Pandemia obriga empresários a reinventarem-se para conseguir manter negócio aberto

Ter, 23/02/2021 - 15:51


Quatro empresas, duas de Mirandela e duas de Bragança, criaram novas estratégias de negócio. Uma delas surgiu em plena pandemia e outra aumentou o espaço de venda. Exemplos de resiliência numa altura de crise económica

Cruzar os braços não está nos planos de alguns empresários da região que têm lutado para que a pandemia não os derrube. Chegaram a perder clientes, a estar parados, mas esse tempo permitiu que refletissem sobre o caminho a seguir. Deram asas à imaginação e à criatividade e foram atrás do mercado. Há oito anos que a “Bago e Mel”, sedeada em Mirandela, cria bombons com produtos tradicionais transmontanos, nomeadamente, o figo, a noz, a amêndoa e até o azeite. Os seus produtos eram vendidos em cadeias de hotéis nos grandes centros urbanos mas, com a pandemia e com as restrições, deixaram de conseguir escoar os famosos bombons. Não quiseram ficar parados e eis que surge a oportunidade de vender aos clientes individualmente. Bruno Cruz e a sua parceira, autores do projecto, são mestres em Biotecnologia e Engenharia Alimentar, o que lhes permite arregaçar as mangas e experimentar coisas novas. Os chocolates deixaram de ser suficientes e decidiram criar novos produtos também. “Temos produtos para dias especiais, por exemplo para o dia dos namorados e Páscoa, e estamos a lançar outros, no ramo da pastelaria, mas tendo sempre como base o chocolate e os produtos da região”, explicou Bruno Cruz, acrescentando que brevemente as pessoas serão surpreendidas com um “chouriço de chocolate”. Fazer produtos personalizados e diferenciados é o que os faz acreditar que estão a seguir o caminho certo e que é isso que os distingue de todos os outros. Bruno Cruz disse que o segredo para o sucesso ainda lhe é desconhecido, mas defende que a estratégia está em “criar produtos diferenciados, que não existam no mercado, que surpreendam as pessoas e que podem ser oferecidos com carinho”. “De Trás-os-Montes com amor” é o slogan da “Bago e Mel” que os acompanha em todas as produções e que os fazem ser fiéis à região, criando produtos que remetam a sabores a uma imagem transmontana. “A pandemia trouxe-nos algum tempo para reflectir e criar novos produtos, com mais imaginação, mais elaborados e serviu também para aprimorar as nossas técnicas de produção”, concluiu. Para outros a pandemia foi só o impulso que precisavam para pôr em prática aquilo que estava ainda em mente. Há algum tempo que Tiago Alves, um empresário brigantino ligado ao sector da restauração, tinha o objectivo de criar uma empresa que levasse comida a casa das pessoas. Com a Covid-19 e com o confinamento foi a confirmação que precisava de que tudo iria correr bem. Assim, em Abril de 2020 surge o “Comer em Casa”, uma plataforma com mais de 20 restaurantes de Bragança, desde o fast food, à comida tradicional transmontana, e que à distância de um clique permite que em minutos lhe toquem à campainha com o almoço ou jantar. Num negócio em que se trabalha em contra relógio, o empresário defende que o mais difícil é a “prontidão, o tempo de confecção” e a “disponibilidade de alguns produtos”. Trabalhar em equipa é, à partida, o segredo para o sucesso desta plataforma. Cada vez mais os restaurantes estão a recorrer a este método para chegar aos clientes, ainda mais agora, que estão fechados e a única forma de manter o negócio com rendimento é através do take-away ou de plataformas como estas. Esta adesão tem permitido que o “Comer em Casa” disponibilize o mais variadíssimo leque de refeições. “Há clientes que podem pedir hambúrgueres, no dia seguinte já podem pedir costeletas ou bacalhau”, referiu Tiago Alves, salientando que a procura deste negócio se deve também à variedade de refeições disponíveis e ao fácil acesso. Mês após mês, o volume de encomendas superou as expectativas de Tiago Alves. “O número de vendas ultrapassou as nossas maiores expectativas. Em meses que seriam mais parados, como no Verão em que as pessoas saem muito mais para restaurantes com esplanadas, estivemos quase ao nível de Janeiro e Fevereiro que passámos”, contou. A pandemia pode ter sido o empurrão que precisava, mas o empresário acredita que quando o vírus acabar, a plataforma continuará a ter sucesso, porque encomendar comida já é um “hábito enraizado”. “Quando acabar a administração de vacinas e as pessoas se sintam tranquilas, podemos cair entre 10 a 20% nas vendas, no máximo, mas vai haver consumo igual, porque a falta de tempo não vai mudar”, afirmou. Também a concorrência neste sector está a aumentar e também já chegaram a Bragança multinacionais. No entanto, a concorrência destas empresas não está, para Tiago Alves, “ao mesmo nível”. “São metodologias diferentes e que são muitas vezes associadas a McDonald’s e Burguer King e nunca passarão muito disso”, concluiu. Ainda no ramo alimentar, uma cadeia de supermercados, em Bragança, também se expandiu. Luísa Rodrigues é proprietária dos supermercados “Frutas Frescos”, que em plena pandemia abriu um quarto espaço. Não estava previsto para já, mas surgiu a oportunidade e não a quis deixar escapar. A proximidade com os clientes, o rigor e a qualidade dos produtos são razões que ditam o sucesso deste negócio que agora, em tempo de confinamento tem sido a preferência das pessoas, uma vez que evitam ir aos hipermercados com o receio de aglomera - ções. “As pessoas vêm aqui porque não há tanta confusão. Nós somos bastante cuidadosos, quando vemos que as pessoas entram sem máscara, nós avisamos e não deixamos entrar, e se têm na posição incorrecta, nós alertamos, temos bastante cuidado”, contou. Vende produtos regionais, comprados directamente ao produtor e quando isso não é possível, como no caso da fruta, vai ela mesmo escolhê-la ao grande mercado, para garantir a qualidade. O negócio é gerido com o propósito de servir o cliente e até de o ajudar. Luísa chega a entregar comida em casa e até já ajudou pessoas que estavam em isolamento. “Na primeira fase do confinamento levámos bastantes encomendas a casa. Havia pessoas que nos ligavam a pedir para separar os produtos e depois nós levávamos a casa. E até tem acontecido pessoas que estão em isolamento e pedem para lhe irmos levar coisas”, referiu. Apesar de se tratar da venda de bens essenciais, também o negócio sentiu alguma quebra nas vendas, visto que o politécnico de Bragança está fechado e os estudantes eram os principais clientes num dos seus espaços. “Houve uma quebra acentuada, porque nós trabalhamos muito com eles e se eles não estão é lógico que se nota uma quebra”, disse. Agora, com um quarto espaço “Frutas Frescos” aberto, a preocupação de no futuro as coisas poderem falhar acentua-se, mas Luísa Rodrigues disse ser mulher de trabalho e de nunca baixar os braços. “É um negócio bastante trabalhoso e temos que ter muita atenção, muito cuidado e sermos bastantes persistentes e trabalhadores, caso contrário as coisas não vão para a frente”. Já ligado ao turismo de natureza, existe a empresa Portugal NTN, em Mirandela, que também ela se reinventou para conseguir manter o negócio activo. Está ligada a três áreas de negócio, uma delas são actividades ligadas à natureza com grandes grupos de pessoas, outra está ligada a caminhadas, produto endógenos e alojamento e uma terceira área, que está agora a ser aprofundada e que está a ter maior sucesso, está vocacionada para projectos relacionados com percursos pedestres, centros de ciclying e aplicações móveis ligados ao turismo. Com a pandemia a empresa foi obrigada a reestruturar-se internamente e decidiram que, neste momento, o que estaria a dar mais rentabilidade seria então a terceira área, ligada à consultoria, já que passaram pelo cancelamento de programas vendidos relacionados com as caminhadas e com as actividades ligadas à natureza. “O nosso foco é apenas estar a reestruturar o produto, apostar em novas formas de promoção e divulgação, apostando no marketing digital, e ter esses produtos prontos a serem vendidos quando o mercado estiver pronto para os receber e, nessa medida, focamo-nos a 100% na área da consultoria, principalmente na implementação de percursos pedestres homologados, centro de ciclying em Portugal e desenvolvimento de aplicações móveis com integração de sensores”, explicou o gerente, Domingos Pires. Em 2022, será então o ano do lançamento dos novos produtos que estão agora a ser criados. A Portugal NTN tem vindo a fazer uma gestão com o intuito de seguir os interesses dos clientes. Por isso, a vertente tecnológica está também a ser mais desenvolvida. Daí surgiu a aplicação móvel “Feel”, que está a ser trabalhada e que está a permitir criar projectos sensoriais. Outra das apostas da empresa diz respeito à produção de conteúdos, relacionada com a produção de imagens e de vídeos. “Aquilo que nos tem salvaguardado foi a aposta estratégica, que fizemos desde o início, de trabalhar em três áreas de negócio completamente distintas, porque achamos sempre que vai ser esta flexibilidade que nos vai permitir sobreviver aos altos e baixos que cada um dos altos e baixos que cada um dos segmentos vai ter”, salientou Domingos Pires, concluindo que agora é a área da consultoria que aguenta a empresa, mas daqui a uns anos poderá ser a da aventura.

Produtos vendidos online

Perante a crise económica que o país atravessa, devido à pandemia, e com muitos negócios parados, alguns municípios decidiram criar uma plataforma online para a venda de produtos regionais. O objectivo é que os produtores consigam escoar o produto, já ouve uma quebra acentuada de rendimentos, ou porque se deixaram de realizar os certames, ou porque os restaurantes estão fechados. Em Outubro de 2020, o município de Vinhais foi um dos que investiu no digital e então surgiu a plataforma “saberavinhais. pt”. Segundo a Câmara Municipal, a plataforma permite “potencializar pequenos negócios alargando o seu mercado de actuação, oferecer soluções comerciais aos participantes a custos reduzidos, possibilitar maior transparência no relacionamento entre clientes e fornecedores e reduzir custos operacionais para clientes e fornecedores”. Uma vez que este ano a Feira do Fumeiro não se pôde realizar presencialmente, este meio digital foi a alternativa encontrada para vender o famoso enchido. Em 15 dias foram realizadas mais de mil encomendas distribuídas por toda a Península Ibérica, desde os Açores, Madeira, Algarve, até Madrid, Barcelona e San Sebastian. O município decidiu ainda oferecer os portes de envio em compras superiores a 50 euros, para proporcionar um maior volume de encomendas. Miranda do Douro foi outro dos municípios a aderir a esta estratégia. “O Mercado de Sabores Mirandeses” foi lançado em Maio do ano passado e até agora a plataforma já teve mais de 51 mil visualizações de visitantes de vários países, como Estados Unidos da América, França, Brasil, Espanha e Angola. A plataforma é ainda o palco do XXII Festival dos Sabores Mirandeses, que se realiza até 28 de Fevereiro e durante este período os portes de envio, para Portugal e Espanha, são pagos pelo município. Os municípios Mogadouro e Mirandela também têm plataformas para o mesmo fim.

Jornalista: 
Ângela Pais