Do ocidente e da próxima noite da História

Ter, 09/01/2018 - 09:48


As sociedades ocidentais aparentam caminhar, cada vez mais, para becos sem saída, que as podem encerrar no desespero final a relativamente curto prazo.
Apesar de todas as ameaças, vistas e sentidas, aos valores e princípios que lhes serviram de referência nos últimos séculos, não denotam que esteja em consolidação a consciência de que só unidas no essencial poderão esperar garantias de futuro para cada uma e para um mundo onde valha a pena viver.
Pelo contrário, cresce por todo o lado o individualismo hedonista, que sustenta o retorno de um nacionalismo enraivecido, crente que haverá quem fique incólume depois do exercício miserável do salve-se quem puder. Não é a primeira vez na história dos homens que isto acontece, com efeitos devastadores para o destino da civilização.
Quando no nosso quotidiano não queremos saber do que se passa à nossa volta, fechando-nos em redomas de comodismo, pode acontecer-nos como ouvimos contar de alguns românticos, no século XIX, que se gastaram a contemplar as suas fantasias.
É chocante ver como tanta gente se despreocupa, recusa estar informada, diz desprezar a política, em vez de tentar perceber, para poder agir com sentido de responsabilidade e cidadania.
Ao mesmo tempo vai-se envolvendo em modas que pouco ou nada de novo e redentor poderão trazer para as comunidades e para o alargar dos horizontes.
Vive-se para as férias, as festas, as dietas hoje assim, amanhã assado, para a bisbilhotice e a maledicência, rebola-se no escândalo, sem sentido crítico nem a verticalidade que nos trouxe até esta condição entre as criaturas.
Assim se desequilibram relações, se abanam valores, comprometendo a convivência, esquecendo a tolerância, numa vertigem que pode conduzir-nos a radicalismos fratricidas em nome de coisas acessórias, que nos fazem perder os dias da curta vida, quando temos à espreita tragédias que nem sonhamos.
Os sistemas democráticos que construímos deveriam ter servido para promover a elevação da condição humana, em vez do charco pestífero, donde parecem emanar todas as pragas. Quando devíamos contribuir para lhe mudar a condição, preferimos embarcar na folia que faz dos sistemas democráticos o bombo da festa, confundindo a realidade com os nossos caprichos e sacudindo as responsabilidades que cabem a cada um de nós. Apesar dos exemplos que se repetem, com uma monotonia exasperante, a reclamar a coragem de mudar de rumo.
Há um século este mesmo ocidente estava exausto, na sequência de uma guerra sem razão respeitável, cujo fim, por estultícia dos nossos avós, reabriu as bocarras do inferno vinte e um anos depois.
Mil novecentos e dezoito foi também o ano de uma das maiores epidemias de que há memória e que terá eliminado mais de quarenta e cinco milhões de viventes.
Se persistirmos na loucura do imediato pode ser que nos próximos anos e nos próximos séculos se vivam horrores verdadeiros que reduzirão o fantástico dilúvio e as chamas sulfurosas de Sodoma e Gomorra a simples historietas.

Teófilo Vaz