Verdades como punhos.

Um simples trecho de uma entrevista mais longa que o senhor Jeroen Djisselbloem, presidente do Eurogrupo, concedeu ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" mereceu o maior destaque nos noticiários. Do resto da entrevista nada se disse mas as declarações em apreço provocaram reacções infla

04 abr. 2017, 09:52

Um simples trecho de uma entrevista mais longa que o senhor Jeroen Djisselbloem, presidente do Eurogrupo, concedeu ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" mereceu o maior destaque nos noticiários.

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Do resto da entrevista nada se disse mas as declarações em apreço provocaram reacções inflamadas de muitos políticos com responsabilidades de governação nos países do sul. Porque enfiaram a carapuça, só pode ser.

Jeroen Djisselbloem é quem é e serve a quem serve. Político assumidamente de esquerda entendeu agora, vá-se lá saber porquê, desancar a organização supranacional que lhe dá emprego e os colegas que governam a sul, insinuando que estes, incluindo os portugueses, portanto, gastam todo o dinheiro em bebidas e mulheres e de seguida pedem ajuda aos países do norte da zona euro. Embora ele, enquanto social-democrata, considere a solidariedade da maior importância.

Percebe-se que Djisselbloem se esforçou por ser bem-educado. Talvez tenha sido mal interpretado só por isso mesmo. Falou em bebidas, não explicitamente em vinho tinto, ou verde, em mulheres e não em damas prostitutas. Se tivesse proferido o popular aforismo português, teria tido muito mais graça, seria melhor compreendido e ninguém o teria levado tão a sério, por certo.

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Mas, deixemo-nos de cantigas: Jeroen Djisselbloem, ainda que desastradamente, descompôs os seus colegas políticos, não as mulheres de vida fácil ou difícil, ou os povos do sul que, toda a gente sabe, são tão europeus como os do norte.

A verdade é que os Estados do sul chafurdam na corrupção e vivem à beira da banca rota e na dependência dos Estados do norte. Não por culpa daqueles que a sul trabalham ordeiramente aguentando, resignados, os sacrifícios relapsos a que os seus governantes os submetem, quando não os forçam a emigrar, em massa, para norte, precisamente.

Embora a norte até nem haja mais sol e melhores praias, hortas e pomares, nem seja verdade que os nórdicos são mais inteligentes e trabalhadores ou que as mulheres loiras são mais belas que as morenas. Tão pouco o petróleo do Mar do Norte é bastante para explicar a riqueza de uns e a pobreza de outros.

A vida airada dos políticos sulistas, essa sim, contrasta claramente com a sobriedade nórdica. Basta comparar o estilo de vida dos ministros e dos deputados portugueses com a dos congéneres suecos ou finlandeses, ou os gastos da Presidência da República portuguesa com os da corte norueguesa.

Devemos por bem concluir, portanto, que o ainda presidente do Eurogrupo disse verdades como punhos. Tanto assim é que apenas a bebida e as mulheres empolgaram os governantes visados. Já o contraste norte-sul, que deve ser assacado aos políticos e às prácticas políticas, tão-somente, não parece incomodá-los minimamente.

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Falamos do contraste socioeconómico, que não tem razão de ser, e não das diferenças históricas e culturais que essas são louváveis e devem ser preservadas.

Não façam de Djisselbloem um bode expiatório por mais bronco que o homem possa ser.

Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.

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