Campanha da castanha em Trás-os-Montes marcada pelo calor

Produtores de Bragança antecipam uma campanha condicionada pelas temperaturas elevadas, que aceleram a maturação e dificultam a conservação da castanha. A vespa-da-galha do castanheiro continua a ser uma das principais preocupações, com perdas que podem atingir os 40 a 50% nas variedades mais afetadas.

14 out. 2026, 07:00

 A campanha da castanha em Trás-os-Montes arranca com perspetivas distintas quanto à produção, mas com preocupações comuns entre os produtores: o calor, o aumento dos custos de produção e a propagação da vespa-da-galha do castanheiro. No Parâmio e Carragosa, no concelho de Bragança, as temperaturas elevadas estão a acelerar a maturação do fruto e a obrigar os agricultores a ajustar o ritmo da apanha, numa altura em que ainda é cedo para fazer um balanço definitivo da campanha.

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Pedro Ferreira, produtor de castanha no Parâmio, estima, para já, uma quebra de produção entre 20 e 30% na variedade Aveleira, uma das mais precoces. Ainda assim, ressalva que será necessário aguardar pela entrada das variedades mais tardias para perceber a evolução da campanha. “Pelo menos esta variedade, parece-me um bocadinho menos, ao contrário do ano passado que foi um bom ano de produção”, disse.

Também Rúben Monteiro, produtor em Carragosa, reconhece que as temperaturas elevadas estão a condicionar as expetativas. Apesar de inicialmente antecipar uma produção superior à do ano passado, admite agora maiores incertezas. “A árvore apresenta mais ouriços, mas se a castanha não crescer, não vai ter tanto peso, logo perdemos quilos”, explica.

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O calor está ainda a antecipar a abertura dos ouriços e a queda da castanha, encurtando o tempo disponível para a apanha e aumentando o risco de deterioração. Segundo Rúben Monteiro, a recolha dos frutos exige agora “maior rapidez”, uma vez que as temperaturas elevadas podem provocar o aquecimento e o apodrecimento da castanha.

“Vamos ter que despachar a castanha logo no ato, senão pode apodrecer, pode aquecer”, alerta o produtor, que considera que o calor pode acabar por prejudicar tanto a qualidade como a rentabilidade da campanha.

As chuvas registadas na semana anterior trouxeram algum alívio, sobretudo para as variedades mais tardias. No Parâmio, Pedro Ferreira considera que a precipitação beneficiou parcialmente estas variedades, enquanto a Aveleira, por já se encontrar numa fase mais avançada de maturação, não terá retirado grandes vantagens. Ainda assim, a chuva atrasou ligeiramente a abertura dos ouriços, o que permitiu ganhar algum tempo.

Em Carragosa, Rúben Monteiro também reconhece os efeitos positivos da precipitação, que ajudou “a manter a castanha mais tempo dentro do ouriço, permitindo-lhe crescer e ganhar calibre”. No entanto, teme que o regresso das temperaturas elevadas volte a acelerar o processo de maturação. Quanto à qualidade, antecipa uma “castanha saborosa”, mas admite que o calibre poderá ficar aquém do desejável.

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Vespa-da-galha provoca perdas que podem chegar a metade da produção

Para além das condições meteorológicas, a vespa-da-galha do castanheiro é apontada pelos dois produtores como uma das principais ameaças à produção. A praga afeta o desenvolvimento dos rebentos e a floração, reduzindo a formação de ouriços e, consequentemente, a quantidade de castanha disponível para colher.

Pedro Ferreira estima que, numa parcela de castanheiros, as perdas provocadas pela praga “aproximam-se dos 50%”. O produtor considera que os estragos são “muito evidentes neste momento”.

Rúben Monteiro aponta igualmente para uma redução de “40 a 50%” na produção da variedade que está atualmente a colher. “Neste momento penso que é o maior problema que temos”, afirma, referindo também a presença de outras doenças do castanheiro, “como a tinta e o cancro”.

No combate à vespa-da-galha, Pedro Ferreira refere que têm sido realizadas largadas de parasitoides, embora considere que estas poderão ser insuficientes. “Os resultados não são imediatos e é necessário aguardar para avaliar a eficácia.”

Já Rúben Monteiro afirma não ter conhecimento de qualquer largada realizada este ano na sua zona, apesar de terem ocorrido intervenções em anos anteriores. Defende uma estratégia mais organizada. “É preciso se calhar haver um fio condutor precisamente para as fazer. Quando se fazem, onde se fazem, quem as faz e porquê”, defende.

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Custos de produção pressionam rentabilidade

O aumento dos custos de produção é outra das dificuldades apontadas pelos agricultores, sobretudo devido ao preço dos combustíveis e à necessidade de recorrer à mecanização para compensar a falta de mão de obra.

Pedro Ferreira explica que utiliza máquinas na apanha há cerca de 10 a 12 anos, uma solução que considera cada vez mais necessária, tendo em conta o envelhecimento da população rural e a dificuldade em encontrar trabalhadores disponíveis para a tarefa. O processo exige, contudo, a utilização de sopradores e tratores, além de despesas de combustível e manutenção. “Este ano vamos ver se o preço da castanha consegue compensar os gastos que temos durante o ano”, admite.

Rúben Monteiro aponta para um consumo de cerca de 60 litros de combustível por dia durante os trabalhos de apanha, o que representa uma despesa significativa. Por esse motivo, a recolha é feita de forma faseada, evitando deslocações diárias da maquinaria. “Com o preço do combustível não justifica apanhar todos os dias”, explica, acrescentando que “o aumento dos custos face ao ano passado torna mais difícil assegurar a rentabilidade da exploração”.

Quanto ao preço de venda, ainda não há valores definidos para a campanha atual. No ano passado, segundo Rúben Monteiro, a castanha foi comercializada a valores que oscilaram entre os 2,40 e os 2,50 euros por quilo, dependendo da qualidade e da altura da campanha em que foi vendida.

Apesar de considerar que a castanha continua a ser uma cultura rentável, o produtor alerta que a pressão das pragas e o aumento das despesas estão a reduzir progressivamente as margens dos agricultores.

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