A Esquerda não compreende "Identidade"

O que uma festa de aldeia nos diz sobre a complexidade deste conceito

05 ago. 2026, 04:30

No último domingo de julho aconteceu a festa na terra do meu pai: Constantim, Vila Real. Como muitas festa, sobretudo no Norte do país, esta está intimamente conectada à Música das Bandas Filarmónicas.

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Na casa dos meus avós, a partir das nove da manhã, a música passa quatro vezes ao longo do dia, à noite somo nós que vamos ter com elas, um despique entre as duas culmina com cada uma por sua vez a ser escoltada pelo público para o largo da igreja onde cada banda é cercada por aqueles que não se querem despedir da música filarmónica antes das três da manhã.

Das várias músicas que se ouvem ao longo deste dia, há uma em particular que se vai repetindo ao longo do dia com grande, grande furor e entusiasmo da multidão que as acompanham. Gritos de festejo no refrão e todos a acompanhar com voz trauteando a melodia.

Pela sua repetição e entusiasmo da população, poderia-se achar que é algum hino da aldeia, mas apesar de Constantim o ter esta não é ele. De facto a maioria não deve saber sequer o nome da música. Alguns arriscam o seu nome, mas o mais fácil e certo para a identificar será mesmo trautear o refrão.

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"Mestre Manuel Joaquim de Almeida" parece uma tradição com décadas para aqueles que a ouvem das vozes dos Constantinenses, um marco da identidade que une muitos que no resto do ano estão por essa Europa fora. Na realidade, é uma invenção nova que ninguém saberá com total certeza como começou, foi começando, há cerca de uma década atrás e alastrou-se rapidamente.

Muito se fala sobre a vitória (hoje vista como ingénua) do Liberalismo no final do século XX, o "final da história". Mas há uma ideologia que venceu tanto esse século como o anterior e no entanto passa despercebida: o Nacionalismo. Falo, não da maneira como hoje é interpretado o tema, associado à extrema-direita, mas na sua ideia mais básica: a existência de nações; ideia perfeitamente alienígena para qualquer pessoa do século XV.

Os sinais desta vitória estão por toda a parte. No desporto: pensem no furor pela seleção nacional no mundial, ou nos autocolantes alusivos a Portugal nos carros dos emigrantes. Pensem nos nossos cartões de identificação, na reação ao hino da nação, nas bandeiras por aí espalhadas… Podemos dizer que esta é a ideologia política mais transversal e entranhada nos instintos básicos da população.

Aquando da discussão da revisão da Lei da Nacionalidade, a Esquerda, principalmente a Esquerda Lisboeta, fez uma paródia do assunto ridicularizando o próprio conceito de português. Questionavam e respondiam ironicamente: "o que é um português?", "deve ser alguém que come pasteis de nata e bacalhau".

Esta não é, nem será a única vez que a esquerda ridicularizará uma identidade. Fá-lo frequentemente apesar de constantemente dizer que é ela a protetora de identidades e em particular das identidades minoritárias. Na verdade, a Esquerda moderna está completamente incapacitada para compreender o processo de emergência e desenvolvimento das identidades coletivas como a música que arrebatou Constantim. Não consegue compreender as nuances, a inexplicabilidade, não consegue empatizar com aqueles que a sentem. E estes tiques do "bacalhau" revelam o que a Esquerda pensa realmente das identidades, estas devem existir unicamente como instrumento para a sua luta política quando lhe desagradam, as identidades devem ser ridicularizadas e estereotipadas ao limite agregando massas diversas e amassando-as numa identidade amorfa.

A Esquerda não consegue compreender a dificuldade de descrição das identidades, a sua natureza orgânica, contraditória, por vezes, e espontânea. Não consegue conceber que as pessoas se sintam portuguesas e que tenham uma ideia do que é essa identidade. Em vez de reconhecer a complexidade do conceito e tentar prefere estereotipar e insultar.

É mais um tiro nos pés daqueles que tiveram outrora outro nível de densidade intelectual e sensibilidade política que dão saudades a quem vê o seu eleitorado comido pela extrema-direita. Esperemos que melhores dias tragam mais clarividência aos seus representantes.

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