Energia verde ou território sacrificado?
Se os cidadãos não sabem o local previsto para estas instalações, como podem avaliar e pronunciar-se?
Este artigo não pretende rejeitar as energias ditas “verde”, pretende sim questionar o modelo de desenvolvimento energético que está a ser aplicado no nosso território. Um modelo que considero profundamente desequilibrado e que coloca o Nordeste Transmontano numa posição de território sacrificado. Sacrificando as nossas serras, os nossos campos, os baldios, a agricultura, a caça, o turismo e as pessoas que aqui vivem. Um modelo com consequências permanentes para o nosso território.
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Para os mais atentos, sabemos que Portugal, tal como o resto da União Europeia, se comprometeu a atingir a neutralidade carbónica, por via da expansão de parques eólicos e de centrais fotovoltaicas como algo relevante para o combate às alterações climáticas, no entanto a realidade é mais complexa do que nos querem fazer acreditar.
É claro que é importante reduzir a dependência de combustíveis fósseis e sem dúvida que as eólicas têm um papel importante para isso e, a nossa região também deve contribuir. No entanto, para quem vive no Nordeste Transmontano é importante questionar: quem vai suportar os custos desta transição e quem é que vai realmente beneficiar dela?
Enquanto reunia informação para escrever este artigo deparei-me com uma notícia na página da Euronews com o título: “Alemanha desliga solares e eólicas: três formas de travar o problema.” O título chamou-me a atenção porque revela algo que considero essencial: o problema não é apenas produzir energia renovável, é saber planeá-la, armazená-la e integrá-la na rede elétrica, sem isso, a energia produzida é desperdiçada.
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Recentemente um estudo divulgado revelou que vários países da União Europeia estão em determinados momentos a desligar estas fontes de energia, e tudo porque não têm capacidade para absorver toda a energia produzida. Isto deveria levar o Governo Português a refletir sobre o modelo que está a aplicar, especialmente em regiões como o Nordeste Transmontano, onde continuam a surgir projetos de grande dimensão sem estratégia pública clara. Esta corrida à instalação destes novos projetos pode levar a que o nosso território se transforme apenas num espaço de produção, suportando impactos ambientais e paisagísticos, comprometendo a produção agrícola e pecuária, enquanto grande parte desta energia acabará por simplesmente não ser aproveitada.
Mogadouro, Vimioso, Miranda do Douro, Freixo de Espada à Cinta e Torre de Moncorvo são alguns dos municípios sob maior pressão para a instalação destas infraestruturas e, pelo que pude ler nas notícias divulgadas, a população não teve acesso à localização concreta das áreas propostas durante a consulta pública.
Se os cidadãos não sabem o local previsto para estas instalações, como podem avaliar e pronunciar-se? Não é só colocar um projeto em consulta pública, é necessário que quem aqui vive tenha a informação para assim se poder pronunciar.
Outra questão que coloco aqui é, de que forma a nossa região vai beneficiar? Vai gerar receitas municipais? Melhorar as redes elétricas locais? Reduzir a fatura energética das famílias? Criar empregos permanentes ou apenas temporários? E as freguesias afetadas, vão receber investimentos?
Os Movimentos Cívicos têm insistido, e eu concordo, que enquanto os benefícios económicos se concentrarem nas mãos das multinacionais energéticas, o Nordeste Transmontano não pode ser tratado apenas como espaço disponível. Mas existem alternativas: aproveitar edifícios públicos, industriais, armazéns, parques de estacionamento, investir em armazenamento, modernizar a rede elétrica, garantir participação efetiva da população, e assegurar que parte significativa do valor económico permanece no território.
Porque para além da energia, precisamos acima de tudo de pessoas, emprego, serviços públicos, agricultura, floresta e atividade económica. O nosso território não pode ser apenas tema quando estão em causa recursos naturais e oportunidades de negócio que em nada nos beneficiam. Não somos um território só de passagem ou um território de sacrifício, é necessário planeamento, controlo público, participação popular, proteção ambiental e uma distribuição justa dos benefícios.
Só assim a transição energética será verdadeiramente sustentável para o país e para quem vive no interior.











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