Saber acabar

Tudo tem um começo e um fim. Sempre ouvi dizer isto. Parece-me de domínio público que nada pode durar para eternamente. Eu uso mais aquele provérbio "não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe". Apesar das palavras feitas, ajuda a encarar algumas fases da vida. Como que, de repente, percebêssemos que sabemos de antemão o desfecho de tudo - se está mau, vai melhorar; se está bom demais, nada de criar hábito.

Claro que isto não é linear. Nem poderia ser. Contudo, a realidade é que a vida é feita de ciclos, e só convém não viciar os dados. E, mesmo que estejam viciados, que mal tem afinal? É como vermos uma estória repetir-se em frente aos nossos olhos, até chegar ao desfecho espectável. É uma situação de "win-win" – tiramos uma percentagem de proveito e sabemos que vai descambar.

Tão sábio como ter a arte de começar alguma coisa, de ter o engenho para pôr as rodas nos carris a rolar, é a arte de saber puxar o travão e de tirar a locomotiva da linha. Não falo de um descarrilamento, algo acidental ou atabalhoado. Estou a referir-me a algo totalmente deliberado.

Saber fechar a porta de determinados eventos, define, em grande medida, como vai ser a nossa relação com aquele caso dali para a frente. Não se pode, inocentemente, pensar que o que fazemos ou dizemos fica sem uma resposta por parte do meio envolvente. Onde sempre estão pessoas afectas.

Ora, quando andava no oitavo ano, mais coisa menos coisa, fui pedida em namoro por um rapaz que, na altura, eu achava muito fofo. Tínhamos uma "cena" sem maldade nenhuma, o que, visto 15 anos mais tarde consegue deixar saudade - a ausência de maldade nos sentimentos. Era uma sexta-feira, e deduzo que o pedido lhe tenha demorado, pelo menos, essa semana inteira a ganhar coragem. Ou é assim que gosto do imaginar. Era final de dia de aulas, e eu disse logo que sim. Nessa altura, costumava pedir aos rapazes um tempo para pensar, mas saiu-me logo "sim". No minuto seguinte, acho que estava algo arrependida, porque tinha a ideia pré-adolescente de que tudo era para sempre - ainda não conhecia toda a sabedoria popular toda. O problema era, pois, não saber se queria aquele namoro para sempre, e abdicar dos intervalos da escola com as amigas, e estar a todo o momento com a mesma pessoa. Era desta forma que eu pensava que se processava depois de dizer "sim". Devemos ter dado um chocho para selar o compromisso, para a seguir correr para o autocarro e ir para casa. É disto que me lembro.

Lembro-me também de andar angustiada no fim-de-semana inteiro, a pensar como poderia resolver aquele namoro que me parecia precipitado. Não gosto de conflitos, discussões, gritos ou dramas. Pelo que pensei ignorá-lo, somente, como mostra do meu descontentamento. Mas, tinha sido eu a dizer "sim", caramba. Mesmo com 12 ou 13 anos, pareceu-me infantil da minha parte. Então, escolhi encher-me da mesma coragem que ele também devia ter tido, para anunciar que queria terminar. Não me lembro bem como o disse ou onde, o que é certo é que ele nunca mais me falou. Por isso, não devo ter escolhido as palavras certas ou o momento adequado. Neste caso não soube começar nem acabar. Não soube ter o bom e esperar pelo mau. Talvez tenha sido um dos casos inversos do provérbio. Enfim, às vezes lembro-me deste episódio. Força-me a aceitar que, na vida, o sentido de oportunidade pode trabalhar-se e que é importante, de verdade, saber talhar os inícios e os finais.

 

Tânia Rei