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A estação maluca

O Verão ganhou o apodo de estação maluca porque segundo críticos de olhar acerado, língua afiada, escrita tersa e acutilante, as pessoas ganham comportamentos esquisitos atribuídos às elevadas temperaturas alcançadas nos meses que lhe dão corpo.
Não vou maçar os leitores trazendo em meu auxílio bordões de vária natureza, tonalidades e sonoridades a justificarem o epíteto, o Estio é a estação maluca nos círculos bem pensantes (assim se julgam). Ponto final parágrafo.
Fragmentos de estrídula matricialidade o confirmam, ou pelo menos revestem de veracidade tal juízo relativo a sazão sem juízo. Sem obstáculos à observação a bebedeira desportiva iniciou-se há mais de um mês sendo o futebol o primacial motivo. A verdade manda escrever que desde a Primavera se sucediam as carraspanas clubísticas, o campeonato europeu alargou os efeitos, eufóricos glosamos a humilhação aos chauvinistas franceses, vingamos antigas humilhações, o feito assumiu a coloração de épico acontecimento análogo à batalha de Aljubarrota. Vale a pena ler o artigo de Eduardo Lourenço acerca do feito.
As senhoras do atletismo também ganharam medalhas e logo lacrimejaram a comenda de mérito igual à concedida aos futebolistas. Se estivessem mais serenas calavam-se ficando à espera da reacção do Presidente da República. A protestante após receber o penduricalho veio em forma de assim dizer não estar «chateada» com o Professor Marcelo, nem ele com ela. O efeito da caloraça às vezes frita as meninges sem necessidade de sertã e azeite. O eclético Presidente tomou boa nota, não é Lelé da cuca, possui memória de elefante.
As televisões esburgam os ossos de todas as modalidades até ao tutano, na estação maluca baixam as receitas publicitárias, adicionam-lhe o sangue de tragédias e desastres em quantidades a fazerem inveja aos filmes produzidos em Espanha nos idos de sessenta impregnados de sumo de tomate, raparigas carnudas, cobóis empoeirados e pistolas reluzentes. Até a Cláudia Cardinale surgia na pantalha a bambolear os generosos pómulos. No geral do Cine Camões batiam-se pés e soltavam-se alarvidades. Pudera!
A tonta estação no ano presente ao contrário dos passados tem o acicate político das palmatoadas, longe vão os tempos das férias repimpadas da classe mais criticada na sociedade portuguesa, também muito invejada pois potencia narcisismos, mesmo que inócuos. Empunhando a Santa Luzia, a dona Luzia sabia fazê-lo, os homens de Merkel representam mal no folhetim das sanções, expresso em milhentas declarações, algumas despudoradas, mesmo por cá cujo exemplo «maluco» são as de Maria Luís Albuquerque. Ninguém lhe coloca pedras de gelo nas «fontes» da cabeça?
Obviamente, a toleima não é exclusivo da Senhora que devia estar calada durante pelo menos dezoito meses, o período de nojo de Barroso, os já referidos burocratas de Bruxelas também gostam de se divertir período festivaleiro, sisudos recorrem às fábulas de Esopo, atacam Portugal imitando o lobo (não o ibérico) a lamber os beiços e a regougar ao cabrito: se não foste tu, foi o teu pai.
Se meditarmos sobre as declarações dos ditos senhores irritamo-nos, podemos ficar possuídos de loucura (Erasmo de Roterdão) mansa ou furiosa, de qualquer maneira, a maleita não pode tornarmo-nos iguais aos loucos imunes a todo o género de malfeitorias, sofrendo no corpo e no ânimo as consequências da insânia de políticos encerrados na torre do poder.
O filósofo Foucalt deixou-nos fuzilantes considerações relativamente aos doentes mentais e sua vivência durante Idade-Média, só que, felizmente, por um lado já não estamos em tempos medievais, por outro a consciência política evoluiu profundamente, a trilogia liberdade, igualdade e fraternidade o atesta.
A maluquice pode atacar-nos na época calmosa, não pode é privar-nos de senso, bom senso, no sentido de pensarmos nas motivações profundas dos decisores europeus comunitários.
Não podemos ter a sorte do cabrito. Como? Será que os partidos, todos, não conseguem aglutinar esforços no sentido de afugentarmos o predador? A oposição laranja tem de sair do seu labirinto. Se persistir na errância o custo eleitoral subirá desde logo nas autárquicas. Duvidam? No próximo ano também volta a estação doida.

PRENDA-ME, POR FAVOR…

Não, não é o piropo lançado pelo jovem adulto à polícia boazona que fardada vigia as ruas da cidade. É sim o apelo de J. quando, mais uma vez, o carro da patrulha lhe intercepta a marcha após uma denúncia do roubo de um telemóvel numa superfície comercial. Coisa pouca de facto. No entanto, a descrição da funcionária e as imagens de videovigilância apontam para ele. Abordam-no à entrada do bairro. Sem dramas, como se fossem conhecidos de longa data, conversam. Nada que desperte a curiosidade. A ideia do policiamento de proximidade vai entrando e, hoje em dia, é normal ver a “bófia” a conversar com civis em amena cavaqueira. Longe vão os tempos em que se aterrorizavam as crianças com o “vem aí o polícia” ou, entre adulto, se lembrava a cada instante: “Come com o guarda, mas guarda-te dele.” Miguel Torga plasmou esta desconfiança no conto Fronteira, quando Robalo, apaixonado por Isabel, garante que a prenderá se a apanhar a “passar o ribeiro” (a contrabandear). Promessa cumprida meses depois. A conversa com J. continua também. O caso muda de figura quando, como se recordado do seu dever, um dos polícias o encosta à parede do prédio e o outro o revista. Do telemóvel nem rasto. Sem prova não há crime. As únicas marcas que permanecem não se veem, essas ficam gravadas na alma.
Desde muito novo, J. esteve preso várias vezes. No início penas leves. Quando os roubos passaram a ser de maior monta, o tempo de reclusão aumentou, não sem duas ou três fugas conseguidas que o levaram a Espanha por iguais períodos de tempo. No entanto, fossem as saudades da terra ou porque a vida também não lhe corria bem, voltava sempre e com destino marcado. Passou a encarar o tempo de reclusão como momentos de felicidade. Lá dentro, como diz, tinha cama e roupa lavada. Cumpria horário, davam-lhe atenção e, por bom comportamento, podia trabalhar nas oficinas. O ciclo era o mesmo. Após a pena regressava ao bairro, do bairro ao crime e do crime à cadeia. “– Já sabemos como as coisas são. Não vale a pena investir nesta rapaziada.” – dizia um guarda com experiência, quando J ainda era jovem, na casa dos vinte, e o puseram a frequentar um curso de jardinagem, quando o que ele queria era mecânica.
A história de J. é semelhante à de tantos outros jovens. Nunca irá parar à primeira página do jornal nem sequer irá alimentar a letras gordas nenhuma manchete porque não interessa a ninguém, nem sequer aos técnicos de reabilitação habituados que estão ao fracasso das suas ações, porque sabem até onde podem ir e, sobretudo, de onde não devem passar. Para cumprir pena, os sentenciados da justiça são colocados em estabelecimentos a quilómetros de casa para “formação”; no entanto, cumprida a pena, regressam aos lugares de origem e do crime, sem ninguém perguntar se as causas subjacentes àquele comportamento transgressor já foram debeladas. A menos que haja uma mente distorcida, ninguém é criminoso opção. As autoridades conhecem perfeitamente casos em que crianças de oito, nove, dez, doze anos são obrigados a roubar porque se chegarem à barraca sem nada são castigados pelos próprios pais. Mais tarde replicarão este comportamento e assim se alimenta a cadeia do crime porque ninguém quer verdadeiramente cortar o fio que faz escola.
Enquanto que na cadeia há conforto e as necessidades básicas satisfeitas, “cá fora” não há pão, não há comida nem nada que faça sorrir. Deve a sociedade, por isso,  interrogar-se que rumo quer dar aos mais desfavorecidos entre os desfavorecidos. Urge criar verdadeiras políticas de prevenção da criminalidade que vão além das ações de formação para técnicos e, por vezes, para os chamados “grupos desfavorecidos”. É imperioso que se redefinam as estratégias de combate ao banditismo e se coloquem técnicos no terreno em vez de ser à secretária. A dignidade humana tem de ir mais além da ressocialização do prisioneiro. Não basta dar-lhe ações de formação durante, é necessário estar com ele depois, ajudá-lo de uma forma processual a readaptar-se ao meio e a conferir-lhe o direito a um tecto e ao básico para uma vida com dignidade, bastando para tal que, após o cumprimento da pena, se estendam para a sociedade civil os direitos que lhe são consignados enquanto recluso. De uma vez por todas que haja políticas sociais a sério e que o chavão dos “direitos, liberdades e garantias” se efetivem na vida de cada um.             

Por Raúl Gomes

A política e a arenga

Ter, 19/07/2016 - 09:36


Daqui a 50 anos, se for consultado um arquivo digital “super fancy”, da memória do meado de julho de 2016, quem estiver em frente ao écran, se é que ainda haverá écrans…, passará como cão por vinha vindimada (tentação retro, esta de falar em provérbios) por uma nota obscura sobre perspectivas de

Marcelo Rebelo de Sousa defende criação de “grupo de acção” para a região de Trás-os-Montes e Alto Douro

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Qua, 13/07/2016 - 12:48


Na visita à região transmontana, designada como a segunda edição da iniciativa do “Portugal Próximo”, que decorreu entre os dias 4 e 6 de Julho, Marcelo Rebelo de Sousa começou por defender a criação de uma “Unidade de Missão para o Douro”, mas, no segundo dia da visita foi mais específico. 

Presidência da República garante patrocínio a Museu da Língua em Bragança

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Qua, 13/07/2016 - 12:44


Na passagem por Bragança, na passada terça-feira, dia 5 de Julho o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que patrocina o projecto do Museu da Língua Portuguesa que está previsto para a capital de distrito.

Atropelamento de animais traz à tona reivindicação antiga da população em Paçó

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Qua, 13/07/2016 - 12:32


Depois do acidente do passado dia 4, que provocou a morte a 10 ovelhas e um cão, os habitantes de Paçó, aldeia anexa a Rio Frio, reiteram o pedido de uma ponte sobre a Estrada Nacional 218, que permita a passagem em segurança de pessoas, veículos e animais, já que precisam de atravessar esta via

Aumento de acidentes de tractor está a levar a GNR a intensificar o trabalho de sensibilização

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Qua, 13/07/2016 - 12:19


A GNR está preocupada com o aumento do número de vítimas na sequência de acidentes de tractor. De acordo com a Guarda Nacional Republicana, só este ano, morreram no distrito de Bragança nove pessoas, na sequência de acidentes de máquinas agrícolas.

NÓS TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Jacob Abraham Camille Pissarro (1830 - 15.12.1903)

A obra de Camille Pissarro é por demais conhecida, sendo ele considerado um dos fundadores do impressionismo. O próprio Henry Matisse lhe chamaria o Moisés da pintura contemporânea e Paul Cézame afirmava: - Todos descendemos de Pissarro.
De sua biografia diremos que ele nasceu na ilha de Saint Tomas, uma das Ilhas Virgens Americanas, em 10 de Julho de 1830. Aos 11 anos foi mandado a estudar num colégio em Paris. Concluídos os estudos, regressou à ilha onde se cruzou com um pintor dinamarquês chamado Fritz Malbye. Em 1852 acompanhou-o à Venezuela, em missão do governo das Ilhas Virgens, a estudar a fauna e a flora. Três anos depois, Camille Pissarro troca a Ilha pela Europa. Na companhia de Malbye, dirige-se a Paris onde trava conhecimento com Paul Cézanne, Claude Monet e outros que, com ele, foram os pais do impressionismo. Em 1861 casou com Julie Vellay que lhe deu 8 filhos. Nos anos da guerra franco-prussiana viu a “fúria militar” destruir muitos dos seus quadros, tendo ele ido viver para Inglaterra. Faleceu em Paris a 13 de Novembro de 1903.
Vamos então para a cidade de Bragança, à procura de seus ascendentes. Situemo-nos em meados do século XVIII, na Rua Direita, toda ela cheia de teares e oficinas de seda. Várias dessas casas são habitadas por gente da família Pissarro. No Arquivo Distrital de Bragança guarda-se um “Livro em que se achão descriptas as Fazendas que possue a Caza de João da Costa Pissarro, e Rafael José da Costa Pissarro”. Nele se contam dezenas de moradias, com respetivos custos e processos de aquisição, por eles ou por seu pai, Henrique José Gabriel Pissarro.
Porém, o ramo da família que procuramos é um outro, o dos filhos de Pedro Rodrigues Álvares Pissarro e Luísa Maria Nunes, que eram 4 rapazes e 3 raparigas. Em 1747 estavam todos solteiros e moravam juntos, em uma casa, a meio da Rua Direita, emprazada a Francisco de Morais Pimentel de que pagavam foro anual de 14.400 reis. Na falta dos pais, então já defuntos, o “chefe da família” era António Gabriel Pissarro, o mais velho, advogado. Lourenço e Alonso eram tecelões de seda, com uma “fabrica” no rés/chão da casa.  O mais novo dos rapazes chamava-se Francisco José Gabriel e contava 13 anos de idade. Andaria estudando gramática e latim no colégio dos Jesuítas, sito nas proximidades.
Em Abril de 1747, António Pissarro foi preso pela inquisição, juntamento com duas dezenas de outros marranos de Bragança. Foi acusado de ser o oficiante  (rabi) na “sinagoga” que regularmente faziam em casa de António Rodrigues Fallo, seu parente. Significativa neste processo foi a denúncia feita por António Manuel Figueiredo Sarmento que propositadamente andou a ver se os “judeus“ da Rua Direita guardavam o Kipur de 1746 e disse que “observou curiosamente que no dito dia estavam às portas uns dos outros sem trabalharem e com camisas lavadas e especialmente fez reflexão e reparo por serem pessoas com quem ele testemunha tem mais conhecimento e foram o licenciado Francisco Furtado Mendonça, médico, Manuel Mendes, castanhola, e o licenciado António Gabriel Pissarro que todos estavam em casa deste, com outros mais. O que ele individualmente viu de sua casa, por estar defronte do dito António Gabriel Pissarro, e este no mesmo dia mostrou a um irmão dele testemunha chamado Francisco Bernardo umas meias lavadas que tinha nas pernas, como também colete de linho lavado e camisa lavada”.
Muito curiosa foi a descrição feita pelo padre Bento Rodrigues da sepultura aberta em terra virgem na igreja de S. Vicente para enterrar o pai do Dr. Pissarro. Os “coveiros”, para mostrar ao padre que não era terra virgem, foram buscar uns ossos ao adro de S. João e “tendo-os metido na água benta da pia, os incodrigaram na terra para que se entendesse que da dita cova os tinham tirado”.
Não cabe aqui dar conta do processo do nosso advogado, cheio de notas interessantes para o estudo da sociedade brigantina da época. Diremos tão só que ele saiu penitenciado em cárcere e hábito perpétuo no auto da fé de 16.11.1749.
Certamente que sendo grande humilhação viver em Bragança com a fama de judeu e obrigado a ir à missa vestindo um saco amarelo por cima da roupa, logo que lhe foi possível, Gabriel Pissarro abandonou a terra.
Obviamente que os irmãos receavam também ser presos e, antes que isso acontecesse, resolveram apresentar-se e confessar que também haviam judaizado. Foi o que fez Francisco José Gabriel, o mais novo, que se apresentou na inquisição de Coimbra em Janeiro de 1753. De suas confissões ficamos sabendo que ele frequentava o 2º ano de cânones na universidade de Coimbra e que o irmão António já morava em Lisboa, enquanto os outros moravam em Bragança. Depois de apresentado pediu licença para ir de férias para Lisboa e para ali acabaria também por transitar o seu processo.
Em Fevereiro de 1754, o irmão Lourenço morava em Vila Real e os outros em Lisboa, como disse a irmã Isabel Brites Rosa que igualmente se apresentou na inquisição de Lisboa.
Não sabemos se Francisco acabou o curso em Coimbra, mas sabemos que casou com Rebeca Rodrigues Álvares (1752-1783) e que estes foram os pais de José Gabriel Pissarro, nascido em 1777, avô paterno de Camille Pissarro. Este seria muito pequeno quando os pais foram de Portugal para Bordéus, em França. Ali, em Janeiro de 1782, foi feita uma subscrição entre os membros da comunidade espanhola e portuguesa da mesma cidade para oferecer ao rei de França um barco para a marinha mercante, tendo “les frères Pissarro” contribuído com 500 libras. Serão eles? E também para ali terá ido na frente o advogado António Gabriel? Será ele o Mr. Jacob Pissarro que em 29.3.1778 foi eleito para o cargo de “gabay” da “nação judaica portuguesa” de Bordéus?

NOTAS e BIBLIOGRAFIA:
1- RODRIGUES, Luís Alexandre – Bragança no século XVIII. Urbanismo. Arquitectura. Dissertação de mestrado, universidade do Porto, ed. Câmara municipal de Bragança, 1995.
2-ANTT, inquisição de Coimbra, pº 6269, de António Gabriel Pissarro, fl. 23v: - Também em casa do licenciado António Gabriel Pissarro há teares, em que trabalha um seu irmão chamado Lourenço.
3- Pº 6269, fl 16.v: - O padre António Carlos Vilas Boas disse que ouviu dizer a pessoas que lhe não lembra que o pai do licenciado António Gabriel Pissarro era quem explicava a lei mosaica aos mais cristãos-novos e que no mesmo exercício se presumia ficar o dito licenciado seu filho.
4- Pº 6269, fl. 104v.
5- ANTT, inquisição de Lisboa, pº 6954, de Francisco José Gabriel. IDEM, pº 517, de Isabel Brites Rosa.
6- SCHWARZFUCHS, Simon - Le Registre dês Deliberations de la Nation Juive Portugaise de Bordeaux (1711 – 1787), p. 533, Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1981.

Por António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães

Vendavais - A força de um povo

Espalhados pelos quatro cantos do globo, os portugueses marcam a sua presença e integram-se onde quer que estejam e sabem adaptar-se perfeitamente de tal modo que são respeitados por toda a parte. Levámos connosco desde tempos imemoriais esse hábito de conhecer tudo e ensinar o que sabíamos aos que de nós nada sabiam. Marcámos território.
Assim, espalhados por este globo imenso, conseguimos impor-nos aos poucos, e levar os outros a considerar-nos como um povo com características muito próprias eivados de uma força imensa que só se consegue quando funciona em uníssono. E quando assim foi, vencemos sempre.
Foi esta força enorme, a força de um só povo, que conseguiu vencer este Europeu. Foi essa força enorme que derrotou os franceses, ciosos das suas capacidades, mas sem a força necessária para suplantar a força do povo português.
Os franceses criticaram a seleção portuguesa e disseram que Portugal nada tinha demonstrado como equipa e que estava ao alcance da França. Disseram mesmo que éramos porcos a jogar. Que jogávamos mal. Afinal o que dirão agora os franceses que desse modo criticaram Portugal?
Pelo que vimos, eles levavam a lição bem estudada. Era preciso acabar com Ronaldo, fosse como fosse. Aos vinte e cinco minutos acabaram com ele. Devem ter respirado de alívio. Mas uma seleção não é só um homem. É um povo, uma vontade, uma esperança, uma força imensa. Não havia Ronaldo, mas havia química secreta que é desconhecida dos franceses e de todos os outros povos. Uma química chamada Pátria, chamada ambição. Laços de união fortíssimos entre todos os que em campo batalharam para representar mais de onze milhões de portugueses espalhados pelo mundo desde o Minho a Timor, passando pelo Brasil e mesmo pela Austrália. Isto, a França não pode exprimir porque não tem.
Quase todos pretenderam denegrir a nossa seleção, todos a criticaram. É verdade que não começámos da melhor forma, mas como diz o povo, não se louva quem bem começa, mas quem bem acaba. Acabámos muito bem. Ganhámos o título que nos fugia há muitos anos. Vingámos a Grécia e vingámos a França. Diria mesmo que vingámos também a Alemanha, embora não se trate propriamente de vinganças. São formas de expressar o sentimento que nos vai cá dentro. Um sentimento que os emigrantes portugueses em França bem conhecem, porque vivem e convivem no meio dos franceses todos os dias e são por eles amesquinhados muitas vezes. Mas como noblesse oblige, há que aguentar e calar. Chegou o momento de falar, de gritar bem alto o nome de Portugal e enaltecer o valor de um povo, o povo português.
Parabéns aos valorosos guerreiros que, apesar de ficarem sem o seu capitão dentro das quatro linhas, manteve-se atento e sofredor fora delas, ocupando espaços que não podia para incentivar os colegas e dar-lhes a receita da força que o povo português tem e que ele bem conhece: a força da união.
Sofremos todos, como sempre sofremos. Eles ensinaram-nos a sofrer, mas também a ter esperança. Sofremos muito, mas o final valeu a pena. Como diziam os emigrantes portugueses, “temos de comer os galos” e cumprimos. Comemos na mesa deles e em casa deles.
Agora os que criticaram a seleção portuguesa, desde os espanhóis aos alemães, passando pelos franceses têm de se reverenciar e olhar para dentro de si próprios e fazerem o seu acto de contrição, se forem capazes disso. O seleccionador tinha razão quando dizia que só viria dia onze e que seria recebido em festa. Claro. Mesmo que perdesse, merecia essa festa na sua receção. Fez de tudo para garantir a manutenção e a vitória. Conseguiu. Pragmático e racional quanto baste, soube equilibrar o barco para que nunca se afundasse e chegasse a porto seguro. Teve mérito. Foi um ótimo timoneiro. Fez de Portugal Campeão Europeu pela primeira vez na História e isso ninguém lhe pode tirar.
Agora podemos dizer todos juntos e a uma só voz “somos campeões europeus”. Em evidência esteve a força de um povo com uma alma maior que o próprio mundo.

Política de Afetos

Há muitos anos que convivíamos diariamente com a personalidade política do Professor Aníbal Cavaco Silva. Uma figura austera, rígida que motivava receios e eliminava proximidades. Sendo o político que mais anos esteve no poder, enquanto primeiro-ministro e, depois, como presidente da república, assumiu sempre um poder distante do povo, exceção feita a períodos eleitorais. 
A mudança de perfil presidencial a que temos vindo a assistir, veio confirmar que passámos do chamado “8 para o 80”. A afetuosidade que a figura do atual Presidente da República manifesta, surpreende os Portugueses, justamente, parece-me, pelo contraste com a personalidade de quem ocupou o cargo até há pouco tempo.
Em visita ao Distrito de Bragança, o Presidente da República veio visitar diferentes concelhos, instituições e empresas. Em todas as ocasiões, o nosso Presidente tem um sentido de humor adaptado às circunstâncias, assumindo-se como o unificador de vontades e sentires. Esta mensagem vai passando junto de todos, até dos que iam desconfiando desta nova missão presidencial. Pois bem, confirmou de viva voz a qualidade dos autarcas socialistas e a dificuldade de fazer política no interior do País. Ficou assim o convite para voltar a visitar o nosso distrito e conhecer outras realidades e outros concelhos.
Como há uns dias partilhei, a política é a arte de transformar o impossível em realidade. A política dos afetos é reconhecida como de proximidade, que inclui naturalmente a capacidade de ouvir e retornar respostas. Uma agenda complicada não pode justificar o afastamento da realidade vivida pelos nossos conterrâneos. Preocupa-me fundamentalmente que se perca a noção da realidade, quando envolvidos e imersos em diferentes escalas de poder. Por isso mesmo, vemos políticos com comportamentos distintos em períodos eleitorais e não eleitorais, internamente em estruturas partidárias e externamente em contacto com as populações.
No nosso Distrito existem projetos muito interessantes, que encaixam como luva neste tema. As Universidades Sénior conferem simpaticamente um projeto de aprendizagem e de afetos entre gerações que se distinguem das demais pela experiência, serenidade e capacidade de multiplicar ideias e conhecimentos. Sempre que se aborda, como prioridade política, o envelhecimento ativo, só posso concordar. Duas razões fundamentais. Uma delas porque representam os mais conhecedores, sendo uma mais valia para qualquer sociedade. Outra, porque pessoas ativas contribuem para o bem-estar social.
Asseguro-vos que, na função de deputada existe uma realização pessoal e política que ultrapassa o caráter formal. Trata-se da oportunidade de aprender com todos. Poder receber jovens de diferentes escolas do distrito na assembleia, reunir com instituições e empresas para conhecer e apoiar a resolução de problemas, divulgar a nossa cultura e tradições, trabalhar em iniciativas legislativas que promovam o desenvolvimento estrutural, em particular na área agrícola e alimentar. Defendo de forma intransigente o nosso Distrito, também porque somos pessoas de afetos.

Nota: Portugal está na final do Euro 2016. No próximo domingo, disputamos com a França o Campeonato da Europa. Quando for publicado este artigo já conheceremos o resultado. A nossa seleção já é, seja qual for o desfecho, uma vencedora.