Nós trasmontanos, sefarditas e marranos - Manuel Rodrigues Pereira (Chacim, 1597)

Seu pai chamou-se Bartolomeu Pereira e era natural de Chacim, filho de Duarte Pereira, cirurgião e sua mulher, Violante Rodrigues. Maria Rodrigues, a mãe, era de Mogadouro, filha de Francisco Álvares e Ana Rodrigues que, em algum tempo viveram em Sambade, terra onde nasceu e morou André Rodrigues, irmão de Maria.

Manuel Rodrigues Pereira teve dois irmãos. Um deles chamou-se Francisco Rodrigues Pereira. Casou em Vila Flor, com Leonor Lopes e ali residiu, exercendo a profissão de “mercador de buréis da serra”. O casal teve 5 filhos e todos conheceram as cadeias da inquisição.

O outro irmão de Manuel chamou-se Duarte Pereira, o Frade, de alcunha. Casou em Chacim com Violante Vaz e na terra ficaram morando. Ambos foram presos pela inquisição de Coimbra,(1) posto o que, fugiram para Castela. A fuga de Violante, depois que saiu da cadeia, ao encontro do marido que a precedeu no “salto”, constituiu um verdadeiro romance, uma história digna de um filme.(2)

Nascido em Chacim, por 1597, Manuel Rodrigues Pereira, cedo começou a comerciar aquém e além da fronteira de Castela. Tornou-se um homem muito rico, “o principal dos homens da nação” na vila de Mogadouro. Antes, porém, viveu em Madrid e ali casou com Violante de Sória,(3) que nasceu em 1593 e faleceu por 1633, deixando uma filha, chamada Maria Rodrigues, nascida em 1626 e que viria a casar com seu tio materno, António de Sória, ao início da década de 1640.(4)

Em 1635 Manuel Pereira era já casado segunda vez, com Catarina Henriques, irmã da mulher de seu irmão Duarte, estabelecendo morada em Chacim. Catarina faleceu sem deixar descendência e Manuel foi casar pela terceira vez, agora em Mogadouro, com Antónia Rodrigues. Deste casamento teve também uma filha, igualmente batizada com o nome de Maria.

A casa de morada de Manuel e Antónia era na Pracinha, uma casa muito boa, já que foi avaliada em 300 mil réis. Defronte, tinha outra casa, que valia 60 mil réis, arrendada a Domingos Lopes por 3 000 reis/ano. E ainda, “pegado à sua porta”, um palheiro, valorizado em 8 000 réis.

De resto, no termo de Mogadouro, era proprietário de uma vinha sita ao Vale do Peral e algumas terras de horta e cereal.

O seu “casal” em Chacim incluía parte de uma casa que estava arrendada a Pascoal Ramos, dois olivais, duas vinhas, terras de cereal e hortas.

Na aldeia de Valverde, possuía duas casas e uns terrenos “que tomou de uma dívida de nove mil réis” a João Martins, alfaiate.

Manuel Rodrigues Pereira era, pois, um bom proprietário agrícola, colhendo quase 500 almudes de vinho e 5 de azeite. E tinha também ovelhas e cabras.

Porém, o mais interessante, do inventário de seus bens eram “algumas acções que tinha que se não lembra e constará dos cartórios dos escrivães de Mogadouro”.

Para além de tudo isto, a maior fonte do seu rendimento provinha da cobrança de rendas, como era o caso da renda da igreja de Castelo Branco, que trazia arrematada por 119 mil réis. Tudo isto fazia dele o mais rico dos cristãos-novos de Mogadouro, “o principal dos homens da nação”.

Em 1648 a inquisição lançou uma autêntica operação de limpeza em Mogadouro. Ano e meio depois, os inquisidores de Coimbra faziam o seguinte balanço:

— Mogadouro é terra que há muito tempo arde em judaísmo e aonde o santo ofício tem presas mais de 60 pessoas e tem fugidas outras tantas ou mais, para não serem presas.(5)

Nesta operação, um dos primeiros a ser apanhado foi Manuel Rodrigues Pereira, juntamente com a sua mulher, Antónia Rodrigues, o seu irmão, Duarte Pereira, ao início do mês de março de 1649.(6)

Das denúncias que ditaram a prisão de Manuel R. Pereira, destacam-se a de um Frei Jerónimo e a de um Gaspar da Rocha, feitas perante o pároco de Sambade, comissário da inquisição, padre Azevedo da Veiga, e que são bem significativas do ambiente de espionagem que se vivia na terra. Vejam o que ele escreveu para Coimbra:

— Logo no dito dia (24.2.1649), Frei Jerónimo (…) disse que na vila de Mogadouro ouvira dizer a certas pessoas que Manuel Rodrigues, da Pracinha, cristão-novo, principal dos homens da nação, se ausentara depois que aconteceram prisões (…) Passando ele pela barca de Remondes, em 23 de fevereiro do ano presente, ouviu dizer aos barqueiros que o passaram, que no mesmo dia passara um moço com um macho descarregado que ia buscar a mulher do dito Manuel Rodrigues, ausente e ausentaram-se poucos dias antes outros homens da nação com as famílias. E logo no mesmo dia apareceu Gaspar da Rocha, filho de Gaspar da Rocha, morador em Chacim (…) disse que Manuel Rodrigues Pereira, homem da nação, morador no Mogadouro, fora à vila de Chacim e vendera um olival a Oliveros Nunes, morador na dita vila e ouviu dizer que se ia ausentar para o reino de Castela. E ele e sua mulher se ausentaram da vila de Mogadouro e ele tirara todos os seus bens de casa.

Obviamente que, depois de encarcerado em Coimbra, as denúncias choveram, nomeadamente da parte de seus familiares e amigos. Tal como ele denunciou todos os outros que estavam presos, que era a forma certa de acertarem.

Decorreu o processo com relativa normalidade e sem muita delonga, saindo penitenciado em cárcere e hábito e sequestro de bens, no auto da fé de 10.6.1650, tal como a sua mulher e o seu irmão.

Regressados a Mogadouro, Manuel Rodrigues Pereira logo tratou de contratar um grupo de passadores para o ajudarem a passar a fronteira, levando com ele a mulher, a filha, conforme contou Amaro Ferreira do Vimioso aos inquisidores de Coimbra, em 30.9.1653:

— Disse que haverá dois anos foi a Chacim, com Manuel Álvares e Francisco Álvares e Simão Fernandes, de Sendim, dizem que é cristão-novo, e em Chacim Manuel Rodrigues Pereira, cristão-novo, mercador, lhes disse se eles quisessem acompanhar a ele e sua mulher até Castela e uma filha que seria de 10 anos; e de os passarem deram-lhe 12 patacas do rosário.(7)

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães