Um museu de ver, ouvir e sentir.
Um centro de conhecimento no nosso país nos domínios da música mecânica
O Museu da Música Mecânica foi inaugurado a 4 de outubro de 2016, com a presença do ex-presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, e está localizado em Arraiados, concelho de Palmela. Resulta de uma iniciativa privada do colecionador Luís Cangueiro, que durante mais de três décadas, reuniu uma coleção com mais de 650 peças, representativa de toda a música mecânica, e abrange um período de 150 anos desde finais do Séc. XVIII até aos anos 50 do Séc. XX. O que é a música mecânica? A primeira forma de se ouvir música, através dos únicos instrumentos cujo funcionamento dispensa a intervenção de um instrumentista. Deixou uma forte marca em gerações passadas, revelando-se atualmente desconhecida pela maioria das pessoas.
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O entusiasmo do colecionador nasce da confluência entre o fascínio e a paixão que estas peças despertam, mas também daquilo que, através delas, se revela, se evoca e se transmite, como se cada uma guardasse em si uma história à espera de ser descoberta. Tendo outrora pertencido a famílias de gerações passadas, chegaram até nós como preciosos testemunhos de outros tempos, heranças de um passado que nos legou um património raro e inestimável, cuja beleza e riqueza ainda hoje temos o privilégio de contemplar e desfrutar. Todos os instrumentos do acervo estão aptos a tocar, e os sons destas máquinas ouvem-se rigorosamente como os ouviam os nossos antecessores. Uma visita a este museu é uma viagem musical no tempo, à descoberta do maravilhoso mundo da música mecânica!
O arquiteto Miguel Marcelino inspirou-se na coleção para conceber o projeto de arquitetura, que consiste numa caixa totalmente fechada, opaca, materializada num revestimento mineral, sem janelas, e apenas com uma porta de entrada na fachada principal em forma de concavidade, que nos remete para as campânulas dos fonógrafos e gramofones. A organização interior é cruciforme, em redor de um pátio central aberto quadrangular, que distribui para os quatro lados do edifício. O acervo que constitui a exposição permanente reparte-se por três galerias e duas antecâmaras. Uma escadaria conduz aos dois pisos superiores, onde se encontram a sala documental, a sala de exposições temporárias e o auditório com 72 lugares.
Pela beleza e singularidade do projeto, pelo acervo que acolhe e pelo que significa sob o ponto de vista cultural e de serviço público, mereceu o reconhecimento por parte da Câmara Municipal de Palmela e da Direção-Geral do Património Cultural, ao ser classificado em 2021 como Monumento de Interesse Municipal.
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Os instrumentos de música mecânica fazem parte integrante da nossa civilização técnica ocidental. Desde os tempos mais remotos que os homens construíram harpas eólicas, instrumentos de corda que ressoavam sob a ação do vento, sendo este fenómeno atribuído a forças mágicas. É na Idade Média que nascem os verdadeiros instrumentos de música mecânica com a invenção dos relógios de pesos. No Séc. XVII, instrumentos mecânicos de grandes dimensões eram instalados ao ar livre em parques de castelos e de residências nobres. Mas foi a substituição dos pesos por um sistema de mola, que permitiu a miniaturização dos instrumentos de música mecânica, tal como hoje os conhecemos.
É com a invenção de um mecanismo constituído por um cilindro metálico revestido de puas, lâminas vibrantes de aço e uma mola, atribuída ao relojoeiro suíço Antoine Favre em 1796, que se inicia a coleção do Museu da Música Mecânica. Ao longo do Séc. XIX vários países, com destaque para a Suíça, Alemanha, França e Estados Unidos, dedicaram-se ao fabrico de centenas de milhar de instrumentos das mais diversas tipologias e dimensões, que eram exportadas para todo o mundo. Espalham-se rapidamente por ruas, cafés, salões de dança, cabarets, restaurantes, gares, e naturalmente por palácios e casas senhoriais. Com esta expansão, podemos afirmar que se assiste à democratização da música, embora tenhamos de admitir que apenas uma minoria tinha condições para adquirir estes instrumentos. Revestiram-se de uma enorme importância para o desenvolvimento e a valorização do património cultural. Eram os únicos mecanismos capazes de produzir música. Tocavam todo o tipo de melodias desde valsas de Strauss, tangos, mazurcas, fados, até à música erudita como extratos de óperas, operetas, obras líricas e hinos de diversos países. Na coleção do museu, podemos admirar a caixa de música La Radieuse, Suíça, de finais do Séc. XIX, que entre dezenas de discos metálicos que a acompanhavam, deparámo-nos com uma descoberta fascinante por termos encontrado sete hinos nacionais de Portugal!
Estes instrumentos foram perdendo cada vez mais interesse com o aparecimento do fonógrafo Tinfoil, uma invenção de Thomas Edison em 1877, que conseguiu registar pela primeira vez a voz humana numa superfície física. Um raro exemplar igual de 1879 integra a coleção do museu. Numa finíssima folha de estanho, este americano fez a primeira gravação no mundo com a história Mary had a little lamb, mas a comercialização dos primeiros suportes musicais foram os cilindros de cera tocados pelo fonógrafo. Dez anos mais tarde, o alemão Berliner descobriu uma forma mais fácil e menos dispendiosa de gravar através do disco de 78 r.p.m. produzido em goma-laca, agora tocado pelo gramofone. No início do Séc. XX, estamos perante máquinas mais inovadoras que disponibilizavam a utilização do registo sonoro. Tínhamos chegado finalmente à era das gravações. Este sistema só foi substituído pelo disco de vinil em 1948, lançado pela Columbia Records.
Este museu tem de se constituir como um espaço aberto e transversal a toda a comunidade, um contributo de cidadania na área da cultura, um polo de referência e um centro de conhecimento no nosso país nos domínios da música mecânica.
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