Parábola da política e do rebanho

É comodo ser do rebanho. Os pássaros que cantem e façam os ninhos nos ramos altaneiros e contemplem as paisagens mais deslumbrantes. O verde dos campos que seja verde. Os peixes em cardume que descubram os segredos da profundidade do rio, ou fiquem, somente, ao sol nos remansos tranquilos. As rosas, essas que se cansem, todos os anos, de ser rosa e rosas e perfume. É cómodo ser do rebanho, sendo levado para os prados cheios de flores e à tarde ir beber água fresca no leito do ribeiro que canta há milhares de anos. Nem um desgosto! O pastor será o caminho seguro, o pensamento. A ameaça do lobo unirá o rebanho e assim estará tudo bem, justo e perfeito! E até os cães do gado que podiam morder, ladrar, se calam para que a côdea do pão duro não falte no bornal sebento do pastor. Claro que no final do verão o rebanho terá que sofrer as grandes secas, os prados cinzentos de terra dura, comida pouca, mas o pastor lá estará para manter o gado unido. Ele sabe que algumas ovelhas irão morrer de fome, de sede e de doenças. Mas só é preciso esperar e logo surge a promessa de prado verde e água fresca. Não se sabe quando será, mas o rebanho adormecido cala-se, deixa de balir, morre e o pastor já nem se importa.

— Que rebanho é este… até tem medo de morrer!… Diz o pastor. Na verdade poucas ovelhas chegarão à próxima primavera, mas que se há de fazer?! Nada, não se faz nada, o melhor é ficar no rebanho sem a maçada de dizer não, sem o incómodo do pensamento, sem a estranheza apocalíptica da ovelha morder o pescoço do cão. Ficar balindo, balindo e não fazer nada!

O pastor é que gosta de um rebanho assim, amigo do seu pastor, manso, com medo do lobo! É cómodo ser do rebanho!

Mas um dia, há milhares de anos, um sapiens sapiens assustou-se com a novidade do pensamento e a maldição começou. Perdemos o rebanho, ganhamos a revolução, perdemos o paraíso, ganhamos a humanidade e agora já podemos ignorar o rebanho. Conquistamos o dom da divindade, inventamos a filosofia e todos os dias acordamos na intranquilidade do pensamento. Platão anda por perto e cedo abandonou o rebanho e ao pastor e disse não: “O preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior.”

Vem esta deslavada prosa a propósito da recente demissão do presidente da concelhia do PS de Bragança, André Novo. Conheço este jovem há muitos anos. Foi meu aluno. Pensa bem e muito. Na intranquilidade do pensamento descobriu que este não era o caminho para a política bragançana. E porque pensa, aprendeu a dizer não e corajosamente disse um incómodo não à inoperância e à aparente tranquilidade em que vive uma região que morre paulatinamente. André Novo não quer nada da política. Doutorou-se muito cedo, também para servir a política. “Apresentei este pedido de demissão por discordar das opções políticas e só políticas do Presidente da Federação do PS de Bragança, Jorge Gomes.” Diz André Novo. Com esta demissão perde o partido socialista que não soube aproveitar um grande quadro. Também o presidente da distrital do PS, Jorge Gomes sai fragilizado. Não sei se tem fracos conselheiros, ou não valoriza os melhores. Na lonjura de Lisboa, Bragança fica distante. Lisboa seduz. Mas o deputado tem que ser o representante de todos os cidadãos que o elegeram, sem fações, nem sensibilidades. Bragança tem uma longa tradição de dizer não e valorizar os seus e já o primeiro deputado bragançano às Cortes constituintes de 1821, o abade de Medrões, padre Inocêncio António de Miranda, dizia não ao absolutismo, enquanto D. João VI, em plena invasão francesa resolve ir a banhos para o Brasil abandonando o país à sua sorte. O padre Inocêncio nasceu em Paçó de Rio Frio em 1761, frequentou o seminário de Bragança e licenciou-se em Salamanca. Um grande liberal, padre e maçon, daqueles transmontanos que antes preferem quebrar do que torcer. Polemista temido, foi ouvido e respeitado nas Cortes, sendo um dos principais obreiros na elaboração da constituição de 1822. A tradição vai-se manter, a juventude bragançana é promissora. O grande partido socialista, sem dúvida, vai continuar a fazer o seu caminho pois “é na queda que o rio ganha mais força”.

Fernando Calado