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Restaurante O Nobre

Nos idos de 1984, no fervilhar do caldeirão político, reuníamos perto do Palácio de Belém, num restaurante chamado Rimini, nessa casa de comeres avultavam figuras militares do talante de Melo Antunes e Vítor Alves, discutia-se muito, acima de tudo a necessidade de ser formado, construído, desenvolvido um projecto político alternativo ao Bloco Central, assim foi parido o PRD.
A marcha do tempo impunha-se à marcha dos militares, em 1085 realizaram-se eleições, o PRD elegeu 45 deputados, fui um deles, os trabalhos parlamentares impunham presença assídua em Lisboa e errâncias prandiais especialmente à noite.
Numa dessas incursões o meu amigo e excelente jornalista transmontano Rogério Rodrigues disse-me (e recomendou-me) a novidade de na Ajuda existir o restaurante O Nobre onde “a nossa conterrânea Justa deliciava o palato da nata da classe política a principiar no Dr. Mário Soares”. Agradeci a informação, mal tive ensejo fui «testar» as aptidões da Chefe, de tudo quanto degustei na ocasião a sopa de santola agradou-me em excesso e ascendi à condição de cliente regular. O Sr. Nobre, tal como agora, recebia-me de forma galharda e todos quantos franqueavam a porta do restaurante cujo espaço de espera dava pretexto a bebericar vinhos intranquilos e mastigações de entreténs de boca. A seguir o gritado bródio sensorial. Num desses jantares o então Ministro Mira Amaral explicou-me quais eram as virtualidades industriais do vale do Côa, explicou a cousa de modo a estalejar gargalhadas como se fossem foguetes em honra do senhor São Pedro padroeiro da aldeia dos três deputados na altura, Amândio Gomes, Armando Vara e eu, que também entendo possuir vínculos à aldeia por raízes de quatro costados. Lá possuo uma casa herdada baptizada de Casa Buíça.
O Sr. Nobre é uma pessoa duplamente Justa, por isso obrigou-se a derribar muros de dificuldades, assumir responsabilidades dos outros, nunca perdendo o sorriso amável a receber os clientes e para consolo dos gourmets a viverem e/ou a trabalharem em Lisboa renasceu nas imediações do Campo Pequeno. E, de vez em quando ali acudo a refeiçoar não me dando ao trabalho de escolher, mas prazenteiramente dado a honrar como merecem as vitualhas saídas da cozinha onde pontifica a Dona Justa. Pois é no restaurante mais transmontano da capital que a Câmara Municipal de Bragança leva a efeito o tradicional festejo do butelo acolhendo convidados de vários saberes e sabores bem como jornalistas e profissionais das agências de comunicação.
A refeição substanciosa inclui enchidos de massa e de carne, os cuscos cuja ancestralidade está no Magrebe e forma de fazer nos fogões portáteis de cerâmica usados no deserto, e o Butelo em casamento com as casulas ou cascas. A refeição permite rever amigos, ouvir as sábias e momentosas palavras do Professor Adriano Moreira, verificarmos o entusiasmo do Dr. Hernâni Dias a apontar caminhos em direcção à cidade do cunhado do Rei Afonso Henriques, enaltecendo os nossos patrimónios imateriais e materiais a romperem a teia burocrática da Entidade de Turismo mais virada para o Douro dos cruzeiros, o Porto das pontes e o Minho do vira. Causou-me prazer ouvir o óbvio – Bragança - ~e destino capital e não adjacente.
O Nordeste Informativo esteve presente através dos seus colaboradores Ernesto Rodrigues, José Mário Leite e o autor deste escrito, aproveitámos o ensejo falando de vivências, de gente da escrita, de livros, dos livros itinerantes das Bibliotecas da Fundação Gulbenkian desaparecidas há anos, hoje entendem-se noutro figurino de presença cultural, distribui amplexos, fortíssimos ao meu Amigo desde os tempos em que fomos alunos da sempre lembrada Dona Aninhas Castro, o Comandante José Manuel Chiote, troquei piadas picadas não picantes com o Ezequiel Sequeira, osculei a Alexandra Prado Coelho do Público, e a todo o tempo e a todo transe enalteci a Terra Fria, porém o Ernesto Rodrigues só sorriu e o José Mário Leite não se exasperou. E, aguardemos a próxima edição da substanciosa Festa.

Armando Fernandes