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Paulo Praça

Diretor Geral da Resíduos do Nordeste

O verão também põe à prova o setor dos resíduos urbanos

As entidades gestoras enfrentam uma crescente dificuldade em garantir a capacidade operacional necessária

07 ago. 2026, 04:30

Todos os anos, o verão revela, de forma particularmente evidente, as virtudes e as fragilidades do setor dos resíduos urbanos em Portugal.

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É a época dos festivais, das festas populares, das romarias, das praias cheias e das esplanadas lotadas. É também a época em que se produzem mais resíduos e em que se exige uma resposta operacional praticamente imediata. Infelizmente, continua a existir uma ideia errada: a de que os resíduos desaparecem por magia. Não desaparecem. Alguém tem de os recolher.

Apesar de muitos eventos demonstrarem preocupação com a sustentabilidade, ainda persistem comportamentos que não acompanham esse discurso. Copos, embalagens, beatas e outros resíduos continuam a ser atirados para o chão, transferindo para os serviços de limpeza urbana a responsabilidade por comportamentos que deveriam ser individuais. A limpeza das cidades não pode ser confundida com a permissão para sujar.

Mas o desafio não termina aí.

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As entidades gestoras enfrentam uma crescente dificuldade em garantir a capacidade operacional necessária. A falta de mão de obra deixou de ser um problema pontual para se tornar estrutural. Recrutar trabalhadores é cada vez mais difícil e competir com outros setores, que oferecem melhores salários e condições de trabalho mais atrativas, tornou-se uma realidade diária.

Ao mesmo tempo, as ausências por doença, as férias inevitáveis e o desgaste físico associado a uma profissão exigente obrigam as equipas a um esforço permanente para manter a qualidade do serviço.

Existe ainda um problema menos visível para quem observa apenas o resultado final: a disponibilidade das viaturas. Quando um camião de recolha avaria, a sua substituição nem sempre é imediata. A escassez de oficinas especializadas e os tempos de reparação comprometem a capacidade de resposta precisamente quando a procura atinge o seu ponto máximo.

Perante todas estas dificuldades, há um aspeto que merece ser destacado.

Enquanto milhares de portugueses desfrutam das suas férias ou participam nas festas de verão, existem mulheres e homens que continuam a trabalhar, muitas vezes durante a noite, aos fins de semana e nos feriados, para garantir que as ruas amanhecem limpas e que os resíduos são recolhidos. São profissionais que prescindem de tempo com a família e os amigos para assegurar um serviço essencial à saúde pública, ao ambiente, ao turismo e à qualidade de vida de todos nós.

O seu trabalho é, demasiadas vezes, invisível. Só damos conta da sua importância quando, por algum motivo, deixa de ser feito.

O verão deveria servir para refletirmos sobre esta realidade. Precisamos de investir mais nas pessoas, valorizar estas profissões, modernizar equipamentos, reforçar as oficinas e criar condições para atrair e reter trabalhadores. Mas precisamos também de exigir maior responsabilidade a quem organiza eventos e, sobretudo, a cada cidadão.

A sustentabilidade não termina quando se coloca um ecoponto num recinto ou quando se distribuem copos reutilizáveis. A verdadeira sustentabilidade começa no comportamento de cada um de nós.

Porque a melhor limpeza urbana continua a ser aquela que começa por não ser necessária.

Continuamos a tratar a limpeza urbana como um dado adquirido ou está na altura de reconhecer e valorizar quem, todos os dias, e especialmente no verão, garante um serviço essencial para a saúde pública, o ambiente e a qualidade de vida de todos?

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