenários da Assembleia da República. É caso para se dizer que cantam e encantam. Tanto que, mesmo quando se não percebe nada do que dizem, quem os ouve sempre fica com a percepção de que falaram bem. O que nos leva a pensar que falar bem sem nada dizer e mal fazer parece ser apanágio dos políticos portugueses em particular e dos latinos em geral.
A questão é mais séria do que se imagina, porém. Porque, muitos políticos portugueses, quando não falam só por falar, não poucas vezes lançam mão de discursos redondos, isto é, que não têm ponta por onde se lhe pegue, para esconder erros, omissões e mesmo crimes.
Senão, atentemos em três factos relevantes que agitaram a opinião pública a semana passada, começando pelos discursos que douraram a conspiração dos deputados que se mancomunaram para, à sorrelfa, gizar uma nova lei de financiamento dos partidos. Uma barracada sem pés nem cabeça, que prefigura um atentado à democracia, sobretudo grave porque foi cometido por quem foi e da forma como foi.
A que se seguiu a polémica em torno da ministra da Justiça que com despropositado e obscuro propósito publicamente fez saber que o Governo não irá reconduzir no cargo a Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, que tão bom recado tem dado de si e que tem entre mãos processos judiciais da mais alta gravidade envolvendo gradas figuras públicas de Portugal e de Angola.
O burburinho que se gerou na comunicação social e no seio do próprio partido governamental, culminou com a Oposição, tonitruante, a insinuar que o Governo pretende condicionar a Justiça para favorecer criminosos de alto coturno já indiciados pelo Ministério Público. Tudo isto faz com que muitos portugueses andem compreensivelmente desconfiados e suspeitem que o crime governa Portugal.
Entretanto, o PCP e o BE, com a violência oral que os caracteriza, mais uma vez invectivaram o primeiro-ministro acerca dos impostos que, (pasme-se!), a EDP e a GALP se recusam a pagar. E mais uma vez houve quem admitisse que era desta que a Geringonça estourava.
Mas não. O primeiro-ministro, como é seu timbre, mais uma vez falou firme e grosso e prontamente frustrou o ímpeto populista dos seus parceiros esquerdinos que, mais uma vez, meteram o rabo entre as pernas.
Falta saber se, nesta como em tantas outras situações, pese embora a veemência oratória do primeiro-ministro, não irá ficar tudo em águas de bacalhau, com a EDP e a Galp a coçarem a barriga de tanto rir à socapa.
Esta a democracia que diariamente é servida aos portugueses na bandeja da demagogia. Uma permanente peixeirada de bem-falantes, fala-baratos e vendedores de banha da cobra, quais deles os piores.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

O maior sucesso de todos os tempos

Esta crónica não pretende ser uma prédica religiosa e muito menos uma lição de moral. Deverá ser entendida, tão-só, como uma inócua reflexão natalícia, mais apropositada depois que esmoreceu a alegria das festas familiares, se digeriram os acepipes de consoada e se silenciou o chinfrim dos festejos da passagem de ano.
Muito se fala, hoje em dia, de sucesso e de fracasso, de riqueza e de pobreza. Os meios de comunicação social bombardeiam-nos diariamente com notícias de humanos que alcançam feitos retumbantes no desporto, no espetáculo ou na política, a ponto de os converter em seres de outro mundo, deuses (com letra pequena) do nosso tempo.
Aureolados de fama sobrenadam em dinheiro, estravagâncias e luxúria porque multidões fascinadas os vitoriam, compram produtos a eles relativos e de alguma forma os procuram imitar.
Esta poderá não ser a grande marca da besta apocalíptica mas é, seguramente, um sinal dos tempos, um estigma da Civilização vigente que constrói vidas de sonho para meia dúzia e de tristeza, desilusão e desgraça para milhões.
Civilização que cada vez mais confunde a verdade com a mentira, tudo dependendo da força e arte com que a comunicação trata as notícias. Civilização que já não separa o bem, que reduziu ao prazer, do mal, que se apropriou da liberdade.
Não é de espantar, portanto, que a mensagem de verdade, de amor e de paz de Jesus Cristo, o expoente maior da História do Humanismo e da Humanidade seja, nos tempos que correm, sistematicamente ignorada ou adulterada.
O próprio Papa Francisco se enredou num lamentável equívoco quando, numa homilia proferida em Nova Iorque há dois anos atrás, afirmou referindo-se a Jesus Cristo: “a sua vida, humanamente falando, acabou com um fracasso: o fracasso da cruz". Isto levou a que, talvez injustamente, muitos e insuspeitos seguidores de Cristo tenham acusado o Papa Francisco de ser herético.
Até eu, que nutro pelo actual Papa especial admiração e simpatia, também estou em total desacordo com ele neste ponto. Porque, mesmo se não tivermos em conta o mistério insondável da Ressurreição, Jesus Cristo ao morrer na Cruz cumpriu, gloriosamente, a Sua missão, que no Seu próprio dizer, era essa mesma: morrer para nos salvar.
Por isso, nenhum crente poderá aceitar que o Papa ponha em causa este facto de ânimo leve e muito menos sugira que Jesus Cristo não nos salvou.
Apesar de não ter sido promovido a bispo ou sido eleito Papa, não ter batido recordes, ganho qualquer prémio, tão pouco o Nobel da paz, vendido milhões de discos ou enriquecido, a vida de Jesus Cristo constitui o maior sucesso de todos os tempos. Mesmo humanamente falando.
Tanto assim é que, volvidos mais dois mil anos, acima de mil milhões de almas continuam a seguir a Sua doutrina, considerando apenas a Igreja Católica, a maior organização global que alguma vez operou sobre a Terra.
Muito embora o mal e a dor não tenham desaparecido com a morte de Jesus Cristo crucificado no Calvário, a Sua missão salvífica continua a cumprir-se hora a hora no coração daqueles que seguem os Seus ensinamentos e que acreditam que se consumará apoteoticamente no final dos tempos.
Ninguém é fracassado só porque não é rico, líder político ou campeão numa qualquer modalidade e apenas é bem-sucedido quando ultrapassa as suas limitações e bem cumpre as suas missões.
A competição fundamental de cada um é consigo próprio. É a si mesmo que cada um se deve vencer. Humanamente falando.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

 

Estado de direito ou santuário do crime?

Notícias como as que dizem respeito à RARÍSSIMAS – Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras, são recorrentes e vulgaríssimas. O que nos leva a justamente admitir que a maioria dos factos que as originam são verdadeiros e graves, ainda que as condenações em tribunal sejam raríssimas. É o regime político vigente que cada vez mais se compromete e transfigura numa democracia libertina que mais parece um santuário do crime que um estado de direito.
O chorrilho de escândalos de toda a espécie envolvendo governantes, amigos, afilhados, cães e gatos de partidos, parece não ter fim. Os factos referentes à célebre operação Marquês expostos recentemente pelo Ministério Público, para não citar outros de igual calibre, serão tão só a ponta do iceberg. Somos constrangidos a concluir, portanto, que o Estado português é altamente vulnerável ao assalto por gente da pior espécie: ladrões, aldrabões, farsantes.
Lamentavelmente, como a Raríssimas bem o demonstra, muitas IPSS, para lá dos serviços que bem ou mal prestam aos infelizes utentes, existem sobretudo para promover a imagem pública de destacadas “socialites”. Caridade interesseira, é o que é!
Não quero com isto dizer que não há pessoas íntegras e verdadeiras a servir o Estado, designadamente políticos. Acredito que os há e que não serão tão raros quanto se diz. Conheço alguns a quem tiro o meu chapéu. Deixemo-nos de facciosimos, de uma vez por todas, portanto.
A corrupção não tem pátria, nem raça, nem ideologia e muito menos partido. Mas tem rostos ainda que muitos se sujeitem a operações plásticas. É gente de todos os credos e religiões. Gente que acredita ou não, na vida depois da morte, no inferno seguramente não, mas que é capaz de todas a virtudes para alcançar o céu das vaidades terrenas, dos carros topos de gama, dos almoços e jantares pagos com dinheiros públicos, da fama e da glória seja ela qual for. É gente que, acima de tudo, está convencida que continuará impune, nesta vida ou em mais que houver.
A situação que presentemente se vive em Portugal é sobretudo chocante porque o Governo e os partidos que o apoiam se dizem de esquerda mas sistematicamente calam, consentem e apadrinham estas desgraças.
Partidos que têm demonstrado ser abertamente contrários e incompetentes para fazer as reformas indispensáveis a pôr cobro a tamanha degradação da democracia. Partidos que, antes pelo contrário, optam por iludir o povo com tiradas demagógicas e populistas e atemorizar os incautos com o imaginário inferno da direita a quem responsabilizam por tudo, inclusive pelas suas próprias contradições. 
São a Geringonça solidária no seu pior, sempre pronta a apaga todos os fogos, não só os florestais, com palavras inflamadas e lágrimas de crocodilo. Eles são os verdadeiros garantes do Regime
Os portugueses exigem mais do que as migalhas que caiem da mesa do Orçamento de Estado. Exigem verdade, justiça e transparência. Reformas políticas, em duas palavras!
 
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

Os engolidores de sapos e de espadas

Contrariamente ao que se possa pensar a expressão “engolir sapos”, cujo significado não me parece que seja necessário explicar, tem origem bíblica, nas pragas do Egipto, muito embora na actualidade assente que nem luva a Jerónimo de Sousa e aos seus apaniguados do PCP, que até já engoliram a emblemática coerência comunista herdada do seu mítico fundador.
Também se aplica, talvez com maior razão até, ao PSD e ao CDS, a dita oposição e, porque não, a muitos ambiciosos caçapos do PS nascidos nos tempos áureos de José Sócrates. Para não falar nos renomados economistas e analistas políticos cujas previsões falharam estrondosamente e que agora andam roídos de inveja.
Já o engolimento de espadas, que é uma profissão como outra qualquer, terá começado na Índia, muitos anos antes de Cristo também, se bem que Catarina Martins e Mariana Mortágua e os fiéis do BE, só muito recentemente se dediquem a esta modalidade política radical.
Existe mesmo uma associação internacional de engolidores de espadas (a Sword Swallowers' Association International), na qual a “geringonça” se poderá matricular uma vez que reúne todos os créditos, designadamente os que lhe são conferidos pelos ministros com competências de faquirismo, em especial dormir em camas de pregos.
O inesperado produtor deste fenomenal espectáculo de engolidores de sapos e de espadas é Mário Centeno, o competentíssimo e afortunado ministro das Finanças português que, com invejável mestria, amaciou as políticas de direita, os gordos sapos domesticados que alegremente o PCP digere, sem pestanejar, para gáudio do seu povo trabalhador privativo.
Mérito menos apreciado publicamente tem o primeiro-ministro António Costa que com frio cinismo afia as espadas que BE e oposição engolem com rufar de tambores e prepara as camas de pregos em que os seus ministros dormem que nem anjinhos.
Tudo isto tem a ver com a economia nacional, um anafado sapo domado pelo encantador Centeno, que quanto mais lhe batem mais incha. Tanto que o bicho corre o risco de estourar de tanto inchar agora que o seu tratador foi promovido a treinador principal do Eurogrupo, embora continue a orientar as finanças lusas, em “part-time”, muito provavelmente aos fins-de-semana.
Mesmo assim, no meu modesto parecer, Mário Centeno poderá ser mais útil ao seu país do que outros políticos de renome, de quem se dizia que seriam uma bênção para Portugal quando foram designados para importantes cargos internacionais, mas depois foi o que se viu.
A Mário Centeno, porém, bastar-lhe-á fazer engolir uma boa meia dúzia de sapinhos aos arrogantes de Bruxelas, ainda que a sua promoção a presidente do Eurogrupo possa ter sido uma punhalada fatal nas costas da “geringonça”. Há sapos e espadas para os quais o PCP e o BE, apesar de tudo, parecem não ter garganta.
Certo é que este espectáculo circense vai continuar na capital do fado com a “geringonça” a evoluir na pista durante alguns meses mais. Tudo leva a crer, porém, que quando António Costa afiou a espada da taxa das renováveis que Mariana Mortágua engoliu espumando de raiva, deu um sinal claro de que já tem planeado o fim da “geringonça” aproveitando a oportunidade de oiro que se lhe oferece para finalmente formar um mítico governo do Bloco Central, tendo o PSD como subalterno e contando com o beneplácito entusiasta do presidente da República.
A menos que, como a OCDE admite e teme, a barraca da economia mundial abane. Se tal acontecer o mais certo é António Costa cair desamparadamente do trapézio, a estrelinha de Mário Centeno apagar-se e, ironia do destino, ser ele o engolido, sem apelo nem agravo. Competência não basta.
Boas Festas!
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.