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Padrinhos e parentelas

O anexim é claro: quem tem padrinhos não morre mouro. A importância de possuir-se padrinho ou padrinhos, os católicos cumpridores dos preceitos recebem o padrinho baptismal e o do crisma, para além dos obtidos no esfarrapar dos anos. Só os iconoclastas (dos verdes anos) não acreditam na importância dos padrinhos mesmo quando pedem, choram, suspiram abraçados às mães e pais por uma cunha, um jeito, um toque, uma mensagem, um telefonema, um empurrão, uma qualquer maneira de conseguir sentar-se à mesa do orçamento, de um qualquer orçamento, nesta cousa de empregos ou colocações todos os Santos são poucos porque a procura é imensa e os lugares e lugarinhos escasseiam e não estamos em época de manta às costas, cajado na mão, cabaça presa à cintura, realejo avisador nos beiços ou flauta de assobio. Agora assobiar (os sons ciciados serão assoviar) para o lado é especialidade de defraudadores da banca, peritos na obtenção de créditos sem garantias, astuciosos na chicana, enfim mais rápidos do que a própria sombra no saque, escorregadios que nem enguias na fuga ao cumprimento das obrigações, de falas mansas no conto do vigário evitando-lhe um qualquer entendimento futuro no prestar contas a tempo e a horas.
Perante tão crua realidade capaz de impressionar uns senhores Padrinhos de alto coturno retratados no filme de Copolla, não podemos estar impressionados ante a pluralidade da parentela socialista no governo, nós por cá nunca esquecemos os laços e raízes, daí os transmontanos serem e continuarão a ser uma invejosa e intensa parentela até porque apesar da descrença (leiam O Problema da Descrença) poucos da província dita «reino maravilhoso» não receberam o sacramento inicial. Alguns de nós conhecemos a surdez do Almirante Sarmento Rodrigues, então Governador-Geral de Moçambique, relativamente a uma solicitação do Professor Adriano Moreira a fim de ser colocado um nosso conterrâneo nos quadros da administração moçambicana. O Almirante fazia orelhas moucas até ao dia de ler o pedido do Ministro. Pedido é pedido, o jovem licenciado obteve a nomeação de imediato. 
Na obra Os Devoristas, Vasco Pulido Valente refere apelidos ainda agora chupistas da teta estatal, outros historiadores dão-nos conta das clientelas derivadas das parentelas, no entanto, importa sublinhar o facto de até à propagação das comunicações e a Internet as coligações familiares e partidárias chegarem ao nosso conhecimento muito atrasadas ou não chegarem.
O Botas de Santa Comba recrutava altos funcionários e ministros (chegaram a ser cinco no mesmo elenco governamental), colocavam seguidores aqui e ali, tinham o cuidado de não darem nas vistas, por isso mesmo fios entrelaçados de sangues estavam interditos a entrarem nos organigramas da decisão. Apesar disso, a vários níveis, os facilitadores normais recebiam fumeiro, perdizes charrelas, trutas de pinta vermelha como agradecimento das dádivas concedidas, os facilitadores anormais tinham direito a tratamento diferenciado pois um director-geral ou presidente de um Instituo eram avessos a fanfarronadas efusivas proclamadas no Chave de Ouro. O operoso facilitador Albininho de Gostei nunca referia determinadas personalidades, de outra forma blasonava outros a fim de manter a aura de conseguir o «impossível». Também existiam os facilitadores ocos, ou seja não conseguiam fungar um pedido dada a resistência do parente. O bem-disposto Capitão Ferreira sabia não valer a pena assediar o general João Pinheiro, seu genro, embora propalasse o contrário.
Os socialistas ganharam a fama (e algum proveito) de serem insaciáveis no seu apego à gamela (dixit Elisa Ferreira), os casos vindos a lume pecam pelo excesso (Grande Farra), porém manda a verdade dizer-se que nem todos enveredaram por cederem ao apetite de uns e outros, o ora deputado Jorge Gomes na qualidade de secretário de Estado resistiu a remover o Dr. Manuel Cardoso do cargo do Director Regional da Agricultura. Lembram-se?
A sucessão de revelações causa embaraços a António Costa, naturalmente, o PSD aproveita a onde ventosa enfunando as velas da caravela comandada pelo austero Rui Rio, deixa a áspera contagem dos parentes a Rangel e terceiras linhas, cautelosamente reclama contra o evidente, o antigo Presidente da Câmara do Porto espera retirar dividendos políticos em Maio, os seus adversários cofiam as barbas pensando na probabilidade de terem de as pôr de molho. Tinha graça e era bem feito!

 

A estranheza das coisas

Às vezes o que é simples causa uma estranheza medonha. Outras vezes arranja-se maneira de dar um nó ao cérebros dos incautos simplistas com palavreado caro, e, quase sempre, desnecessário.
Por exemplo, há muito tempo que não me chamo Tânia Rei. Chamo-me Tânia Reis, por mais que eu teime (doida!) que o meu apelido só tem três letrinhas, sem ‘s’ no fim. Até já tive esta conversa caricata ao telefone: ‘Estô sim? Bom dia! Estô a falar com a sô dona Tânia Reis?’. Do outro lado, respondo, enfadada (porque era uma daquelas linhas onde têm o nosso nome à frente, porque somos clientes daquela marca, e aí começamos a ponderar porquê pagar um serviço que nem consegue ter alguém que saiba ler o meu nome no contrato): ‘Bom dia. Sim, mas é só Rei, sem ‘s’. ‘Do outro lado, novamente, nada convencido: ‘Bom dia sô dona Tânia Reisss. O meu nome é fulano de tal e estou a ligar...’. Bom, claramente ele pensou ‘Aqui está uma atrasada mental que nem o nome dela sabe, coitada. É algo que me chateia, ter que explicar como me chamo, quando há por aí nomes bem mais complexos, que me esforço por dizer e escrever bem. Mas o raio do ‘s’... Lá está sempre a perseguir-me.
Ora, adiante. No mundo do descomplica e complica, dei por mim a pensar que tinha que ir tirar um curso de culinária, mas antes disso um curso de ‘o que raio diz nesta receita?’. Dei por mim a olhar para aqueles livrinhos de sugestões para a cozinha, mas sem entender o que era suposto cozinhar. Um açúcar mascavado, umas folhas de gelatina (isto é complexo, acreditem, porque algumas marcas não dizem como devemos desfazer aquilo corretamente), ou umas essências em vagem, ainda entendo. Agora, o que vem a ser couve kale, tofu firme ou biovivos, que se diz que podem ser q.b? Na horta da minha mãe sempre houve couves, mas nenhuma dessa raça. Não sei ver se é tofu, quanto mais se está firme. Continuo sem saber o que vêm a ser biovivos (até porque dá a sensação que estamos a comer algo que não devemos, não é? Está demasiado vivo). E também não sei o que são canónigos, molhos que metem ‘k’ e ‘y’ no nome ou sementes que não imagino o que poderia sair dali se fossem plantadas. Conclusão, tenho cada vez mais dificuldade em fazer receitas novas baseadas numa ia ao supermercado, porque cada vez está mais complexo saber o que necessário comprar. Sinto-me um alquimista à volta de um caldeirão, uma poderosa feiticeira que vai correr os inimigos a biovivos até ao outro lado da fronteira.
Tenho a ideia de que é possível comer bem e saudável sem ter que gastar o abecedário todo ou falar alemão misturado com grego e latim. Não sei, para mim isto são tudo mariquices modernas às quais não cedo, mais não seja porque não consigo passar da fase das instruções.
Enfim, aqui estão duas situações que me deixam enervadíssima. Acabei de escrever com os nervos esfrangalhados, só de pensar que, possivelmente ainda hoje, alguém me vai acrescentar o ‘s’ no nome ou que vou perder tempo a pesquisar comida estranha.
Por isso, aqui fica o meu sábio conselho: Não compliquem o que é simples, mesmo que pareça demasiado simples. Não empolem o complicado. Às vezes o truque está só em trocar o ardiloso por uma solução terra a terra (é o que faço na cozinha, e resulta).

 

O destino da bela Europa

Ter, 09/04/2019 - 13:50


Belíssima ao ponto de deixar siderado o deus dos deuses, senhor do Olimpo, que decidiu arrebatá-la para um dos seus paraísos privados, Europa, a figura mitológica, princesa, ninfa, quase deusa, veio a dar nome à península ocidental do grande continente que é a Eurásia.