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Butiêlo em Lisboa

Através da sucessão das épocas o butiêlo largou a farpela rural de estômago do porco ou porca, recheado de ossos esburgados e o rabo cortado em miúdos do animal destinado aos rapazes brincalhões em época entrudeira para envergar a roupagem de enchido de untar a barbela servido nas mesas bem atoalhadas na quadra carnavalesca.

O butiêlo ganhou roupa nova e etiquetas certificadoras, mudou de nome – botelo e)ou botelo – largou os vestígios de comer faceto logo engraçado, muito desprovido de carniça substanciosa, passando a conter ossos gulosos de assuã, menos pimento queimão, citadino em prejuízo da rusticidade que principiava na periferia do concelho de Vinhais, percorria a parte nordeste do de Bragança (principalmente a Lombada) e penetrava em Castela e Leão até às alturas de Burgos. Não interessa reclamar paternidade geográfica pois tudo indica existir simultaneidade.

Entre o butiêlo e o butelo havia (há) diferenças locais na preparação das marinadas, o ardor ultramarino (pimento queimão acima referido) vem do lado de lá, a génese é a mesma, onde há tripas há enchidos, nada se podia perder, tudo se aproveitava. O butelo com casulas (repare-se no simbólico – casulas – pois após a cozedura ficam sedosas tal qual as vestes religiosas, o termo cascas deve ser trazido à ponta da língua quando as vagens secas dos feijões são objecto de cozedura encruada de veios salientes e duros.

O butiêlo ganhou carta de alforria mercê do empenho entusiasmado da Câmara Municipal de Bragança, por isso mesmo todos os anos na época própria a Autarquia Bragançana promove um jantar dedicado ao butelo com casulas no conceituado restaurante da Dona Justa e do Senhor Nobre. O ágape inicia-se degustando abraços, palmadas interrogativas, respostas exclamativas, provas de variados enchidos e outros mimos tem-te-em pé, saborosos, centrados no porco, caso dos rojões miúdos também portadores de vários nomes de baptismo, por exemplo rojões do redenho ou do balho. Boas as empadinhas de caça.

Este ano não houve entorses ao cânone, o Dr. Hernâni Dias na qualidade de anfitrião da urbe bragançana recebeu galhardamente os convidados, cada um reviu amigos e conhecidos, numa mistura de sorrisos e lembranças onde a verve e boa disposição do Comandante Chiote alegraram os circunstantes, enquanto o Ezequiel Sequeira distribuiu graças e consolos sem incorrer no «Entrudo passa tudo», antes pelo contrário, muito grato lhe fiquei no decorrer da apreciação dos pratos quentes que também incluíram um fumado de presunto e salpicão, uma sobremesa de abóbora com chocolate branco e gelado de vinho do Porto.

A destreza da dona Justa obrigou a consistente cadência na colocação das pitanças sobre a mesa, a conversa com Grão-Mestre da Confraria do Butelo ficou a meio, intervaladamente, levantei o pendão da Terra Fria junto do escritor Ernesto Rodrigues, o qual aceita de bom grado o meu humorado localismo, na altura certa a Dona Justa disse do seu gosto em coordenar o repasto e o Dr. Hernâni Dias pronunciou palavras bem polidas, bem aparelhadas e bem colocadas referindo-se ao muro Braganção, não de lamentações, sim de crença na progressiva afirmação de Bragança como cidade onde vale a pena viver e os da Diáspora têm sempre grato acolhimento e um sem numero de patrimónios matérias e imateriais para reviverem. Não tardará muito e os nove museus existentes acolherão o Museu da língua Portuguesa.

Uma bonita fadista do Romeu (Terra Quente) deu a conhecer trechos do seu próximo álbum, Gotas de Sangue. Chama-se Teresa Carvalho. Os senhores deputados primaram pela ausência. Presumo que sejam benfiquistas! Eu sou.

Armando Fernandes