PUB.

Por quem os sinos dobram

PUB.

Choram os sinos por todos quantos ao exemplo dos mortos no decurso da guerra civil espanhola são a substância e origem do livro* cujo título é o desta crónica a expobrar o comportamento de todos quantos por omissão, palavras e obras contribuíram para o sofrimento e muitas vezes a morte de mulheres e homens vítimas da pandemia. Dobram os sinos prenhos de raiva porque morreram e morrem pessoas em consequência da vaidade popularucha das decisoras e decisores incapazes de elevarem a prudência na profunda análise dos efeitos da peste nas comunidades portuguesas. Plangem dolentes os sinos na impotência de as suas notas não conseguirem sensibilizar as pessoas a considerarem as normas de segurança sanitária tão importantes quanto a exigência alimentar dos corpos, pois se a comida os vivifica, a sua exposição vírus coloca-os em perigo de serem corroídos antecipadamente. Tangem os sinos cansados de soarem aos ouvidos dos ânimos hábitos ao modo de sopro de revigoramento porque temos de conseguir resistir com mais energia à tormenta esperançados na sua erradicação. Os sinos estão possuídos pela doença de S. Vito, rejubilam na cúspide da propaganda do efeito benéfico após a chegada das vacinas consideradas como elemento primacial da propaganda, para de imediato soluçarem tal qual o velho que não tem culpa de o ser, mas porque o é caiu nas malhas da idade indesejada e, por isso mesmo esvaiu-se a dita esperança agravada pelo emudecimento dos sinos, sinetas e campainhas pascais. As vacinas tábua de salvação tardam, os feitos irão demorar, o que resta? Resta fé nos cientistas escorados na serena análise dos resultados e na coragem de dizer como os fidalgos de D. Afonso IV lhe disseram: senão? Não! Os sinos voltaram a ser cautelosos porque os sinos dos cientistas sabem quão pertinazes e astuciosos se movem os políticos no entrelaçarem redes de conquista e manutenção do poder, a imolação da ciência não os arrepia a favor dos seus desejos. Muitas vezes os homens consagrados ao mundo científico resvalam, ao modo dos sinos grandes travestidos de sininhos amestrados não raras vezes recuam, pensemos no episódio do encerramento das Escolas. O leitor dirá: o autor desta crónica endoidou, uma no cravo, outra na ferradura apesar de as vítimas terem sido arrestadas à traição com as pernas hirtas! É verdade. Nesta questão da pandemia a coerência não é possível medir-se ou avaliar-se, tal qual a lisura de seis candidatos nas recentes eleições presidenciais. Eram sete! Nas noites invernais, nos serões à volta da fogueira no Lar de Lagarelhos fiquei a saber quem era o sujeito da adivinha – Alto está, alto mora, todos o vêm, ninguém o adora –, o que cada um elege como o seu. A pandemia enxameia de todos quantos ao entrarem na eternidade não usufruíram da última vontade neste vale de lágrimas; de poderem ter sido objecto da cerimónia do adeus envolvendo familiares e amigos. Porca Miséria! Os sinos gritam pios de dor ante o aviltamento, escrevo ao som de Wagner, um som só audível por mim pois a pitonisa não me respondeu. Porquê?

Armando Fernandes