O TURNO DA NOITE

 Na casa de meu pai nunca existiu uma televisão. Hoje está fechada e por isso continua sem televisão. Das noites da minha infância recordam-se as rezas e as conversas sobre a terra que acabavam quando a avó se levantava, abria o postigo e via o tempo – uma previsão que nunca falhava. A única janela para o mundo de lá de fora era o rádio vindo de França. Ligava-se ao serão, baixinho e, por volta das onze desligava-se. Nunca entendi porque tinha de ser assim. Também não me recordo de ter perguntado se podia ser de outro modo. Anos mais tarde, quando já era eu a rodar o botão porque achava graça aos sons e, sobretudo à procura das estações de rádio, deparei-me com umas sons estranhos que cativavam pela musicalidade mas não entendia – música árabe. Anos mais tarde deduzi que, por essa hora, seria possível ouvir a Rádio Portugal Livre ou a Voz da Liberdade, essas vozes de Argel que apelavam à resistência contra a ditadura. Seria por precaução que se desligava rádio, não houvesse alguém que, vendo luz na casa, deduzisse sermos nós ouvintes de notícias subversivas. Era o tempo do medo e da escuridão.

Veio a era da palavra farta, do cântico e da afirmação. Os mais velhos continuaram fechados aos novos sons e os mais novos simplesmente não aprenderam a escutar. Escudados pelo estereótipo do “conflito geracional”, confundiram individualidade com individualismo e falta de civismo com educação livre. Redundou isto na incapacidade de educar numa cidadania responsável quando chegou a hora de formar os filhos que, ao mesmo tempo, são netos das gerações mais velhas. É a isto que se referem os psicólogos de hoje quando, de dedo em riste, acusam que mais do que crianças hiperativas, temos pais hiperpassivos.

Viver na democracia de abril será tudo menos fácil porque se cai no laxismo e se esquece do elevado custo que outros pagaram para que, se possa, inclusivamente, falar mal da democracia. No entanto, estes valores não estão garantidos e, cada vez que há uma crise, é este modo de vida que é posto em causa, quando ainda há tanto caminho a percorrer para que valores como justiça, equidade e solidariedade sejam apanágio de todo e qualquer cidadão. A crise recente já mostrou à geração de abril que direitos, liberdades e garantias dificilmente se recuperam. Também já constatou de que a um movimento de avanço corresponde um de retrocesso, obrigando o cidadão a definir-se de acordo com o lado em que se posiciona. Tem ainda de entender-se que, em tempos de prosperidade não se podem esquecer os de carência, porque nada é eterno e os sinais de ameaça à paz e à liberdade a este modo de viver são mais que muitos nos dias que correm.     

As tensões sociais e políticas, os radicalismos e fundamentalismos emergentes fazem-nos comprar o que não queremos e vender o que não desejamos, sendo o valor maior que se aliena o da liberdade. Cabe a cada um trabalhar nesta construção mediante uma participação democrática ativa para que o turno da noite não tenha de voltar e a última locução da RPL continue a fazer sentido: "Esperamos que nunca mais seja necessário haver uma rádio clandestina, para que o povo português saiba o que se passa no seu próprio país". Para que a Europa saiba o que se passa na própria Europa – diria hoje.

Raúl Gomes