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Falando de... Maria Browne

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Facilmente caímos no esquecimento. A efemeridade da nossa existência, a dimensão da nossa memória ostraciza-nos, para sermos recordados no dia em que nascemos e em que morremos. É este o ciclo de vida. Ontem, importantes. Hoje, uma vaga lembrança. Depois, há os que nos retiram do olvido, recordando a nossa existência, preferencialmente, no que tivemos de melhor.

Recordemos, hoje, alguém, que no seu tempo foi importante na poesia. Uma figura que a nossa vida de leitores encontrou na antologia do conhecimento literário: Maria da Felicidade do Couto Browne, filha de Manuel Martins do Couto e de Margarida Máxima Joaquim Guimarães. No Porto nasceu a 10 de Janeiro de 1797, apesar de alguns dos seus biógrafos a considerarem nascida em 1800. Aí faleceu em 1861.

Enriquecida pelo casamento com Manuel Browne, filho do cônsul de França, que muito vinho do Porto exportava, tinha uma propriedade em Gaia, na Calçada das Freiras, a Quinta da Fonte Santa, onde dava jantares e grandes festas. Passeava- -se pelo Jardim de São Lázaro e pelos Clérigos. Tinha belos cavalos, barcos de recreio no rio, tudo o que era necessário e desnecessário. Vida larga e ociosa, com viagens pelo estrangeiro.

Deve ter sido dada a esmerada educação, dando ares de conhecer francês e inglês e alguma mitologia. Cita autores ingleses, tomando uma frase de Shakespeare “Trifle, light as air” para epígrafe de um dos seus poemas e para capa do livro Soror Dolores, nome por que ficou conhecida nos meios literários portuenses, da época.

Escrevendo, desde a sua juventude, publicou poesia em jornais literários e políticos do Porto, com os pseudónimos de A Coruja Trovadora e Soror Dolores. Lembremo-nos de O Nacional, Miscelânea Poética, Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro e O Bardo.

Após o casamento, achando-se senhora de grande fortuna, amiúde abria os salões da sua casa, que se transformou, em pouco tempo, num verdadeiro cenáculo literário, onde se reuniam as mais célebres personalidades artísticas e literárias da época, como Arnaldo Gama, Ricardo Guimarães, Faustino Xavier de Novais e Camilo Castelo Branco, que lhe estimulou a vocação e motivou a quase totalidade das obras, por volta de 1840-1850 e 1851, que foram anos de grande produção literária.

Em 1855, na Revista Peninsular, tomo II, página 314, é considerada a primeira poetisa portuguesa. A utilização de pseudónimos escondia a autoria, sendo os vários exemplares editados, destinados a ofertas particulares. Numa época em que havia algum recato face à circunstância das senhoras se dedicarem à literatura, Maria Browne tinha o cuidado de escrever nas obras que oferecia “Para não passar a outra mão”; apesar desta advertência, consta que, após a sua morte, em 1861, um dos filhos tentou destruir os pouco exemplares que restaram, para evitar escândalo, para que a honra da mãe, da família, ficasse intacta. Camilo, visita assídua da casa, talvez na mira de alguma paixão, ter-se-á envolvido com Maria Browne, por volta dos anos cinquenta, do século XIX. O poeta de Seide não teria mais que vinte e cinco anos. Maria Browne cerca de cinquenta.

Camilo dedica-lhe o drama O Marquês de Torres Novas para, depois, escrever no periódico O Nacional, lindos versos plenos de paixão.

Vitorino Nemésio que, de literatura muito sabia e dos seus autores ainda mais, deliciava-nos na televisão, fazendo um apelo à memória, no programa “Se bem me lembro”, serve-nos de apoio para falarmos de Maria Browne. Relata-nos um naufrágio ocorrido em 1852, na barra do Douro com o vapor Porto. Socorreram os náufragos, um jovem portuense, Ricardo Browne, rico e desenfadado. A proeza valeu-lhe a Torre e Espada; ao pai, Manuel de Clamouse Browne que levou a sua assistência às vítimas a ponto de dar 10 contos para o fundo de uma Sociedade Humanitária, trouxe comendas e as bênçãos ao povo portuense.

A intimidade entre Camilo e Maria Browne não deixou de ser tida em conta pela família da mulher amada, resultando daí bengaladas que Ricardo Browne, filho de Maria Browne deu e levou, para além de um duelo à espada, de onde Camilo saiu ferido numa perna, que lembrará no volume terceiro de Noites de Insomnia, n.º 7, Julho de 1929, página 80, “Ridículo me vi eu dez anos depois, quando saía de um duelo com uma cutilada”.

Ricardo era um dos filhos de Maria Browne e o que mais se celebrizou no meio portuense. Mundano, gostava de música, tocando violoncelo, jogava armas, fazia charadas e versos às damas, dizia ser o primeiro a conduzir um phaéton, um dog-cart, uma charrette de nova invenção. Era um dândi, culto e viajado, que a juventude tomava como modelo de elegância.

Para além de Camilo que a inspirou, da forma que retratámos, Garrett, com quem se correspondia, também lhe dedicou algumas das suas poesias. Com uma produção limitada, dados os condicionalismos da época, publicou poesia em edições de escassa tiragem: Soror Dolores, Porto, 1849, Virações da Madrugada, Lisboa, 1854 e A Coruja Trovadora, sem data, nem local de impressão, que nunca foi posto à venda. As edições eram progressivamente ampliadas, com alterações nas suas sucessivas publicações.

Jacinto do Prado Coelho considera-a, a Florbela, do Ultra-Romantismo. Alguns temas presentes no seu trabalho retratam uma vida supostamente inconsequente, que não conseguiu disfarçar na sua produção: o amor infeliz, as flores desfolhadas, símbolo de uma juventude destruída pela vida, apesar de um casamento que lhe proporcionou um bem-estar financeiro que não lhe transmitiu felicidade. Poesia fúnebre e nocturna, onde a morte é suscitada a cada passo, tendo presente o cemitério como local de refúgio e de meditação. O macabro e o espectacular, ao gosto da época, fazem lembrar, por vezes, Soares de Passos, paradigma do seu tempo, exemplificado pelo Noivado do Sepulcro, embora o cunho erótico sobressaia, em momentos.

A natureza e as flores são temas dominantes numa poesia onde o feminino é característico, denunciando um destino a que não pode fugir, dada a sua condição de mulher. E nas palavras se vai acoitando, parecendo estabelecer uma conflitualidade com um mundo que está lá fora e com o qual se incompatibilizou. A resignação e um estoicismo forçado configuram a vivência de um sujeito poético que não é capaz de se cindir enquanto cidadã e amante carente e desiludida.

A poesia é para Maria Browne o reduto do amor, o esconderijo de uma vida que no papel, através de um pseudónimo que poucos conhecem, encontra um lenitivo para uma vida que tenta a felicidade que não encontra. Dos seus textos infere-se uma manifestação de biografismo, tão ao gosto do romântico, onde o fingimento ainda não chegara. O amor fogoso e fátuo, seguido do abandono manifestado através de versos que ultrapassam as fronteiras dos salões onde rodopiavam corações procurando a felicidade que não chegava.

Não foi sonho!... Neste mundo Também com delírio amei

E porque, provavelmente, não foi amada, confessará:

E por quem eu me perdia Era um rochedo com voz

Uma poesia assente num sujeito que não se desmistifica, sustentada num pilar que ultrapassa as fronteiras do quotidiano, apazigua-se nos meios que o poema lhe confere:

Essa vida negativa

Em que orgulhosa e cativa

A mulher entre esplendores

Se ostenta iludindo o mundo

Enquanto d’alma no fundo

Está sofrendo atrozes dores

Na confessionalidade da poesia, vai-se desvendando, desnudando, como se o leitor dos seus textos fosse, afinal, o confidente de um existir que vive no inteligível de si. Lamentando não possuir o génio de Madame de Staël ou de George Sand, porque o génio abranda o preconceito “contra o sexo infeliz”. Numa época em que o papel é o grande confessor da mágoa que o sujeito poética arrasta, nada melhor que a palavra escrita para desanuviar uma mágoa que se transporta e que dificilmente se abandona. O eu, plasmado no texto, mostra um poeta em busca do refrigério, consolo e apoio que nada, nem ninguém, concede. A vida de sociedade, vazada na poesia, onde esconde o que poucos devem conhecer porque a poesia é para “não passar de mão”, destina-se aos íntimos, não obstante ter chegado até nós numa leitura onde a individualidade e o preconceito histórico-social se compaginam.

O meu jardim acabou

Já não tenho mais que dar

Para dele me lembrar

Só uma silva ficou

Selvagem, que se criou

Para prender e rasgar

Na sua autobiografia sentimental, à maneira ultra-romântica, no Prado do Repouso dedicado a “Ninguém”, pseudónimo utilizado, por vezes, por Camilo, faz-se estátua de campo:

Funéreas lajes procuro

E vou-me nelas sentar

E com o mundo invisível

Horas e horas falar

Atingindo uma forma de paroxismo, num eu que se vai desmantelando, escreve:

Mas eu não sou estrela,

nem forma, nem flores…

Sou triste mulher

Tristeza, vida e morte, timbram nesta senhora do Porto, incapaz de vencer a angústia que a domina e o niilismo que dela se apodera. Belo retrato a servir de exemplo a Schopenhauer:

Deliro?!... que esta alma ufana

Desejo que não tem nenhum;

Entre mim, e a espécie humana,

Que pode haver de comum?...

Se ainda não pertenço à morte,

Também não pertenço à vida;

É um mistério esta sorte

Especial e mentida.

Neste momento da escrita em que abordámos o pensamento Nemesiano, acrescenta o mestre açoriano “depois de Garrett e Soares de Passos ela é o nosso melhor poeta romântico”.

Procurando na agressividade do tempo, inspiração para o seu estado de espírito, O Inverno é, também, leit-motiv para o seu poetar, como por exemplo no poema O Inverno de que transcrevemos duas quadras:

Inverno, estação da morte,

Do luto da natureza

Como em ti, em mim só reina

Agitação e tristeza

De ti as aves se afastam:

De mim os risos, e as graças!

Ventos contrários te agitam;

A mim constantes desgraças

Maria Browne, mulher do seu tempo, de estro poético, animadora, burguesa transportada a uma condição social elevada, por força do casamento, é, nos nossos dias, figura que poucos conhecem, e que os livros eternizaram, é, hoje, lembrada em páginas de jornal a mostrar aos vindouros, os que fizeram deste país, a singularidade da sua cultura, lutando contra o esquecimento, obstinadamente ouvintes de Fernando Pessoa:

Senhor, falta cumprir-se Portugal…

João Cabrita