NÓS, TRASMONTANOS, SEFARDITAS E MARRANOS - Manuel da Fonseca (n. Lebução, 1614)

Ao início da segunda metade do século de 600, assistiu-se a uma das mais temerosas ofensivas da inquisição em Trás-os-Montes, ofensiva que atingiu a generalidade das comunidades hebreias. (1) Em consequência, verificou-se uma vaga de fugas para Castela até então nunca vista. E como a Espanha e Portugal andavam então em guerra, a fronteira encontrava-se muito patrulhada e os caminhos da fuga tornavam-se muito perigosos.
Acresce que, por esse tempo, em Portugal se registou ainda um aumento extraordinário no número de comissários e familiares da inquisição, o que significa, por si só, uma vigilância muito mais apertada. (2)
Neste ambiente, ganharam importância os “passadores de judeus” e criaram-se verdadeiras “redes”, algumas apoiadas mesmo em homens da nobreza e clérigos, como aconteceu em Vimioso. (3) Porém, terá sido o corredor de Lebução a mais concorrida entre as rotas de fugas em Trás-os-Montes. E Manuel da Fonseca seria o mais famoso “passador de judeus”, atuando nessa rota, acompanhado principalmente por João Lopes Dias.
Por outro lado, neste ambiente de permanente espionagem, formavam-se autênticas “quadrilhas” de cristãos-velhos que, vigiando as fugas, saíam ao caminho dos fugitivos e, em troca do silêncio, os chantageavam extorquindo-lhe grossas maquias de dinheiro, como aconteceu com Helena Rodrigues, de Mirandela que foi “barrada” na fuga, por um grupo de 30 homens a quem ela deu 30 000 réis, conforme relatou o capitão de milícias daquela região de fronteira, Baltasar de Barros, no sumário conduzido pelo comissário da inquisição, abade de Monforte de Rio Livre, o licenciado Francisco de Miranda Henriques. (4)
O capitão não soube dizer qual foi o passador de Helena Rodrigues e menos ainda o nome dos 30 “assaltantes”, até porque as viagens se faziam sempre de noite. Mas soube dizer que em setembro p. p. Manuel da Fonseca passara um grupo de 5 rapazes do Porto ou de Lisboa. E confessou que ele próprio foi convidado a ajudar a passar um grupo de fugitivos, com promessa de ganhar 40 ou 50 mil réis. Para se fazer uma ideia deste valor, refira-se que a jeira normal de um homem era então de 100 réis.
E contou que dias atrás, Manuel da Fonseca esteve passando uma mulher para a Galiza. E estando perto da fronteira amanheceu, pelo que não puderam “dar o salto”. Foram esconder-se e passar o dia em casa do ferreiro da aldeia de Dadim, esperando a noite seguinte para atravessar a raia. O caso foi confirmado por Sebastião de Miranda, do lugar de Sanfins da Castanheira, nos seguintes termos:
- No mês de novembro fora Manuel da Fonseca de noite perdido na neve dar a um lugar da raia que se chama Dadim e que viu levava 3 cristãos-novos de Lamego, com os quais se recolheu em casa de António Fernandes, ferreiro do dito lugar, ao qual deram 12 mil réis, pelos recolher e ocultar em casa um dia e uma noite, enquanto se desfazia a neve.
Das muitas denúncias contra o nosso passador, registemos apenas mais uma, feita pelo padre Gonçalo Lopes:
- Manuel da Fonseca, de Lebução, passava muitos cristãos-novos para a Galiza e os ia buscar à cidade do Porto e os trazia a sua casa, de onde os levava para Castela e de um ano a esta parte deixou o trato de mercador para tratar de passar os ditos cristãos-novos para Castela.
Obviamente que Manuel da Fonseca foi mandado prender, sendo entregue na inquisição de Coimbra em 3.6.1662. (5) Tinha 48 anos de idade, bastante fazenda e uma vida repartida por muitos lugares de Portugal e Castela. Mas vejamos alguns dados da sua biografia.
Nascido em Lebução por 1614, foram seus pais António Salgado, mercador e Isabel de Alvarenga, ambos naturais e moradores na mesma aldeia. Fez-se mercador e, por mais de 2 anos, andou por Espanha comprando e vendendo o que lhe aparecia e esteve em Madrid, Sevilha, Jaén, Granada, Córdova… mas seriam as terras da Galiza as mais percorridas em constantes viagens de negócio.
Teria já uns 39 anos quando casou, com Leonor Nunes, filha de um famoso médico estabelecido em Chaves, o Dr. Manuel Mendes. (6) O casal não teria filhos, mas o Manuel fora nomeado curador de um cunhado que endoideceu, viúvo de sua irmã Catarina e tutor dos dois sobrinhos filhos daqueles. Haveria, pois, bastante agitação em sua casa e trabalho para uma criada de servir a quem pagava a soldada de 2 500 réis por ano.
A morada de Manuel da Fonseca situava-se junto ao Cruzeiro e, além da residência de 2 pisos, tinha anexas casas térreas que serviam de lagar e um forno. Atrás das casas tinha metade de uma cortinha e nela um pedaço de vinha e lameiro. Ao lado era a casa de sua irmã Branca da Fonseca, com outra metade da cortinha. Como a irmã morava em Lamego, onde casara, ele é que tomava conta de tudo.
Dissemos atrás que o biografado era mercador. Devemos acrescentar que ele negociava sobretudo linhos e sedas, mas também produtos tão diversos como cera, linhas de Guimarães, sedas de cavalo ou “caixas de confeitos do Porto”. E para as viagens e negócios tinha dois machos, uma mula e um jumento.
No entanto a sua casa agrícola era bem forte, com muitos lameiros, terras de centeio e vinhas que produziam uns 180 almudes. E, além dos bois e vacas que tinha em seus lameiros e utilizava na lavoura, ele tina uma dezena de bois que trazia arrendados a vários lavradores e lhe pagavam em alqueires de centeio. Esta é uma nota interessante para o estudo dos costumes e ainda hoje se diz: “andas aí a trabalhar como um boi de renda”.
Como dizia o padre Gonçalo, Manuel da Fonseca deixou de ser mercador para se tornar passador de judeus. E sendo esta uma atividade muito arriscada, facilmente se explica o verdadeiro arsenal de armas que lhe sequestraram quando o prenderam: 2 escopetas, 1 bacamarte, 2 pistolas, 2 espadas e “mais um corpo de armas, a saber: peito, espaldar e morrião”.
Contudo, não seria preso como “passador de judeus” mas por culpas de judaísmo, heresia e apostasia. E logo que se viu preso, ele começou a confessar as suas culpas e delas pedir misericórdia e perdão. Disse que foi instruído na lei de Moisés por sua mãe e denunciou quantidade de parentes e amigos. Nota de interesse: o inquisidor de Coimbra que conduziu o seu processo foi o licenciado Manuel Pimentel de Sousa, natural de Vimioso.
Terminou com uma pena relativamente leve: cárcere e hábito a arbítrio. E do seu regresso a casa, em novembro de 1664, ficou a seguinte certidão:
- Martinho Rodrigues Freitas, confirmado neste lugar de Lebução, certifico que Manuel da Fonseca e sua mulher Leonor Nunes; Lopo Nunes e sua mulher Isabel Cardosa; Branca Gomes; Antónia Henriques; Beatriz Lopes e Josefa da Costa, todos moradores em Lebução e se me apresentaram com as cartas dos senhores inquisidores de Coimbra (…) Assim mais se me apresentou uma carta que trazia Baltasar da Costa e me constou que morreu no caminho e outra que trazia Emerência da Costa, que morreu já neste lugar.
Notas:
1-Só de uma vez, em 22 de fevereiro de 1651, foram mandadas prender cerca de 120 pessoas de Mogadouro – ANTT, inq. Coimbra, Decretos de prisão, liv. 71.
2-A título de exemplo, veja-se o documento seguinte:- Certidão de presunção de fuga. Manuel do Canto, notário do santo ofício desta inquisição de Coimbra, certifico e dou fé que (…) vi o caderno das denunciações e mais papéis pertencentes aos cristãos-novos da cidade de Bragança e vila de Vinhais e seus arredores e nele (…) estão algumas cartas de Luís Figueira Bandeira, familiar do santo ofício (…) que corre com as prisões e diligências do santo oficio e delas consta que avisara a mesa desta inquisição que muitas pessoas da gente da nação das ditas terras de Lebução tinham fugido para Castela depois que nas ditas partes se começaram a fazer as prisões do santo ofício, e outras muitas andavam abaladas e vendendo apressadamente suas fazendas e se entende ser para também fugirem, com medo e receio de serem presas pelo santo ofício… - ANTT, inq. Coimbra, pº429, de Antónia Cardoso. 
3-ANDRADE e GUIMARÃES - Nas Rotas dos Marranos de Trás-os-Montes, pp. 79-165, Âncora Editora, Lisboa, 214.
4-ANTT, inq. Coimbra, pº 9935: - Disse que tivera notícia que haveria 20 dias que uma mulher da nação do lugar de Mirandela, que lhe parece se chamava Helena Rodrigues, se passara para a Galiza por esta raia, e indo na passagem de Lebução, deram com ela alguns 30 homens e que para que a deixassem passar lhe dera 30 mil réis…
5-Na mesma ocasião, foram presos uns 15 cristãos-novos de Lebução, acusados de judaísmo, constituindo esta a maior operação de limpeza da heresia judaica registada naquela aldeia.
6-O Dr. Manuel Mendes seria natural de Lebução e assim aparece registado nos livros de matrícula da universidade de Salamanca, frequentando Gramática, Artes e Medicina, entre 1618 e 1629. Foi casado com Brites Nunes, de Vinhais em primeiras núpcias e depois com Isabel Pereira.

António Júlio Andrade / Maria Fernanda Guimarães