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À boca das projecções

À boca das projecções após terem saído nas televisões escrevo sobre as eleições. Se uma Agência noticiosa me pedisse um breve comentário diria: os socialistas ganharam sem sofismas, sem maioria absoluta, sem obrigação de negociar com o Bloco de Esquerda e, se assim acontecer, Catarina averbará uma vitória de Pirro capaz de lhe trazer azia durante quatro anos e agitação nos núcleos onde assentou e alargou a sua influência. Ao contrário a CDU assegura a condição de parceiro fiável exorcizando definitivamente o labéu bolchevique concedendo-lhe respeitabilidade, ao invés António Costa ganha paz social ao anestesiar a Intersindical.

Os professores talvez recebam umas migalhas, no mais quer os socialistas, quer os comunistas vão procurar manietar os bloquistas incluindo na comunicação social onde surfam ondas calmas e aprazíveis. Talvez venhamos a assistir a novo arranjo à esquerda num compromisso muito ao gosto dos falecidos António Gramsci e Eurico Berlinguer. Nem Costa, nem Jerónimo de Sousa suportam o estilo esquerda caviar de Catarina e o tofu do fundamentalista alimentar da tribo do PAN, gente fanática e a evitar.

À hora a que escrevo não sei se os partidos trotinete conseguem lugares no Parlamento, sei, de certeza absoluta que a Senhora Cristas recebeu com juros a paga de ter feito uma oposição aos baldões do agressivo som e tom da senhora outrora a sonhar ser primeira-ministra. O CDS já foi o partido do táxi, no ora tempo das redes sociais granjeou aura de justiceira das causas perdidas, insuflando bagatelas nos debates travados contra António Costa, o seu nariz arrebitado alarmava os eleitores idosos, de boas maneiras e tementes a Deus, à ordem e tranquilidade. Não me causou surpresa o resultado obtido, valerá a pena estarmos atentos ao futuro do partido fundado entre outros por Freitas do Amaral que foi a enterrar no dia anterior ao desfecho das eleições.

Nesta altura pousam mosquitos escondidos, de ferrão aguçado, sugarem o sangue Rio, todos farão soar os bombos e as charamelas a anunciarem guerra total ao antigo autarca do Porto que foi incapaz de proceder à total desinfestação da estrutura do aparelho partidário, que deixou prosperar a inércia alimentando o Passos, o Relvas, o Montenegro e demais companheiros de rota na cata dos interesses de todas as paragens e proveniências.

O Rui Rio avesso a manteigueiros, a conúbios com a comunicação social, sendo social-democrata genuíno pagou caro a ousadia de lutar contra práticas clientelares. E o futuro? Os resultados obtidos permitem a Rio resistir e lançar a refundação num travejamento moderno, ousado e voltado para os grandes temas/problemas do nosso tempo. Tem de se libertar da ganga retórica do já visto, escolher gente honrada para o assessorar e levar em linha de conta a massa crítica existente na sua base social de votantes, gente dos trinta anos em frente, maioritariamente licenciada, atenta aos ventos que sopram do Ocidente e do Oriente, os estudos assinalam serem estas as características da dita base social.

Tudo exigirá muita energia, luta e esforço, mas já Platão dizia que as coisas mais belas eram as mais difíceis. A Maria da Fonte pode ser a inspiração.

 

Armando Fernandes