FUMEIRO - Para Carla Alves e Alexandrina Fernandes

O Homem via-o crescer espontaneamente, inflamado, das folhas secas, dos boqueirões vulcânicos, dos incêndios repentinos das florestas. Temiam-no, tremiam ao contemplarem os seus efeitos. Por tão ingente impressão os homens primitivos lhe prestavam culto, alargando-se tal culto pelos séculos fora a v

31 jan. 2017, 10:20

O Homem via-o crescer espontaneamente, inflamado, das folhas secas, dos boqueirões vulcânicos, dos incêndios repentinos das florestas. Temiam-no, tremiam ao contemplarem os seus efeitos. Por tão ingente impressão os homens primitivos lhe prestavam culto, alargando-se tal culto pelos séculos fora a vários povos de díspares latitudes.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Na sequência dos intempestivos incêndios, às vezes, os nossos ancestrais dos primórdios apreciavam despojos de carne de animais apanhados pelas chamas, o sápido sabor, fugaz, a desaparecer no gorgolejar seguinte. Eles não sabiam produzir o fogo.

Os investigadores acreditam terem os homens aprendido a «fazer» fogo sem saberem uns dos outros, também não é fácil estabelecer prioridades no tocante à fricção de seixos ou de dois paus, sabemos sim, ser essa descoberta a mais importante da história da humanidade.

Os anexins dizem: não há fogo sem fumo, nem há fumo sem fogo. Ora, se o fogo revolucionou a vida dos nossos longínquos antepassados, se possibilitou e possibilita os alimentos serem cozinhados, o fumo defuma as carnes conservando-as mais tempo descobriram os nossos parentes de antanho.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

De experimentação em experimentação consideraram as tripas dos animais abatidos como precioso auxiliar no derribar de dificuldades de um quotidiano sulcado delas, impermeáveis e elásticas serviam na perfeição no transporte da imprescindível água, para a confecção de utensílios, vestuário e calçado. E…para receberem produtos a defumar porque de outra forma deterioravam-se num ápice.

Sim, dos experimentos saiu a prova provada de suportarem o fumo sem risco de os conteúdos se estragarem. E, assim foi a parição do fumeiro fruto da fumagem de lenha.

Sobre as características da fumagem dispenso-me de escrever, do mesmo modo relativamente aos modos e segredos na escolha das lenhas, horas e constância do fogo, não obstante, atrevo-me a dizer que existe arte na arte da fumagem levando a que a mesma ascenda a um plano de conceder peculiar sabor aos enchidos, e não apenas prosaico método de conservação.

Nesta crónica parece-me despiciendo aludir a outros produtos passíveis de fumagem que não tenham matricialidade no porco, do estimado animal tão nosso amigo após a sua morte intencional – a matança –, embora judeus e muçulmanos o considerem indigno de ser comido, apreciado, saboreado dentro das sete cozeduras.

No Nordeste o fumeiro durante séculos só ascendia à condição de luxúria gastronómica nas casas dos ricos (ricos a sério eram muito poucos), nos restantes lares de gente abonada, remediada e pobres os salpicões e as chouriças de carne detinham o estatuto de moeda sonante, pagavam favores de toda a ordem, se sobravam vendiam-se alguns e algumas a fim de a Grande administradora – a Mãe – adquirir o indispensável na mercearia, na botica e alguma roupa e calçado. Salpicões e chouriças de carne apenas no folar, parcimoniosamente na altura das segadas, malhas e nos dias nomeados, festas e romarias.

PUBLICIDADE

Mais democráticas as alheiras. Mesmo assim imperava a conta, peso e medida, verdade, verdadinha, na generalidade dos lares nem as bocheiras, de verde e restantes estavam à mercê da ânsia de toda a família. Os azedos (de pão), o palaio, a bexiga alegravam o estômago dentro do preceituado pelo calendário.

Como expoente visível, a faculdade de o fumeiro amenizar a monotonia dos jantares (almoços) e ceias, de alegrar as merendas, de proporcionar duplo e deleitoso prazer quando se retiravam do folar rodelas de salpicão e de chouriça, comidas aos solavancos, vagarosamente levava-se ao «céu-da-boca» massa que as envolvia. Delícia das delícias.

As condições de vida mudaram, para melhor, felizmente, desde há anos as transformações sociais e económicas potenciaram a recuperação das Feiras de produtos específicos, sendo a do Fumeiro de Vinhais pioneira no que tange ao mealheiro alimentar de outras épocas.

Fala-se muito do arrebatamento quase totalmente triunfante do sector das Feiras de matérias-primas alimentares. Discute-se animadamente isto e aquilo, salvo melhor opinião valia a pena analisar-se o essencial, deixando de lado o acessório. E, o que é o essencial? Inúmeros vectores, desde os referentes à concorrência até aos da genuinidade, passando pelos da inovação, criatividade, multiplicidade turística e representações gastronómicas. Ainda, acerca das incertezas críticas.

PUBLICIDADE

Do mesmo autor

As mais lidas