Butiêlo em Lisboa

Através da sucessão das épocas o butiêlo largou a farpela rural de estômago do porco ou porca, recheado de ossos esburgados e o rabo cortado em miúdos do animal destinado aos rapazes brincalhões em época entrudeira para envergar a roupagem de enchido de untar a barbela servido nas mesas bem atoalhad

26 fev. 2019, 10:22

Através da sucessão das épocas o butiêlo largou a farpela rural de estômago do porco ou porca, recheado de ossos esburgados e o rabo cortado em miúdos do animal destinado aos rapazes brincalhões em época entrudeira para envergar a roupagem de enchido de untar a barbela servido nas mesas bem atoalhadas na quadra carnavalesca.

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O butiêlo ganhou roupa nova e etiquetas certificadoras, mudou de nome – botelo e)ou botelo – largou os vestígios de comer faceto logo engraçado, muito desprovido de carniça substanciosa, passando a conter ossos gulosos de assuã, menos pimento queimão, citadino em prejuízo da rusticidade que principiava na periferia do concelho de Vinhais, percorria a parte nordeste do de Bragança (principalmente a Lombada) e penetrava em Castela e Leão até às alturas de Burgos. Não interessa reclamar paternidade geográfica pois tudo indica existir simultaneidade.

Entre o butiêlo e o butelo havia (há) diferenças locais na preparação das marinadas, o ardor ultramarino (pimento queimão acima referido) vem do lado de lá, a génese é a mesma, onde há tripas há enchidos, nada se podia perder, tudo se aproveitava. O butelo com casulas (repare-se no simbólico – casulas – pois após a cozedura ficam sedosas tal qual as vestes religiosas, o termo cascas deve ser trazido à ponta da língua quando as vagens secas dos feijões são objecto de cozedura encruada de veios salientes e duros.

O butiêlo ganhou carta de alforria mercê do empenho entusiasmado da Câmara Municipal de Bragança, por isso mesmo todos os anos na época própria a Autarquia Bragançana promove um jantar dedicado ao butelo com casulas no conceituado restaurante da Dona Justa e do Senhor Nobre. O ágape inicia-se degustando abraços, palmadas interrogativas, respostas exclamativas, provas de variados enchidos e outros mimos tem-te-em pé, saborosos, centrados no porco, caso dos rojões miúdos também portadores de vários nomes de baptismo, por exemplo rojões do redenho ou do balho. Boas as empadinhas de caça.

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Este ano não houve entorses ao cânone, o Dr. Hernâni Dias na qualidade de anfitrião da urbe bragançana recebeu galhardamente os convidados, cada um reviu amigos e conhecidos, numa mistura de sorrisos e lembranças onde a verve e boa disposição do Comandante Chiote alegraram os circunstantes, enquanto o Ezequiel Sequeira distribuiu graças e consolos sem incorrer no «Entrudo passa tudo», antes pelo contrário, muito grato lhe fiquei no decorrer da apreciação dos pratos quentes que também incluíram um fumado de presunto e salpicão, uma sobremesa de abóbora com chocolate branco e gelado de vinho do Porto.

A destreza da dona Justa obrigou a consistente cadência na colocação das pitanças sobre a mesa, a conversa com Grão-Mestre da Confraria do Butelo ficou a meio, intervaladamente, levantei o pendão da Terra Fria junto do escritor Ernesto Rodrigues, o qual aceita de bom grado o meu humorado localismo, na altura certa a Dona Justa disse do seu gosto em coordenar o repasto e o Dr. Hernâni Dias pronunciou palavras bem polidas, bem aparelhadas e bem colocadas referindo-se ao muro Braganção, não de lamentações, sim de crença na progressiva afirmação de Bragança como cidade onde vale a pena viver e os da Diáspora têm sempre grato acolhimento e um sem numero de patrimónios matérias e imateriais para reviverem. Não tardará muito e os nove museus existentes acolherão o Museu da língua Portuguesa.

Uma bonita fadista do Romeu (Terra Quente) deu a conhecer trechos do seu próximo álbum, Gotas de Sangue. Chama-se Teresa Carvalho. Os senhores deputados primaram pela ausência. Presumo que sejam benfiquistas! Eu sou.

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