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Marina Vaz

Farmacêutica e Secretária Nacional da Juventude Socialista

Quanto custa viver em Portugal?

O custo de vida aumenta em todo o lado, mas os rendimentos e as oportunidades não acompanham.

27 out. 2026, 06:30

Em Portugal, falar de dinheiro é um tabu. Talvez por sermos um povo reservado ou por termos vivido anos sob um regime que valorizava o silêncio, há poucas coisas mais desconfortáveis do que discutir finanças. Passamos tempo a debater celebridades ou episódios do quotidiano, mas dedicamos pouca atenção a uma questão central: quanto custa viver no nosso país?

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Fazemos contas no supermercado, ao pagar a luz e antes de abastecer o carro. E fazemos ainda mais contas quando tentamos perceber se o salário chega para o mês. No final, a resposta é simples: está cada vez mais caro viver em Portugal.

A inflação fixou-se nos 3,6%, com os preços dos bens e serviços a subirem face ao ano passado. O impacto é claro no orçamento familiar, sobretudo nos produtos energéticos, impulsionados pela subida dos combustíveis. Embora a remuneração média por trabalhador tenha subido para 1.835 euros, o crescimento real foi de apenas 1,8% — o que significa que grande parte do aumento salarial é devorada pela subida de preços.

Se estes números preocupam a nível nacional, no interior a realidade é ainda mais complexa. O custo de vida aumenta em todo o lado, mas os rendimentos e as oportunidades não acompanham.

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A desigualdade territorial é evidente nos salários. A remuneração média mensal no distrito de Bragança fixou-se nos 1.026 euros, o valor mais baixo do país e bastante distante da média nacional de 1.309 euros. Trata-se de uma diferença de 283 euros por mês, que ao fim de um ano supera os 3.000 euros. Em Vimioso, a minha terra natal, o índice de poder de compra é de apenas 63,8 (para uma média nacional de 100).

Viver no interior não significa viver barato. Sem uma rede de transportes públicos estruturada, o carro é indispensável para trabalhar, estudar, ir ao médico ou fazer compras. As deslocações para outros concelhos são frequentes e inevitáveis. Falar de custo de vida é, por isso, falar de coesão territorial.

Perante isto, as medidas governamentais têm sido ineficazes. Sugerir a redução de deslocações ou boleias partilhadas demonstra desconhecimento da realidade fora das grandes cidades. Deixar o carro em casa em Lisboa pode significar, ou seja, ir de metro. No interior, pode significar não conseguir ir trabalhar ou ao hospital. O problema não é as pessoas não saberem poupar, é não terem margem para o fazer.

A política de combustíveis e o preço do cabaz alimentar cruzam-se inevitavelmente com a necessidade de salários dignos. Nenhum benefício fiscal substitui um rendimento suficiente para abastecer o carro e sustentar a família.

Quanto custa viver em Portugal? Custa o supermercado, a energia, o combustível, mas custa também o tempo em deslocações e a falta de oportunidades locais. Falar de dinheiro não é apenas falar de números: é discutir quem consegue viver na sua terra e com que condições.

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