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Nós trasmontanos, sefarditas e marranos- Manuel Lopes, um judeu do tempo da inquisição - 7

Por 1656, Luís Lopes Penha, o avô de Manuel, ter-se-á deslocado de Madrid a Lebução, acompanhado de sua terceira mulher, para participar no casamento de Isabel Cardosa, (1) sua filha e de sua segunda mulher Branca Cardosa. Aliás, também a noiva era natural de Madrid, de onde terá vindo para ser educada em Lebução. Possivelmente, também seria por essa altura que Beatriz Cardosa, irmã de Isabel, veio de Madrid para Chaves, onde ficou a viver e de casamento marcado com Francisco Lopes, aliás, Jacob Rodrigues, atrás citado. O noivo de Isabel chamava-se Lopo Nunes (Ferro) e era natural de Madrid. Sua mãe, Jerónima da Costa, nascida em Bragança, era irmã de Pedro Marcos Ferro, que encontramos a viver em Torre de Moncorvo. E toda a família de Lopo Nunes estava morando em Castela, exceto o irmão mais novo, Ventura Nunes (Ferro) de seu nome, que aos 16 anos já morava em Lebução, terra onde casou mais tarde com Violante Nunes, irmã do Dr. Manuel Mendes. Por agora ficamos em Lebução, uma pequena aldeia que era anexa da Castanheira. (2) Ali haveria uma grande percentagem de núcleos familiares de origem hebreia, umbilicalmente ligada a Rebordelo, Chaves e Vinhais e em constante movimento e trato comercial com terras de Castela. Talvez por isso mesmo, surgiu em Lebução, por aquela altura, uma rede de passadores de judeus, cujos serviços eram contratados até por gente de Lisboa, Coimbra e Porto que, pela rota de Lebução, fugia para Castela. (3) A propósito, veja-se uma certidão passada por Manuel do Canto, notário do santo ofício de Coimbra: - Certifico e dou fé que, para passar a presente, vi o caderno das denúncias e mais papéis pertencentes aos cristãos-novos de Bragança e vila de Vinhais e seus arredores e nele, desde a primeira folha até às 43 estão algumas cartas de Luís Figueiredo Bandeira (4) familiar do santo ofício, tenente general da província de Trás-os-Montes e governador de Bragança, hábito de Cristo que corre com as prisões e diligências do santo ofício, e delas consta avisara a mesa desta inquisição que muitas pessoas da gente da nação das ditas terras e do lugar de Lebução tinham fugido para Castela, depois que naquelas partes se começaram as prisões do santo ofício e outras muitas andavam abaladas e vendendo apressadamente suas fazendas e se entendia ser para também fugirem com medo e receio de serem presas pelo santo ofício… (5) Esta certidão foi apresentada como prova para se proceder às primeiras prisões levadas a efeito em Lebução pelo santo ofício nas pessoas de Antónia Cardosa e sua prima segunda Isabel Nunes, (6) em 5.3.1659. A respeito daquela, diremos que era irmã de Isabel Dias, a terceira mulher de Luís Lopes Penha, conforme sua confissão feita em 11.9.1660: -Disse que haverá 3 anos, em Lebução, em sua casa se achou com sua irmã Isabel Dias, viúva de Luís Lopes Penha e ela é moradora em Lebução. (7) Para além do receio de fuga, aquelas ordens de prisão resultaram de denúncias feitas por parentes de Vinhais que estavam presos. Como esta de Filipa Nunes: - Disse que haverá 3 anos, em Vinhais, sobre os muros onde foram ver umas comédias, se achou com sua prima por via paterna, Antónia Cardosa, natural de Vinhais, moradora em Lebução e ali casada com Pedro Nunes… (8) Antónia Cardosa nasceu em Vinhais, por 1633. Viveu em Madrid e regressou a Vinhais por 1654, casando, de seguida, com Pedro Nunes Campos, da mesma vila. O casal estabeleceu morada em Lebução e ali moravam quando Antónia foi levada para os cárceres da inquisição onde veio a falecer, em 27.6.1661. (9) No seguimento destes processos, o santo ofício lançou uma larga operação, ao início de Junho de 1662, prendendo em Lebução uma dezena de cristãos-novos, acusados de judaísmo. E vendo fazer aquelas prisões, praticamente todos os outros se puseram a caminho de Coimbra, apresentando-se livremente a confessar que tinham judaizado. A generalidade dos que se apresentaram saíram levemente condenados no auto- -da-fé de 9.7.1662. Os que ficaram presos, saíram todos no auto de 26.10.1664 e as penas foram muito semelhantes: sequestro de bens, cárcere e hábito penitencial. A partir de então, não se registaram mais prisões em Lebução, por parte do santo ofício. Isto, porém, não significa que as práticas de judaísmo tenham terminado. Antes pelo contrário, a acreditar na conversa que Jerónimo Álvares teve com o padre Gonçalo Lopes, junto à raia de Castela, andando este à caça de perdizes e aquele fugido, depois que prenderam sua irmã: - Disse que ela não sabia judaizar mas que os inquisidores os ensinam a judaizar e no fim ficam a judaizar. (10) E se não houve mais prisões em Lebução é porque muitos dos homens e mulheres da nação hebreia abandonaram a terra e se foram viver em outras bandas.

Paulo Gonçalves avança para a recandidatura à liderança do CAB

Seg, 22/06/2020 - 18:09


O Clube Académico de Bragança (CAB) vai a votos no próximo dia 15 de Julho. Paulo Gonçalves, presidente do clube desde 2014, vai recandidatar-se e confessou ao Nordeste que a pandemia da Covid-19 também trouxe dificuldades ao CAB.

 

- Há seis anos que lidera o Clube Académico de Bragança. Porque decidiu avançar para a recandidatura?

Não fazia sentido neste momento difícil para todos em geral e para o clube em particular não me recandidatar.

Nós trasmontanos, sefarditas e marranos- Manuel Lopes, um judeu do tempo da inquisição - 6

Voltemos atrás, ao filho primogénito de Luís Lopes Penha, nascido em Mogadouro, cerca de 1629 e ali batizado com o nome de António Lopes Pereira. Sabemos que repartiu a mocidade negociando, entre Mogadouro e Castela. Em data que não conseguimos averiguar, foi casar em Torre de Moncorvo, com Maria Rodrigues, filha de João Rodrigues e Manuela Dias. O casal morou algum tempo em Moncorvo, mudando-se depois para o Mogadouro onde, por 1680, faleceu Maria Rodrigues, deixando 4 filhos: Luís Lopes Penha, de 10 anos, João Lopes Ventura, de 7, Salvador, de 4 Lopes e Manuel Lopes, o protagonista deste trabalho, recém-nascido. Aliás, presumimos que a mãe faleceu na sequência deste parto. Da vivência de António Lopes com seus filhos, temos o relato feito pelo filho mais velho, o Luís, na inquisição de Valhadolid em 10.2.1702: - Disse que, sendo de 10 anos e vivendo com seus pais António Lopes Pereira e Maria Rodrigues, já defuntos, no Mogadouro, e tendo morrido a dita sua mãe, havia coisa de um mês, disse a ele confitente seu pai e a seu irmão João Lopes Ventura, que no dito tempo seria de 7 anos, estando os três sozinhos, num aposento de sua casa aonde seu pai dormia, disse o dito seu pai, que havia ele confitente e seu irmão de sacar a alma de sua mãe das penas do purgatório e levá-la para o céu. E que a isto respondeu ele declarante e seu irmão que faziam o que pudessem, ainda que fosse necessário perder a vida. Ao que seu pai respondeu que para consegui-lo não necessitavam senão de estar sem comer nem beber pelo tempo de 24 horas, rezando algumas vezes padre-nosso, sem dizer ao fim Jesus. E convencendo- -os aos dois a fazê-lo, como seu pai dizia, naquele mesmo dia, seu pai e eles, do poente ao sol, comeram uma potage de garbanços e um pouco de peixe, dizendo seu pai que era para fazer a primeira ceia do jejum que haviam de fazer com ele pela alma de sua mãe e que até à noite seguinte, à mesma hora, não haviam de comer nem beber. E assim o fizeram ambos, rezando pela manhã e pela tarde um rosário de padre-nossos sem dizer Jesus ao final e sem estar presente seu pai. (1) Assim explicou Luís como foi introduzido por seu pai na prática da lei de Moisés, contando em seguida outras práticas e cerimónias judaicas e ditando várias orações que seu pai e sua avó materna lhe haviam ensinado. (2) Sim, para o Mogadouro se mudou também a sogra de António Lopes, chamada Manuela Dias, talvez depois da morte da filha, para cuidar dos netos. E à responsabilidade desta avó ficaram as 4 crianças, quando o pai morreu, por 1686. Por pouco tempo, já que a avó tratou logo de os encaminhar para junto de outros familiares que melhor pudessem educá- -los e introduzi-los na vida ativa. Assim: Luís Lopes Penha foi enviado para Benavente, Castela, para casa do tio paterno João Dias Pereira que, na região de Salamanca, trazia arrendada a venda do tabaco, com muitos familiares empregados em diversos estancos. Breve o Luís ficaria encarregado de um deles. (3) João Lopes Ventura foi enviado para Bragança, para casa da sua parente Inácia Maria Pereira, casada com Manuel Rodrigues, o Clérigo, de alcunha, onde aprendeu a arte de tecelão de sedas e de quem haveremos de falar mais adiante. Da infância de Salvador Lopes Penha, não temos qualquer informação. Sabemos tão só que, em 1702, quando contava uns 24 anos, se encontrava servindo o exército de Castela como soldado de cavalaria, conforme informação de sua “tia” Guiomar Lopes. Manuel Lopes, o mais novo, foi levado para Lebução, para casa de sua tia paterna Isabel Cardosa, como se verá. Porém, antes de prosseguirmos, acompanhando a infância de Manuel Lopes em Lebução, fiquemos em Torre de Moncorvo, procurando as suas raízes. E a primeira constatação é que na sua terra natal não conseguimos identificar qualquer parente seu. Tal como a sua avó materna, que era natural de Moncorvo e se passou para Mogadouro, deve dizer-se que todos os parentes que o Manuel encontrou ao longo da vida, originários de Torre de Moncorvo, andavam em outras terras portuguesas ou no estrangeiro. A Torre era uma terra completamente limpa da heresia judaica. É que, entre 1640 e 1670, a inquisição levara a efeito uma verdadeira operação de limpeza da etnia hebreia. Recuemos então àqueles anos de 1640, quando o promotor do tribunal do santo ofício de Coimbra solicitava as primeiras prisões, argumentando deste modo perante os inquisidores: - Ilustríssimos Senhores (…) A Torre é terra nova em que importa ao serviço de Deus entrar a Inquisição, que fez muito fruto entrando também por testemunhos de cerimónias em Quintela e Sambade. (4) Foi o início de uma alterosa vaga que, nos anos seguintes, arrastou para as celas da inquisição mais de 7 dezenas de cristãos-novos Moncorvenses, com todas as consequências, ao nível da economia, da sociedade e da cultura, ainda mais, tratando-se do sector mais dinâmico da sua população. E a operação de limpeza foi conduzida com tal eficiência que, uma dúzia de anos depois da primeira investida, em 1652, o comissário local da inquisição, que liderou o processo, Pedro Saraiva de Vasconcelos, (5) escrevia para os inquisidores de Coimbra: - Os cristãos-novos desta vila se fugiram todos para Castela e só ficaram três casas, que também farão o mesmo; porém, dizem que alguns estão escondidos em Vila Flor, que é a sua cidade de refúgio, com intenção de passarem a Castela. (6) Certamente que alguns ficariam em Vila Flor, o tempo suficiente para se desfazerem de alguns bens que não podiam levar e cobrar alguns dinheiros que tinham em mãos alheias. Mais ainda ficaram por Mogadouro, mas todos acabaram por se internar por Castela ou rumar ao Porto e Lisboa onde eram menos conhecidos e poderiam apanhar uma barco para uma terra onde pudessem livremente afirmar a sua religião. Facto é que, depois desta vaga não houve mais prisões em Torre de Moncorvo, nem manifestações públicas de judaísmo.