Goodbye, Lagarde
Quem não se lembra dos cortes nos salários e nas pensões? Quem não se lembra da célebre frase “não sejam piegas”?
A atual presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, anunciou recentemente que vai deixar a liderança da instituição em Fevereiro de 2027, especulando-se já sobre possíveis nomes para a sua sucessão. Uma coisa é certa: a liderança vai mudar, mas as políticas não se alterarão substancialmente.
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Tal como acontece noutras matérias, existe um consenso social alargado sobre a pertinência atual do BCE e sobre as políticas que de lá emanam. Seria de esperar que as pessoas tivessem consciência que, de facto, os bancos centrais têm uma capacidade relevante no que diz respeito ao estímulo de mudanças económicas, políticas e sociais, apesar da sua legitimidade democrática no contexto europeu ser inexistente: os seus membros não são eleitos e ninguém se pronuncia sobre a sua atividade. Basta saber que, entre 2011 e 2016, o BCE lucrou quase 5 mil milhões de euros em juros da dívida pública portuguesa, tendo estes lucros sido repartidos pelos principais acionistas do banco e não pelo Estado português: os governos alemão, francês e italiano.
Desde as suas origens até ao presente, poucas são as referências positivas que temos sobre o BCE, uma instituição aparentemente independente mas que, a bem dizer, tem atuado conforme as disposições emitidas pelos países que têm ocupado um espaço hegemónico no contexto europeu. Isto significa que os países periféricos, como Portugal, em nada têm beneficiado das suas políticas. Portugal não dispõe de instrumentos de política monetária, financeira e cambial, numa clara supressão da sua soberania nacional. A obediência cega à manutenção da taxa de inflação a 2% desvia a atenção do BCE daquela que deveria ser uma das suas preocupações essenciais: garantir o pleno emprego. Mas esta nunca foi a orientação seguida por Lagarde.
O desequilíbrio estrutural que marcou o início do projeto da moeda única originou dois blocos diametralmente opostos, os países do norte, com economias mais industrializadas, e os países do sul, que saíram prejudicados por uma moeda sobrevalorizada. No entanto, as reais intenções do BCE ficaram provadas a partir da crise de 2008, erradamente apelidada de «crise das dívidas soberanas». Quem não se lembra da austeridade, tão defendida e apregoada pela imensa maioria do comentadores-especialistas? Quem não se lembra dos cortes nos salários e nas pensões? Quem não se lembra da célebre frase “não sejam piegas”? A austeridade decretada pela Santa Aliança – BCE, FMI e Comissão Europeia – encontrou, em Portugal, um dos seus fiéis executores, Passos Coelho. Não esquecemos.
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Christine Largarde herdou este BCE e não soube fazer melhor que Mario Draghi (não seria difícil, no entanto!). A sua liderança tem sido descrita como um «legado de estabilidade e diplomacia». Poderia ter sido uma liderança de mudança e de revisão das missões do BCE, do seu estatuto de intocável e da sua democratização, mas não foi. Não teve a coragem de, enfim, alterar o rumo da neoliberalização em curso da Zona Euro.
Pelos seus posicionamentos, pela sua concordância com o aprofundamento do processo de neoliberalização das instituições financeiras, em suma, pela sua governança anti-popular e pró-capital, não nos parece que «o fim» da era Lagarde vá deixar saudades. Se em Goodbye Lenine existia a nostalgia pelo passado socialista da Alemanha de Leste, «Goodbye Lagarde» será apenas um acontecimento que encontrará um lugar confortável e perpétuo no caixote do lixo da História.
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