Vendavais - A incapacidade de meia dúzia e o desespero de milhões

Continuará ser uma eterna redundância dizer ou admitir que os portugueses são perpétuos sofredores na perseguição de objetivos que raramente atingem. Diremos o mesmo daqui a um século e os que vierem depois continuarão a dizer o mesmo. Penso que não é por burrice nossa ou desinteresse intelectual. É da própria natureza das pessoas. Somos assim.

A verdade é que quando conseguimos atingir objetivos concretos, tornamo-nos heróis e, se para os atingirmos sofremos como loucos, tanto melhor, pois o sofrimento valoriza substancialmente a vitória. É o caso do que aconteceu com a nossa seleção.

Perdemos ganhando! Claramente. Sofremos etapa após etapa, vitória após vitória, mas ultrapassámos a fase de grupos. Ganhámos e ultrapassámos essa dificuldade para chegarmos aos oitavos. Todos estavam esperançados em mais vitórias para conseguirmos chegar aos quartos. O Uruguai era uma seleção ao nosso alcance. Todos acreditaram nisso. Contudo já muitos sofriam por antecipação. Todos acreditavam que Ronaldo poderia resolver a questão. Puseram aos seus ombros um peso tão grande que quase não se conseguiu mexer em campo perante o muro defensivo do Uruguai.

A tarefa foi da seleção, mas o sofrimento foi de milhões. Portugal parou para ver o jogo. O Brasil parou com os olhos postos nos ecrãs de televisão. No Uruguai, a incerteza cruzava-se com a ansiedade e a esperança. Tudo e todos estavam em suspenso. Parecia que o mundo inteiro dependia do resultado de um só jogo. Até o governo português se mudou para a Rússia! Enquanto a Catarina Martins se insurgia contra a lei das rendas e dos despejos em Portugal, na Rússia apostava-se na vitória da seleção.

A par de tudo isto, em Portugal inteiro não se ouvia falar de política. Tudo se calou. A vitória da seleção resolveria todos os problemas certamente. A alegria colmataria os possíveis problemas que surgissem e faria esquecer todas as desavenças. Mas era necessária a vitória.

Não aconteceu. Ronaldo não resolveu, a seleção não venceu e a vitória resumiu-se ao desespero de milhões que ansiavam por ela. Não podemos dizer que sobreveio a desilusão. Não. Não tivemos sorte. A incapacidade de meia dúzia foi notável perante a eficiência de um só. Nada que não se desconfiasse.

Arredado do mundial, Portugal terá de continuar o seu caminho e agora torcer por quem julgar que merece. Mas quem? Afinal as grandes selecções foram afastadas. Alemanha, Espanha, Portugal, Argentina. Atípico, mas real. Até Madona sofreu com a derrota de Portugal. Seguiu o jogo, minuto a minuto, jogada a jogada na esperança de uma vitória do país que escolheu para viver. Desiludida, manifestou-o publicamente. Nada a fazer. Mesmo parcialmente descontente com o que ainda não conseguiu ter por cá, pelo menos tem a seu favor o facto de a Câmara Municipal de Lisboa lhe ter cedido terrenos para parqueamento das quinze viaturas que lhe pertencem, pela módica quantia de 720 euros por mês. Ou seja 2,78€ por cada viatura por dia. Barato, não? Pois também não é para qualquer um. É que estas mordomias só são para quem tem muito dinheiro!

Pois, mas voltemos à ansiedade dos portugueses. À conta do futebol, tudo passou para segundo plano. Não ouvimos falar os governantes em questões de política interna. Só futebol. A comunicação social só fala e transmite futebol. E agora que a seleção foi afastada, há que realçar o feito de ter chegado aos oitavos de final. Os heróis nacionais foram recebidos de braços abertos no aeroporto de Lisboa. Claro que sim. Mereceram mesmo perdendo. No ar ficou a mensagem de que a seleção continua a ser a melhor e que daqui a dois anos ainda temos algo a dizer. Quem dera!

No meio de toda a confusão até a greve dos professores passou ao lado. Mas só por dois dias, porque ela continua esta semana, mesmo com os serviços mínimos decretados ilegalmente pelo ministro. Ofuscado pela seleção, também ele se esqueceu das leis e começou a esgrimir decretos ilegais em vez da bandeira nacional. Coisas de quem está confuso!

Agora que o futebol ainda tem quinze dias para arregimentar algumas atenções internacionais, cá por dentro também mexe com os sentimentos de muitos e continua a ser manchete de jornais. É claro que o Sporting está na frente ao ter já novo treinador e um Conselho Diretivo a trabalhar para reintegrar jogadores que se “ausentaram”. A ver vamos! As eleições serão um desafio. Mas também aqui, um sportinguista ferrenho quer criar um novo partido político. Outro? Que desespero! Já não bastava o futebol? Francamente!

Luís Ferreira