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Que prioridades para a humanidade?- Parte II

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A natureza traz-nos surpresas, também a atividade humana tem a incerteza como elemento indissociável. Edgar Morin refere “tentamos cercar-nos com o máximo de certezas, mas viver é navegar num mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos”. No século XXI, a fome, as epidemias e a guerra continuarão a ser preocupações da humanidade, apesar dos progressos feitos no século XX, no campo da ciência, da tecnologia, do crescimento económico, da cooperação global entre estados, assim como do reforço das democracias e Estados de direito que abriram novos horizontes e reduzindo muito o sofrimento humano.

A questão é de se perceber se estas prioridades continuarão a ocupar o topo da agenda da humanidade ou se serão substituídas por outras e quais. Os sucessos da humanidade sempre a conduziram na procura de objetivos mais ousados, grupos de inovadores estão com os olhos no futuro, focados em várias áreas e prioridades. Um grupo significativo está focado em três novas prioridades da humanidade: a luta contra o envelhecimento, a procura de felicidade coletiva, a conquista de poder ilimitado, agenda que pensam poder dar expressão ao sonho humanista liberal, baseado nos pressupostos do mercado livre, nas eleições democráticas, na crença de que cada ser humano é único e irrepetível e que as suas escolhas livres são a última fonte de autoridade.

Sendo a mudança uma constante na história da humanidade, é possível que as mudanças para a concretização dessas prioridades, venha a atacar os alicerces do humanismo, ao criar potentes novas tecnologias, pós humanistas, com base na evolução da eng.ª genética e da inteligência artificial, com alterações radicais na organização das sociedades e no próprio ser humano.

Ao contrário de séculos passados, a cultura contemporânea consagra a vida como valor supremo. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU 1948) consagra o “direito à vida” como valor fundamental da humanidade. A Declaração de Independência (1776), documento fundador dos Estados Unidos da América inscreve como direitos inalienáveis, a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

O desenvolvimento da engenharia genética, da nanotecnologia e os interfaces cérebro-computadores, permitirá aperfeiçoar uma elite reduzida e privilegiada de humanos, dotando-os de capacidades avançadas. Entretanto os algoritmos vão ocupando os lugares dos humanos no mercado de trabalho, a riqueza e o poder tendem a concentra-se ainda mais numa elite muito reduzida, detentora de novas competências e da tecnologia, acentuando as desigualdades sociais.

No outro campo poderá vir a estar a maioria dos humanos sem condições de acesso a programas e medidas de aperfeiçoamento pessoal e uma grande parte da mão de obra ativa não-trabalhadora, substituída por algoritmos inteligentes, pela robotização da indústria, da agricultura, dos serviços, pelo avanço da internet das coisas.

Há poucos anos era impensável que seres humanos viessem a ser substituídos por algoritmos informáticos inteligentes, na condução de veículos de mercadorias, de transportes públicos, de veículos ligeiros autónomos e conectados entre si. É neste contexto de forte inovação tecnológica e digital que o mundo laboral está pressionado por uma mudança radical, em que o sistema económico e político tenderá a dar mais valor à humanidade, menos ao individuo, por sua vez, as pessoas por decisão própria, vão no dia a dia transferindo parte da sua capacidade de decisão para sistemas informáticos (algoritmos inteligentes).

Conjugada a desigualdade de rendimentos com o fosso biológico que pode ser criado, a humanidade pode caminhar para uma maior desigualdade. A sociedade pode ser muito distinta da atual e dos valores que ditaram a Carta dos Direito Humanos, nomeadamente a vida como direito inalienável.

Ao longo da História, vários pensadores e filósofos elegeram a felicidade como bem supremo, de procura pessoal, tendo Epicuro Samos (filósofo ateniense, séc. IV a.C.), alertado os seus discípulos de que ser feliz dava muito trabalho e que o excesso poderia trazer a infelicidade. Na atualidade passou a ser considerada como um bem de procura coletiva. Alguns filósofos, políticos e economistas consideram que a medição do sucesso das nações não deveria ser calculada exclusivamente através do PIB per capita, mas sim acrescentando-lhe um indicador de felicidade.

Uns tentarão a chave da felicidade, na combinação adequada, entre o trabalho, a política, a religião, o lazer, a família e as vivências em comunidade, num percurso natural, outros optarão por soluções eventualmente mais fáceis, tendo por base a investigação cientifica no âmbito da bioquímica e da genética do ser humano. O mercado licito produzirá quase tudo o que possa transmitir sensações agradáveis sem limite, na procura do prazer infinito, mesmo assim tudo pode ser insuficiente. O mercado ilícito atuará como na atualidade, de forma sofisticada e organizada, obrigando os estados a manter guerra aberta com meios poderosos e dispendiosos para proteger os cidadãos e as instituições.

O desenvolvimento da biotecnologia e da inteligência artificial irão mudar o mundo, reconfigurar a sociedade, a economia, o ser humano. A conquista de mais poder no planeta e na galáxia e até no universo pode seguir caminhos de transformação do ser humano, de manipulação biológica, manipulação cibernética ou a manipulação de seres não orgânicos. Controlar e escrutinar este percurso visando o poder ilimitado, é um desafio da cidadania e para as democracias. No elemento escultórico da Ciclovia do Fervença esta escrito: “O fim último da ciência é a honra do espirito humano” – C.G. Jacobi (1804-1851). Há novos caminhos que a ciência vai abrindo, promovendo mudanças que devem ser escrutinadas, feitas de forma transparente. É preciso perceber como a ciência olha em termos de futuro para o ser humano e para a vida, como se liga a inteligência artificial com a consciência e a ética, por outro lado será necessário saber manter a distinção entre o que é religião e o que é ciência.

Prever o que poderá ser a sociedade no final do séc. XXI, é um exercício para filósofos e futuristas, já fazer previsões para 2050 é um exercício de estratégia política não dispensável. A verdade é que a mudança está a acontecer, que a humanidade tem que repensar o modelo de desenvolvimento económico futuro, tem que escrutinar mudanças radicais que poderão abalar os alicerces do humanismo, na organização do sistema social e político, na família, nas religiões.

Ponderar prioridades de médio e longo prazo é um exercício que não podemos dispensar. A atual crise sanitária abanou a humanidade, fez questionar projetos tidos como imutáveis, gerou mais incerteza, questionam-se prioridades e modos de vida e por isso, para olhar em frente e atravessar a tempestade, vale mais ter um mapa e um leme do que não ter mapa nenhum. Assim, a conclusão desta reflexão visa tentar perceber três prioridades para a nova agenda da humanidade, que me parecem ser: as alterações climáticas, a proteção da humanidade e do planeta contra um desastre ecológico global; a alteração do modelo económico para a economia verde e justa; Um Sistema Social e de Saúde Pública que proteja todos. As alterações climáticas são a principal ameaça à vida no planeta como hoje a conhecemos. A intensa emissão de gases com efeito de estufa, resultado da atividade humana, está a provocar o aquecimento global no planeta, a temperatura média está a subir, os glaciares a derreter, o nível de água nos oceanos a subir.

Alterações climáticas extremas estão a provocar inundações e secas extremas, que provocam grandes fluxos migratórios entre regiões e estados, alteração de preço das matérias-primas e de bens alimentares essenciais, danos em infraestruturas públicas e privadas, importantes perdas na economia em geral, perda de biodiversidade no planeta e de vidas humanas. Em 2019, o primeiro dia de agosto foi referido pelo “Global Footprint Network”, como o dia do ano em que se caminha na utilização excessiva dos recursos da Terra, tendo como medida a Pegada Ecológica, medida de sustentabilidade de utilização dos recursos do planeta, significando que até ao final do ano estaremos a viver consumindo recursos de gerações futuras, que ao ritmo de consumo atual, os recursos do planeta serão insuficientes para alimentar seis mil milhões de habitantes, pelo que, alimentar nove mil milhões de pessoas em 2050 é um desafio de grandes proporções.

As alterações climáticas são uma prioridade em todas as equações, desde a política, à economia, ao estilo de vida das comunidades. As principais religiões acompanham esta grande preocupação, tendo o Papa Francisco publicado em 2015 uma Encíclica sobre ecologia. É cada vez mais claro serem necessárias políticas globais e reais de compromisso no combate às alterações climáticas, antes de arruinarmos o planeta e provocarmos uma catástrofe ecológica de grandes proporções. É preferível que as gerações futuras se refiram á atual como geração inteligente que foi capaz de alterar o rumo predador sobre os recursos do planeta, em vez de nos apelidarem de estúpidos e atrasados. A vida é a nossa primeira preocupação, só podemos dispor de uma, de igual modo devemos cuidar da Terra, por enquanto a nossa única Casa Comum, apesar da cooperação internacional e dos elevados recursos científicos e financeiros investidos na descoberta do espaço galáctico. Para termos uma sociedade viável, necessitamos dispor de um ambiente viável. James Canton escreveu “fazemos parte do ambiente, do planeta vivo. Isto parece algo quase espiritual, e de facto é-o”. A batalha global contra as alterações climáticas e a preservação da vida no planeta está em curso, as gerações mais jovens estão nas ruas e pressionam a aceleração de decisões de mudança.

A segunda prioridade é a da descarbonização da economia, a passagem da economia baseada nos combustíveis fósseis para a economia baseada nas energias limpas, a economia verde e do conhecimento. Trata-se de olhar os desafios do futuro adotando estilos de vida compatíveis que permitam aos seres humanos uma vida digna e feliz, podendo ser alcançada sem desperdiçar imenso do que faz falta a centenas de milhões de cidadãos, uma vida de equidade na utilização dos recursos e garantia de que o planeta não fica a saque da ganância, pondo em causa a vida e a liberdade das próximas gerações.

Na era moderna, os ciclos de estagnação ou recessão económica são tidos com grandes preocupações, a sociedade crê que o crescimento continuado é possível e necessário, para consumir mais e alcançar melhorar padrões de vida, para ter momentos mais felizes, para alimentar a população que cresce a um ritmo como nunca aconteceu, agora com maior longevidade. Enfrentar a pobreza exige mais economia, mais emprego, a não ser assim, optando pela estagnação, só poderia acontecer retirando rendimento aos que tem mais, baixando o nível de vida da classe média alta.

A realidade das decisões tem que conjugar vários fatores com o crescimento exponencial da população mundial e o baixo ou muito baixo rendimento em muitos países, pelo que a redução da atividade económica ou mesmo do crescimento zero não é opção. A humanidade está confrontada com duas corridas paralelas e divergentes, a de aumentar o ritmo do progresso cientifico e tecnológica e do crescimento económico e por outro não podemos aproximar-nos demasiado do apocalipse/desastre ecológico, colocando todas as forças da natureza contra o homem.

O capitalismo acredita que a economia poderá continuar a crescer indefinidamente, a produzir tudo, para isso terá que ser descoberta uma reserva inesgotável de recursos. A indústria produz imenso bens absolutamente supérfluos ou mesmo lixo sem qualquer utilidade, recorrendo a mão de obra com remunerações irrisórias, em situação de total precaridade e sem direitos sociais, para além de que as pessoas acumulam bens e objetos absolutamente inúteis, para além de terem perdido o hábito de reparar e reutilizar. Alguns futuristas e empreendedores pensam obter resposta para obtenção ilimitada de novos recursos, na conquista de novos planetas e até de galáxias. Entretanto, as decisões económicas tomadas com os pés na Terra obrigam-se a seguir outros caminhos de expansão, recorrendo aos avanços da ciência que permite aos humanos descobrir novas matérias-primas e fontes de energia.

Á visão do planeta enquanto sistema limitado de recursos: matérias primas e energia, contrapõem-se a de três tipos de recursos: matérias primas, energia e conhecimento que é um recurso progressivo, quanto mais temos mais usamos. A nanotecnologia, a engenharia genética e a inteligência artificial estão a revolucionar a produção, a criar novos produtos, tentando encontrar soluções para a escassez de recursos no planeta. Todo o poder de recursos e de conhecimento alcançado deve ser agora colocado na prioridade de construir uma economia global amiga do ambiente, em todos os setores: agricultura, na indústria, nos serviços. A verdadeira ameaça de colapso da economia e de convulsões politicas e sociais descontroladas é a destruição dos ecossistemas, ao ponto de colocar em causa a sobrevivência da civilização humana. Como resposta a humanidade está a por em curso uma mudança global para um futuro viável no planeta, cientes de que, tal como a era da pedra não acabou por falta de pedra, também a era do petróleo não acabará por falta de petróleo, sim pelo avanço do conhecimento na descoberta de energias de fontes limpas e inesgotáveis.

Como terceira prioridade da agenda da humanidade parece- -me ser a de todos os países darem prioridades à criação ou reforço de um Sistema Social Universal e um Sistema de Saúde Pública que proteja todos. A vida, valor supremo consagrado pela Sociedade Contemporânea, vale a pena ser vivida, seja qual for o caminho seguido rumo ao futuro, por mais incógnito que seja, e neste percurso, a condição humana não pode distanciar-se da evolução tecnológica e do mercado.

A inovação em setores como a biotecnologia, a nanotecnologia, a inteligência artificial, é o combustível da economia do futuro. Está a mudar a sociedade, a economia, o ser humano. A Inovação gera mais inovação, processo imparável para uma mudança radical, no mercado laboral, em que o avanço da internet das coisas, de algoritmos inteligentes e a robotização da indústria, da agricultura e dos serviços, irá reduzir a presença dos humanos nos locais de trabalho. Estamos a caminhar para uma sociedade em que uma parte significativa da mão de obra ativa não terá lugar no mercado de trabalho e as desigualdades sociais podem agravar-se. Os recursos do planeta podem concentrar-se ainda mais em grandes investidores, em fundos agressivos e nas oligarquias de estados ditatoriais ou de estados “predadores”.

A atual crise sanitária veio evidenciar a pobreza, por à vista a muita precaridade da mão de obra em grandes nações, como a Índia e outros países asiáticos e de outros continentes, em que sem direitos sociais, remunerações miseráveis e em plena precaridade, produzem a baixo custo, muito do que as sociedades mais desenvolvidas consomem avidamente, sem que os sistemas de regulação e os cidadãos se questionem sobre as condições humanas ou desumanas da cadeia logística e de produção. As manifestações contra a fome em cidades como Santiago do Chile, as filas enormes de cidadãos na periferia de Joanesburgo para receberem ajuda alimentar de ONG, a fuga das cidades para o campo de milhões de indianos que de um momento para o outro ficaram sem trabalho, eram impensáveis sobre o medo da fome.

Veio igualmente por à prova os sistemas de saúde pública, dos países mais pobres aos mais desenvolvidos, evidenciando ser prioritário reorientar parte da capacidade de investigação e de desenvolvimento, de reduzir o orçamento militar para fortalecer os sistemas de saúde pública, visando a melhoria dos cuidados de saúde, de higiene, alimentares, o aumento da esperança de vida, trazendo todos os povos do planeta a um patamar de maior igualdade e dignidade de vida. Por isso me parece que lutar por um Sistema Social Universal e um Sistema de Saúde Pública que proteja todos, é uma das três prioridades da humanidade.

Precisamos mudar a nós próprios para mudar o mundo, ter esperança no futuro. “A esperança é uma questão de fé! Fé em que, apesar de tudo apontar no sentido contrário, há-de correr tudo bem! – Desmond Tutu. Partilho esta visão no quadro da reflexão que desenvolvi, na perspetiva do médio e longo prazo, se pensarmos no presente e no curto prazo, então é claro que muita coisa ficará diferente e que nas famílias lançadas na pobreza e nas muitas empresas que não reabrirão ou não conseguirão sobreviver, haverá muito sofrimento.

Concluo com a ideia de que as prioridades para a nova agenda da humanidade, deveriam ser: as alterações climáticas, a proteção da humanidade e do planeta contra um desastre ecológico global; a alteração do modelo económico para a economia verde e justa; Um Sistema Social e de Saúde Pública que proteja todos.

Jorge Nunes