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Diogo Aleixo

Eurofederalista e Liberal Social, Membro da Iniciativa Liberal Bragança

O que pensarão os Alemães de Nós?

Seremos apenas o primo espertalhão ou o amigo toxicodependente? Que responsabilidade temos na ascenção da extrema-direita nos países "frugais" da União Europeia?

04 set. 2026, 05:00

"Now I can go to the bank?" [sic]

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Por estes dias terminou o PRR, a grande "bazuca" de António Costa cujo sucessor terá a oportunidade em breve de "ir ao banco" levantar o último cheque. Para comemorar, o ministro da pasta, Manuel Castro Almeida, em conferência de imprensa na última semana, gabou o país e o governo por terem gasto muito dinheiro.

É uma frase estranha esta. Em toda a minha vida penso nunca ter ouvido ninguém congratular ninguém por ter gasto muito dinheiro. Por ter comprado uma casa ou um carro mais engraçado talvez, mas nunca pelo simples ato de gastar dinheiro.

Esta estranha gabarolice é especialmente peculiar se olharmos à origem do dinheiro. O Plano de Recuperação e Resiliência tinha um objetivo, como o próprio nome diz, de recuperar a nossa economia da situação pandémica mas especialmente de a tornar mais resiliente a choques externos.

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De forma mais abrangente os fundos europeus que os nossos governantes gostam de "executar" (leia-se: gastar) têm como objetivo tentar equilibrar toda a União Europeia tornando as economias menos produtivas mais produtivas, aproximando os diferentes países da União Europeia.

Seria então mais apropriado e normal que o Governo gabasse não quanto dinheiro gastou, mas sim quão mais produtiva a nossa economia ficou ou quão mais resiliente face a choques externos ficámos. Mas não, tanto a retórica do governo como dos anteriores e o próprio site do PRR estão focados numa única coisa: gastar. Quanto dinheiro já foi gasto, quanto dinheiro é a fundo perdido, quanto dinheiro já foi ressarcido por Bruxelas.

RecuperarPortugal.gov.pt

Como todos os que estão a ler bem sabem, o dinheiro não cai do céu e portanto insta perguntar se este dinheiro foi bem utilizado porque dinheiro que é usado para A fica a faltar para B e C. Sobre isso recomendo a leitura do livro "O Vício dos Fundos Europeus" de Nuno Palma, cuja resposta a esta pergunta é um alarmante não sabemos. Sim, há relatórios publicados, mas adivinha o que é que esses relatórios medem? Quanto dinheiro se gastou. Os resultados da aplicação desse dinheiro ficam para considerações genéricas que pouco ou nada dizem sobre a realidade. Esta é uma realidade que continua sob os alertas do Tribunal de Auditores da União Europeia que pede mais rigor na gestão do dinheiro público. Uma coisa fica certa, durante 20 anos Portugal e os seus políticos gabaram-se de gastar milhares de milhões e no final dessas décadas, Portugal desceu consecutivamente nos rankings económicos da União Europeia. Ou seja, depois de gastar milhares de milhões a tentar aproximar-se da média da UE, Portugal está hoje pior do que estava há uns anos.

Este facto por si só já nos deveria levar a uma grande reflexão e quiçá uma pausa no gastar, mas, como o dinheiro não cai do céu, é importante também um olhar mais sério para a origem deste dinheiro. Falo de países como a Alemanha, que são aqueles que, ao contrário de Portugal, contribuem mais para a União do que aquilo que recebem.

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A situação requer um exercício de empatia: como se sentiria, caro leitor, se alguém lhe dissesse que uma parte do dinheiro que paga para impostos é enviado para um país com o objetivo de melhorar a sua economia e apesar de milhares de milhões de euros a economia desse país está relativamente no mesmo sítio? Como se sentiria se, ao mesmo tempo, visse que a sua própria economia está com dificuldades e que as infraestruturas do seu país têm a necessidade urgente de investimento? Como se sentiria se no meio disto o seu país tivesse de se endividar ao mesmo tempo que vê o seu dinheiro a ser enviado para outros países para as suas infraestruturas? E, cereja no topo do bolo, o que acharia destes países quando eles marchassem em fila para Bruxelas para pedir ainda mais dinheiro no próximo orçamento comunitário?

Provavelmente não acharia muita graça.

Por estes dias corre o alarme político por toda a Europa sobre a possibilidade real de a AfD, o partido de extrema direita alemão, ter pela primeira vez a possibilidade de governar um dos estados alemães, Saxónia-Anhalt. Muito menos tempo de antena tem sido dedicado às causas que levaram a este partido nascer e crescer. Dá-se um ênfaze muito grande à questão da imigração quando se olha para a AfD, que nasceu sim sobre a preocupação da Alemanha estar a financiar os países do Sul da Europa que fizeram uma gestão irresponsável da sua dívida pública. Hoje tanto a AfD como outros partidos radicais de direita como o partido de Marine le Pen usam argumentos semelhantes para defender um corte severo ou mesmo total nas contribuições dos seus países para a União Europeia.

Marine le Pen no debate em que sugeriu pagar a dívida francesa cortando no financiamento pela França da União Europeia Créditos: EPA/TERESA SUAREZ

Portugal tem especial culpa nesta matéria porque financiou nos últimos 10 anos cerca de 90% do investimento público através de Fundos da União Europeia. Um recorde absoluto em toda a união já que o segundo colocado não chega sequer a metade. Alguns verão nisto uma excelente optimização financeira dos fundos, outros verão um estado incapaz de investir usando o seu próprio dinheiro (note-se que países mais pobres do que nós o fazem). Se a AfD chegar ao poder não será possível dizer que Portugal não tem em parte culpa por alimentar este movimento através do seu uso abusivo de Fundos Europeus.

Ainda assim, e depois da falha contínua da aplicação dos fundos nos últimos anos, Portugal e os outros países do Sul continuam a pedir mais. Existem até autarcas que montam toda a estratégia para o município desenvolvendo projetos que vão direitinhos para a gaveta, à espera da oportunidade certa para sacar mais uns milhões à União Europeia. Perguntados sobre o assunto, estes políticos, quer locais quer nacionais, dirão que fazem parte da luta contra o populismo e a direita radical por toda a Europa e todo o mundo. Mas são incapazes de olhar-se ao espelho e de perceberem que são eles próprios que os alimentam bocadinho por bocadinho.

Vivemos num país viciado em Fundos Europeus, vivemos num país viciado no dinheiro dos outros. Pode vir a custar caro.

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