Talhar o bicho e benzer o coxo

Ter, 05/02/2019 - 10:23


Olá gente boa e amiga. Então como vai a moenga?

Eu cá vou e para não fugir à regra, como dizem os lombardeses, “já apanhei chumbo”. A gripe também se meteu comigo. Por acaso sabem quantos anos são precisos para fazer um dia? São quatro! Pois então, só falta um, porque o próximo Fevereiro terá 29 dias…

Estamos no segundo mês do ano e, como diz o povo, “o Fevereiro coxo em seus dias vinte e oito” ou “Fevereiro, o mais curto mês e o menos cortês”. O povo também diz que “quando a Senhora das Candeias (2 de Fevereiro) chorar, o Inverno está a passar. Quando a Senhora das Candeias rir, o Inverno está para vir”. Ou ainda “Dia de São Brás (3 de Fevereiro) a cegonha verás. Se não a vires o Inverno vem atrás”.

Depois das intempéries e da depressão Helena, os homens do tempo prevêem os próximos dias sem chuva e com temperaturas próprias desta época.

Por isso andam muito atarefadas as nossas tiazinhas a enchouriçar, pois estão a fazer o fumeiro para consumo próprio e, nalguns casos, para a venda nas várias feiras que aí vêm.

Na semana passada ficámos muito tristes ao recebermos a notícia da morte da neta do tio António Alemão, de Mogadouro, que tinha 21 anos de idade e estudava na universidade de Coimbra. Foi encontrada sem vida no seu apartamento. Neste momento de imensa dor para a família, todos nós lhe transmitimos o nosso apoio e um ombro amigo. Nunca ninguém pode dizer que está bem… Deus também chamou a mãe da tia Denérida, de São Julião, aos 97 anos de idade. Que em paz descansem as suas almas e os nossos sentimentos para as famílias enlutadas.

Nos últimos dias festejaram a vida connosco o Carlos Domingues (57), de Caçarelhos (Vimioso); a Ana Corina (33) e a Cândida (67), ambas de Grijó (Bragança); o João Marques (51), de Paradinha Nova (Bragança); a Ana Rita (29), de Bragança; a Cândida Afonso (98), de Viduedo (Bragança); o Pedro (68), de Vila Chã da Braciosa (Miranda do Douro); o Tiago Fidalgo (33), de Paradinha de Outeiro (Bragança) e o António Manuel Cavaleiro (55), de Outeiro (Bragança). Muitos parabéns a todos, com muita saúde.

Neste número vamos falar de algumas das rezas para talhar o bicho, cortar a ciática e benzer o coxo.

 

Sempre me lembro, desde criança, de pes-soas que apanhavam coxo e que recorriam a quem sabia cu­rar o dito cujo. Por isso me lembrei de falar do assunto no programa de rádio e logo muitas tias nos brindaram com rezas que sabiam.

Quem é especialista a talhar o bicho é a nossa tia Gracinha, a minhota transmontana, que nos disse que quem a ela já recorreu nunca ficou por cu­rar. Transcrevemos a seguir algumas dessas rezas:

Eu te talho bicho bichão,

aranha aranhão, sapo sapão, cobra cobrão, bicho

de toda a nação.

Eu te corto a cabeça e o rabo todo até ao coração,

seco sejas tu como um carvão.

Rezar 9 vezes seguidas, por três dias, com a faca de cortar pão na mão e a benzer com ela em forma de cruz sobre a zona afectada.

Deve-se rezar antes do pôr do sol, à tardinha. Fazem-se três montes com nove carvões cada monte e em seguida o sinal da cruz, e a seguinte reza:

Cobra, cobrão

Sapo, sapão

Todo o bicho da nação

(Passar por cima da parte enferma, com carvão, sempre em cruz)

Que anda de rasto pelo chão,

Para que não cresças

E nem avessas,

Mas antes obedeças

Que venhas a bom humor

Eu te corto, corvo,

Cabeça e rabo

E corpo todo!

Quando S. Bento era estudante,

nenhum bicho ia para diante,

Na mesma escola andava S. Brás,

Aqui te seques, aqui te mirrarás.”

(Deitando o carvão ao lume).

 

Quando apareciam muitas borbulhas (Bicho) fazia-se a seguinte reza:

“Faca que cortas o pão

Corta este Tubarão

Corto-te a cabeça

Corto-te o rabo

Com este navalhão

Sapo, sapão

Cobra, cobrão

Aranha, ranhão

Corto-te a cabeça

Corto-te o rabo

Com este navalhão

Com o poder de Deus e da Virgem Maria, um Pai Nosso e uma Ave-Maria”

À medida que se rezava iam-se fazendo cruzes em cima das borbulhas com uma faca.

Diz-se nove vezes.

 

Reza de cortar a ciática, que é uma dor localizada no nervo mais grosso do nosso organismo:

(Fazer o sinal da cruz, acendendo uma vela e pegando depois numa faca de aço).

Jesus, Santo Nome de Jesus.

Credo em cruz. (3 vezes)

Ciática corto, ciática atalho.

Assim como este mal não come, nem roía, nem comia, no corpo de (o nome da pessoa em causa), assim como vem o bem e o amor.

Pelas cinco chagas de Deus Nosso Senhor. Ámen.

(Pai Nosso, Ave Maria e Salve Rainha).

À medida que se reza vai-se fazendo cruzes com a faca.

Tia Celeste (Serapicos – Valpaços)

 

Note-se que não basta que qualquer pessoa aprenda estas orações e simplesmente as diga. Para terem efeito é preciso que sejam ditas com fé e devoção.