A lhéngua mirandesa vista por um Lisboeta
“Salvar o mirandês, para quê? ”, perguntarão alguns. A resposta é simples. É a segunda língua oficial do país desde 1999
No ano passado, aqui em Lisboa, conheci uma rapariga com olhos de avelã e à medida que fui conhecendo a grande mulher que ela era, os meus olhos testemunharam algo marcante: uma frase especial, gravada na pele, escrita em mirandês. Aquele transporte de identidade no meio do asfalto da capital não é apenas um ato de amor, mas sim um manifesto de resistência de uma herança transmontana que corre no sangue e que tem lutado para continuar viva.
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Falada aproximadamente por três mil pessoas, a língua mirandesa nascida no útero do Reino de Leão no século X, moldada e isolada no planalto transmontano, além de ser uma língua românica de raiz asturo-leonesa, foi passada como um sussurro de geração em geração e que resistiu a séculos de esquecimento e de influências da língua portuguesa e do castelhano. Hoje tem enfrentado uma dura realidade: o perigo de extinção.
Muitos têm sido os esforços da população e das entidades locais e regionais na proteção e promoção deste património. É de louvar a força e o trabalho de todos que não escondem a sua identidade e que mostram que o interior é também Portugal. A recente celebração dos 481 anos de Miranda do Douro como cidade, as Danças Rituais dos Pauliteiros - que têm os olhos postos na UNESCO - classificadas pelo Património Cultural I.P. a 7 de abril de 2025 como Património Cultural Imaterial, a resistência da língua mirandesa ao seu desaparecimento através do ensino nas escolas e da sinalética bilingue que acolhe quem chega à região, são exemplos da vida, da cultura e das tradições que pulsam no nosso país.
Todavia, está a faltar algo que considero que tem sido um obstáculo: nós, a população - na qual eu me incluo - concentrada nas grandes cidades, longe do interior e que não tem uma ligação identitária com esta língua e com a região, o que nos leva a esquecer ou desvalorizar o que o interior tem de valor para o nosso país.
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Como portugueses, nós conhecemos aquela sensação arrepiante de orgulho quando hasteamos a bandeira de Portugal, vestimos a camisola da seleção ou cantamos, por exemplo, em alto som, “A Minha Casinha” dos Xutos e Pontapés. É um sentimento que nos corre nas veias. No entanto, como país não sabemos ou não queremos reconhecer esse mesmo sentimento traduzido numa língua que luta pela sobrevivência diária numa região do interior de Portugal.
Existe a realidade de termos um país com problemas demográficos desde população envelhecida, forte concentração da população nas grandes cidades, principalmente no litoral, a par de um fluxo migratório crescente. Além disso, a adopção na agenda cultural e educacional do país a “Lusofonia”, um conceito que referi num artigo de opinião a propósito dos 30 anos da CPLP, o que tem deixado na sombra identidades e tradições locais e regionais já existentes. Em Espanha, apesar das tensões regionalistas, os nuestros hermanos compreendem e convivem com uma diversidade cultural regional que une o país culturalmente num todo e isso combate a banalização dos territórios. Aqui, continuamos a agir como se Portugal fosse só Lisboa, Porto e Algarve.
“Salvar o mirandês, para quê? ”, perguntarão alguns. A resposta é simples. É a segunda língua oficial do país desde 1999 (através da Lei n.º 7/99) e é um património que não podemos deixar desaparecer na erosão do território. Aquando das tragédias de Pedrógão Grande e de Leiria, nós como povo ajudámos, demos iniciativa, investimos numa causa. Porque é que não podemos fazer o mesmo no contexto cultural, nomeadamente no interior onde culturas e tradições como o mirandês lutam ano após ano para não desaparecerem?
Uma língua só morre quando fechamos os nossos ouvidos a quem a fala. É por isso que, sejamos de Lisboa, do Algarve, de cidades como Porto, Setúbal, Évora, Coimbra, Aveiro, entre outras, o distanciamento geográfico não pode significar desconhecimento ou indiferença cultural.
O trabalho da Associação da Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e o compromisso assumido pelo Estado em 2025 com a Estrutura de Missão para a Promoção da Língua Mirandesa (EMPLM) têm sido essenciais. Contudo, são as pessoas que sentem o mirandês e que têm carregado a língua e a identidade mirandesa, as verdadeiras responsáveis por eu estar aqui neste preciso momento a dar o merecido reconhecimento a um tema que merece ser debatido. São elas, e a rapariga que conheci aqui em Lisboa, as guardiãs que recusam deixar morrer a sua herança e que têm dado voz àquela região.
Não é só no dia 17 de setembro - Dia da Língua Mirandesa - que nos devemos lembrar deste património. A língua mirandesa precisa de ser vivida e protegida todos os dias. Cabe a mim e a todos nós, venhamos de onde viermos, promover, proteger e investir nestes símbolos culturais que definem a nossa nação. Só assim tornamos Portugal num país culturalmente rico, plural e inteiro.










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