Incêndio deixou agricultores em desespero

Passado quatro dias de combate às chamas o incêndio de Valpaços, no distrito de Vila Real, foi dado como dominado sábado durante a madrugada.

05 ago. 2026, 07:57

O incêndio que deflagrou terça-feira, alastrou-se para o distrito de Bragança tendo atingido os concelhos de Mirandela, Vinhais e Macedo de Cavaleiros.

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Ao todo foram mais de 900 operacionais mobilizados no terreno, apoiados por numerosos veículos e, durante o dia, dezenas de meios aéreos. Foram quatro dias de luta contra as chamas que terminaram graças à descida de temperatura e ao aumento de humidade, contava uma fonte da proteção Civil à Lusa, citada pela SIC.

Apesar de dominado, o incêndio deixou um rasto de devastação considerável.

Chamas  que causaram prejuízos “elevadíssimos”

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Luís Palas tem uma exploração “de vários terrenos”, entre Fradizela e São Pedro Velho, no concelho de Mirandela. Uma das atividades principais é produção de vinho na região.  Foi dos que viu os seus terrenos serem assolados pelas chamas. Vários hectares de vinha e olival estão agora queimados após serem consumidos pelo fogo.

O produtor contou que de cinco hectares “só metade ficou intacto”. Apesar de ainda não ter as contas fechadas, por ser um acontecimento recente, aponta para 2.5  hectares de vinha e outro tanto de olival que terá sido afetado pelo incêndio.

“O prejuízo é elevadíssimo. Ainda não fiz contas, mas tirando a produção deste ano, que no meu caso até tenho seguros, está em causa a produção,  no mínimo dois ou três anos. E para além da produção, muito do sistema produtivo que tínhamos neste momento, vai ser necessário repô-lo”

E as árvores que não arderam têm de ser avaliadas e só o tempo dirá se vão produzir ou não.

“Neste momento, não há nada a fazer, temos que esperar para ver que resposta é que as árvores vão dar. Uma parte delas só estão chamuscadas devido ao calor das chamas, mas mesmo essas temos que verificar se os tecidos foram queimados ou não. À partida, foi muita coisa danificada e a resposta da árvore no futuro já não vai ser a mesma coisa. As que arderam, não há nada a fazer”, explicou desolado.

Luís Palas recordou que, inicialmente, só tinha ouvido as pessoas comentarem sobre o incêndio que tinha deflagrado em Valpaços e admitiu que não se apercebeu que vinha na direção do distrito de Bragança. À tarde, terá sido o momento que se apercebeu que as suas plantações estavam em perigo. “Só a meio da tarde e do trabalho que estava a fazer, é que me consegui aperceber que já tinha passado para o lado de Mirandela. Desloquei-me para aqui e ainda consegui salvar alguma coisa, mas já muito pouco.”

Agora começa outro desafio, calcular o que foi consumido pelas chamas e reportar às entidades competentes. Apesar de ter seguros, Luís Palas não acredita que haja grandes compensações.

“Nem 50% vai ser. Não sei o que é que vai resultar disto. Os seguros só comparticipam a colheita, mais nada. Também são seguros de colheita. O resto, todo o sistema produtivo vamos esperar para ver se vai ser criada alguma linha de ajuda. Só daqui a dois ou três meses é que podemos fazer um balanço total e definitivo de como é que vão ficar as explorações”, disse, explicando que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte “ainda ninguém disse nada” mas salientou que para já ainda é tudo muito recente.

Luís Palas defende uma mudança na forma como é gerido o território, alertando para a necessidade de incentivar quem trabalha a terra e reduzir a acumulação de mato junto às aldeias. “Tem que se começar a olhar para a área agrícola de outra forma, de dar incentivos a quem produz, a quem trabalha, e não deixarmos criar muito mato mesmo à volta da aldeia”, afirmou. O produtor considera que é necessário recuperar algumas práticas agrícolas antigas, com parcelas de produção distribuídas pelo território, para ajudar a travar a propagação dos incêndios. “Fazer um bocadinho daquela agricultura que era antigamente, que havia um bocadinho de parcelas produzir salpicadas no terreno”, defendeu, acrescentando que a prevenção “não chega” apenas com algumas medidas e que é preciso “muito mais diálogo” entre entidades e produtores.

Apesar da angústia e do sentimento de impotência que diz ter sentido o mais importante é que ninguém ficou ferido. “Eu sou uma pessoa positiva, já aconteceu, agora temos que levantar a cabeça e continuar a lutar”, concluiu.

Frederico Jacinto, foi outro produtor de vinhos cujos terrenos foram assolados pelas chamas. Apesar da empresa ser sediada em Bragança, as explorações localizam-se nos concelho de Mirandela e Vinhais. Admite que ainda não conseguiu perceber totalmente o que queimou, mas aponta para cerca de dois hectares queimados e acredita que os prejuízos são avultados.

“Ao certo ainda não sei o que é que ardeu nem o que queimou, porque ainda não tive oportunidade de lá ir, mas alguns prejuízos tenho de certeza”, disse acrescentando que foi “o trabalho de um ano inteiro” que acabou por ser reduzido a cinzas.

Ainda assim mantém-se positivo uma vez que a CVR junto com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) “já estão a tentar encontrar algumas soluções e ajudas”, adiantou.

“Os prejuízos grandes porque vou ter que recuperar as vinhas perdidas e uma delas é centenária e nunca se vai recuperar essa casta que já não há. mas vamos ver, vamos tentar arranjar uma solução para isso”, rematou.

Pessoas retiradas de casa e aldeias evacuadas

Depois de passar para Mirandela, as chamas continuaram a lavra ao longo do distrito de Bragança, até chegarem, quarta-feira, ao concelho de Vinhais, onde várias pessoas foram retiradas de casa e aldeias, como Vale de Telhas e parte de Rebordelo, Vinhais.

Foi o caso de Cidalina Gomes dos Santos, de Penha de França, em Rebordelo. É emigrante em Espanha e aproveita o mês de agosto para desfrutar de Portugal e descansar.

Aquando do incêndio, Cidalina Santos contou que foram vendo as chamas aproximar, a cinza era constante e respirar praticamente impossível. “O meu marido é asmático e tem bronquite, foi muito mau para ele. Para nós respirar era muito difícil”, contou.

Cidália Santos contou que passado uns horas a GNR lhes bateu à porta para evacuarem o local. De lágrimas nos olhos recordou as palavras do marido que não queria deixar para trás a casa que demorou uma vida a construir. “A GNR foi impecável, muito atenciosos, pediram-nos que saissemos de casa e nós não queriamos ir, mas logo nos disseram que não nos podiam obrigar, mas se as chamas se aproximassem daqui então que nos retiravam à força. Quando nos explicaram decidimos sair”, explicou.

A emigrante explicou  que foi para casa da irmã que mora no centro de Rebordelo, as restantes pessoas foram levadas para uma escola primária. Só tiveram permissão de regressar as suas casas pelas quatro da manhã, quando já existiam garantias de que a situação estava controlada.

Ainda assim, apesar de do “medo” e da “angústia” de ver as chamas e existir a possibilidade das mesmas consumirem as casas Cidalina Santos garante que se sentiu sempre em segurança. Um conforto que só foi possível graças à GNR e ao presidente da Junta de freguesia, concluiu.

Apoios do Poder Central

No que aos apoios do governo diz respeito, além do formulário enviado pela Comissão Vitivinícola Regional (CVR), o Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, visitou, esta segunda-feira, a área ardida de Valpaços, Mirandela e Vinhais.

Na região, o ministro anunciou apoios para a reposição de potencial produtivo. “Avançaremos com avisos para a reposição de potencial produtivo. Tem normas,  são apoiadas as explorações que tiveram um dano superior a 30%. Infelizmente, há um grande número de explorações que tiveram muito mais do que 30%, como o Olival, Vina e amendoal. Depois até aos 10.000 euros de prejuízo o apoio é de 100% e depois até aos 400.000 há uma redução, sendo que o mínimo de cofinanciamento é de 50%.”

Além destas medidas, José Manuel Fernandes adiantou que já pediu que “os recursos do Vitis que não foram utilizados possam ir para a vinha que teve menos de 30% da afetação. Portanto, o objetivo é apoiar o maior número possível de agricultores e de produtores. Para além disso, a Associação Industrial de Rações já se ofereceu para ajudar em relação aos alimentos para os animais. Isso é uma urgência que também já está a acontecer e esse alimento, face à inexistência de pastos, é algo que também avançamos. O ICNF também vai começar a avançar para, nas zonas mais críticas, um restabelecimento de emergência para que não haja contaminações de águas.

Vento e terreno dificultaram o combate às chamas

A rápida propagação das chamas, a continuidade da mancha florestal, a orografia do terreno e a variação do vento condicionaram o combate deste incêndio que começou em Valpaços, mas acabou por se alastrar. De acordo com o comandante regional de Emergência e Proteção Civil do Norte, Albano Teixeira, a intensidade do fogo impediu, em vários momentos, a intervenção direta dos operacionais.

“Aquilo que dificultou foi a propagação do próprio incêndio em si, a continuidade da floresta e a sua força. As forças no terreno começaram a ser mobilizadas e empenhadas naquele teatro de operações em situações muito complexas e em locais onde não era possível, para os operacionais, se colocarem na frente de fogo, derivado da violência com que ele avançava. Então foi feito aquilo designamos como a defesa perimétrica das aldeias e das habitações privilegiando, obviamente, primeiro as pessoas”, explicou.

O incêndio chegou a mobilizar mais de 900 operacionais. De acordo com Albano Teixeira, o elevado número de meios permitiu posicionar equipas junto das aldeias e de outros pontos sensíveis, enquanto outras permaneceram nas extensas frentes de fogo. Ainda assim, a estratégia teve de ser ajustada à evolução das chamas e às constantes alterações das condições no terreno.

“Essa quantidade de operacionais tem dois princípios fundamentais. Que é, primeiro definir equipas para irem sendo pré-posicionadas junto aos pontos sensíveis, aldeias e outros locais, e depois outras equipas, que eram extensas, para serem colocadas nas frentes de fogo e conseguirmos extingui-lo. O que nem sempre foi possível, por causa da variação dos ventos, embora estivesse em estratégia a variação dos ventos, mas aquilo que foi a propagação espontânea e a sua força limitou em muito aquilo que foi a estratégia implementada, porque na verdade não havia condições para o combate”, referiu.

Por se tratar de um incêndio que atingiu dois distritos, foi necessário reforçar a coordenação operacional. O responsável explica que foi criado um posto de comando principal, apoiado por duas frentes de comando, uma em cada distrito, para gerir o dispositivo e a distribuição dos meios em função das necessidades de cada frente de fogo.

Apesar de, em vários momentos, entre 70% e 80% do perímetro estar sem chama ativa, Albano Teixeira sublinha que isso não significava que o incêndio estivesse definitivamente controlado. Os reacendimentos obrigaram à manutenção de meios no terreno e a uma vigilância permanente.

“Nos grandes incêndios, depois deles estarem extintos, existe sempre a probabilidade de haver um reacendimento ou outro. E por vezes, ou na maior parte das vezes, mais importante do que o extinguir é mantê-lo extinto”, afirmou, acrescentando que é também por esses motivos que a permanência de meios parados no terrenos é muito importante. “A implementação do meios de terreno por vezes parados tem na sua essência principal aquilo que é garantir que, em caso de um reacendimento, este seja combatido de imediato. E portanto, isto, tudo isto faz parte de uma estratégia. Porque se temos 80% do perímetro já extinto, temos que o manter extinto”, frisou.

Numa primeira estimativa, o comandante regional aponta para uma área ardida entre os 13 e os 15 mil hectares. Apesar da dimensão do incêndio, considera que o facto de não se terem registado vítimas mortais representa o principal resultado da operação. “Tudo se reconstrói menos a vida”, concluiu.