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Manifesto ecofágico

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Boa tarde, meus caros. Espero que a anunciada Primavera vos traga saúde e esperança renovada. Hoje falo- -vos da natureza, de fauna e de flora, raposas, lobos, gamos, ginetos e javalis. Vai fazer um século que o manifesto antropofágico despoletou um movimento modernista brasileiro com o mesmo nome, inspirado no surrealismo francês de André Breton, para centrar a expressão artística na brasilidade, nas suas raízes indentitárias ameríndias, desprendendo-se das estrangeiras influências europeias e norte-americanas. Daí esse canibalismo, essa deglutição do Outro que o nome sugere. A antropofagia trasmontana de hoje não tem nada de surrealista, mas sim de ultra ou hiper-realista. Também não é bem antropofágica, porque não se trata de homens que comem outros à refeição, mas sim de naturofagia, biofagia ou ecofagia, ou seja, a natureza a dizer que o homem está ali um bocado a mais (ou a menos, na verdade). Às vezes costumo chamar à praça o académiquês no qual hoje em dia tudo consegue caber, mas, fora de brincadeiras, não sei qual a terminologia, mas estou certo de que haverá algum ramo da ciência que estude estas coisas. Temos por exemplo o caso de Chernobyl, conhecido por, depois da debandada das suas gentes, albergar agora uma vida natural única e vigorosa em termos de espécies vegetais e animais que vivem sem qualquer influência de actividade humana. O mesmo fenómeno se passa numa zona ainda mais difícil de aceder situada na divisão entre as Coreias, onde poucos ousam pôr o pé, mas onde muitos juram haver uma biodiversidade igualmente rara e especial. Uma faixa de terra desmilitarizada e sem presença humana desde a Guerra da Coreia, nos anos 50, com quatro quilómetros de largura e 250 de extensão onde a natureza se instalou com toda a naturalidade sem passar cartucho a humana e desavinda vizinhança. No caso do Nordeste Trasmontano as pessoas das aldeias relatam a cada vez maior propagação de animais selvagens pelos termos e pelos povoados, animais esses que muitas vezes se passeiam pelas aldeias natural e despudoradamente, alguns até já vão comer da gamela que lhes dão. Nos dias de batida ao javali os caçadores dizem avistar muitas dezenas, centenas destes animais. Nesta relação e interação entre gentes e fauna, quando deixa de haver pessoas, a fauna e a flora começam a deglutir e a envolver o meio involvente. Os animais selvagens proliferam e os humanos passam a ser para eles apenas quatro gatos pingados. Para todos os efeitos esse é um dos sinais mais realistas dos tempos que as aldeias do Nordeste vivem. Antes costumava ouvir-se muito a frase “antigamente estes caminhos andavam todos limpinhos, não havia uma brossa, umas silvas, isto até brilhava, cheios de gente pelos termos”. Depois os caminhos dos termos começaram a ficar abandonados, sem gente para os escanhoar, e agora estamos num outro inverso ponto em que são os animais que devem fazer semelhantes comentários: “Antigamente não se podia andar nestes caminhos de tanta gente. Agora, meu filho, se quiseres ir até à aldeia jantar a comida do gato à porta das pessoas, não tem nada que enganar, sempre a direito pelo carreiro. Não vale a pena andares aí a arranhar as patas no meio dos touções”. Raposas, cervos, javalis, gatos selvagens, etc., vivem tempos de liberdade. Tem a sua beleza, mas também tem os seus perigos e prejuízos. As aldeias do Nordeste Trasmontano fazem-se cada vez mais deles e cada vez menos de pessoas. Na perspectiva biológica e ecológica, e na perspectiva do PAN, é algo de enorme riqueza e singularidade. Na perspetiva demográfica e trasmontana, em termos de presença humana, é um bocado triste porque a natureza está literalmente a morfar ou a antropomorfar as pessoas e as suas pequenas comunidades. Pegando num termo muito ligado a Trás- -os-Montes, celebrizado pelo insigne poeta, estamos perante um telúrico-morfismo em que a terra enquanto elemento vivo, está a engolir os da terra enquanto elemento filosófico. Sendo que o elemento filosófico são as pessoas e sem elas há muitas coisas bonitas de serem apreciadas neste mundo, mas não filosofia nem outras formas que tais de ocupar o tempo. A natureza a ganhar espaço ao homem, um movimento cíclico, uma segunda parte de um jogo em que o marcador revira a favor da fauna e da flora. A terra a ir para as mãos de quem a trabalha. Há no Nordeste municípios de vastas centenas de metros quadrados com quatro, cinco mil pessoas. Na China isso pode perfeitamente ser a população de um prédio ou dois. Que o mundo é feito de desequilíbrios nao é novidade para ninguém. Que passados tantos anos não consigamos fazer grande coisa para inverter ou sequer impedir o acentuar desses desequilíbrios também não, mas é decepcionante. É urgente o amor e é urgente o equilíbrio, mas a questão que se coloca é sempre a mesma: como? Se o Polígrafo fosse investigar e analisar a veracidade da seguinte afirmação “O ser humano nas aldeias do Nordeste Trasmontano é um elemento em francas vias de extinção”, o veredito final seria: “Falso, mas...”. Um saudoso abraço a todos e muita saúde!

Manuel João Pires