… e os crisântemos pendiam já murchos

No meu 4º Ano de Liceu, hoje oitavo, houve um incidente académico que nunca mais esqueci. À disciplina de Português tínhamos de Professora uma rapariga nova, acabadinha de sair da Faculdade. Isso não obstava a que as aulas decorressem segundo a ortodoxia então exigida. Eis então que chega o 1º exercício (hoje teste). O exercício constava de um texto, perguntas de interpretação sobre o texto, perguntas gramaticais e acabava com a inevitável redacção (hoje composição). Até aqui, tudo bem, o exercício tinha um figurino já conhecido, aliás igual a outros já realizados. Só que o tema da redacção era, nem mais nem menos,  “…e os crisântemos pendiam já murchos.” Foi um soco no estômago. Ficámos a olhar uns para os outros sem saber se aquilo era a sério ou a brincar pois ninguém fazia a mínima ideia do significado daquela expressão. À saída frenéticos falámos mais (mal) da professora que do tema pois deste não sabíamos dizer nada excepto talvez retorquir “ e que tenho eu a ver com isso”. Aos mais velhos, aos pais, aos outros professores e a “tutti quanti” queixámo-nos da complexidade do tema e o seu desajustamento face à idade dos alunos (aquilo que em pedagogia se chama hipertrófico) mas sempre perguntando o seu significado. Lá nos foram dizendo que, antigamente, quando tudo tinha uma época, as únicas flores disponíveis para embelezar as campas do cemitério pelo dia dos Fieis Defuntos eram os crisântemos. E se estavam murchos era porque tinham envelhecido. Bom. Ao longo de todos estes anos mantive sempre uma dúvida: ou a professora cometeu um erro crasso de avaliação da nossa literacia, que seria bastante inferior aquela que ela supunha, ou então a professora acabadinha de formar, cheia de gás e de Piaget aplicou a velha máxima dos Construtivistas “o aluno cria o seu próprio conhecimento”. A ser verdade a segunda suposição, ao fim de todos estes anos humildemente tiro o chapéu a essa professora pois deu um verdadeiro “tiro na mouche”. Ninguém faz ideia do entusiasmo que o tema suscitou e nem da paixão com que o discutimos. Se na semana seguinte tivéssemos de fazer uma redacção sobre o mesmo tema, claro que umas redacções seriam boas, outras más e outras assim assim mas todas abordariam o tema no seu essencial. Os alunos tinham criado mesmo o seu próprio conhecimento.(se fosse hoje as reclamações deviam ser mais que muitas pois não estava definido nos objectivos)
Hoje, apesar da oferta floral, os crisântemos continuam ligados ao dia dos Fieis portanto aos mortos. Não à morte. Celebramos os mortos, vivendo. Se os crisântemos murcharam é porque envelheceram, não foram substituídos porque houve esquecimento, desinteresse ou acabou a paixão. O tempo tinha acabado de trazer a dor para o campo do suportável. No fundo deixou de ser uma preocupação.
Vem isto a propósito da deslocalização do placar obituário que se encontrava na parede poente da Igreja da Sé e passou para o telheiro que abriga a porta de acesso à sacristia. Em teoria nem estaria mal pois está abrigado da chuva, do vento do sol mas os dois degraus de acesso são fatais. A maior parte dos utentes dessa informação são pessoas velhas e para muitas dessas os degraus são uma contrariedade a evitar( e logo agora que tanto se fala em mobilidade). Ainda outro dia estava a ver os óbitos quando uma mulher já velha, com um pé no primeiro degrau e agarrada à coluna, se me dirigiu assim:” Oh senhor! Diga-me lá quem é que morreu hoje que a mim custa-me muito ir aí.” Disse-lhe um nome que li em voz alta. Ela continuou. “Em que Igreja está?” Disse-lhe que era em Carragosa. “Não! Esse não! Dos de cá” explodiu a mulher. Esta mulher enquadra-se no perfil-tipo da grande maioria dos utentes daquele painel informativo. Querem saber dos seus mortos para os chorar, para os venerar, para rezar por eles. E fazem-no de forma quase compulsiva, com espirito de missão como se fosse, e é, uma prova de vida. A essas “curadoras” do nosso cemitério, elas mesmas uns autênticos crisântemos sociais, não lhe dificultemos esses derradeiros actos cívicos. 
Eu sei que esta questão parece insignificante. Mas a vida é feita de pequenos nadas.

Manuel Vaz Pires