Onde estão os planos?

Era com esta frase que os inspetores dos anos oitenta se faziam anunciar nas escolas do primeiro ciclo, aterrorizando professores que se iam adaptando a um outro método de ensinar e fazer pedagogia. Os alunos já estão em férias, os professores continuam nas escolas e não é sobre tais planos que se i

11 jul. 2017, 09:53

Era com esta frase que os inspetores dos anos oitenta se faziam anunciar nas escolas do primeiro ciclo, aterrorizando professores que se iam adaptando a um outro método de ensinar e fazer pedagogia. Os alunos já estão em férias, os professores continuam nas escolas e não é sobre tais planos que se irá refletir, pese embora, o campo da educação esteja minado por casos que colocam em causa a credibilidade da equipa ministerial. Não bastava a fuga de informação do exame de português, vem ainda a Sociedade Portuguesa de Matemática afirmar que há um erro no de matemática e, sem fonte, mas com constatação, a impressa informa que há diretores a pressionar os Conselhos de Turma para que passem os alunos com cinco ou mais negativas. O gabinete do ministro nega; a imprensa reitera; e a realidade confirma: sem sucesso não há crédito; sem crédito não há financiamento e o conceito empresarial chega à escola pública tão ou mais sub-repticiamente do que a municipalização dos estabelecimentos escolares. Certo e sabido é que a educação deixou de ser prioridade socialista, as expectativas defraudadas e cada vez mais o espectro político e a identidade ideológica se vai esbatendo para mal dos cidadãos.

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Os planos que nos preocupam são outros. Todos os anos, por esta altura, ouvimos falar do ordenamento do território como uma necessidade imperiosa para por cobro a tantos hectares queimados e a tantas vidas que já neste ano se perderam. Com tantos organismos envolvidos, e com a fé que nos carateriza, devemos acreditar que muitos planos já estão concebidos, bens e populações salvaguardados. Tudo estará elaborado, mas tudo está no segredo dos deuses porque esta é a matriz com que as instituições da nossa democracia estão habituadas a trabalhar. “— Quando ocorrer um fenómeno destes, todos os agentes sabem o que devem fazer. Está tudo coordenado e devidamente planificado” – com esta ou frases semelhantes afagam-nos o ânimo e os dias vão passando. Já assim não é quando, efetivamente, as coisas acontecem, as populações estão isoladas e sem planos de contingência ou de ordenamento capazes de lhe salvar as vidas porque não estão efetivamente elaborados, há um total desconhecimento dos mesmos e em momentos de catástrofe não há ninguém que seja capaz de, calmamente, se debruçar sobre os rabiscos e as linhas de evacuação ou tenha paciência para aguardar que o socorro chegue quando estradas estão cortadas e do céu não vem ajuda.

Não sendo saudosista, mas correndo o risco de ser apelidado de retrógrado, quer parecer-me que se a classe política conhecesse um pouco mais da história contemporânea, e os organismos responsáveis pela prevenção e combate a incêndios assumissem verdadeiramente a dimensão pública da sua missão, bastaria retomar aquilo que foram as campanhas de dinamização cultural e ação cívica dos anos setenta promover, com outras metodologias é certo, as necessárias ações de sensibilização e de promoção dos valores ecológicos e ambientais, neste caso, junto das populações que, resistindo ainda, ocupam os recônditos lugares deste Portugal profundo. Comparado com a eternidade, o tempo que medeia entre o momento em que os helicópteros paravam nos adros das igrejas e o agora é nada; evoluíram as técnicas de comunicação e de divulgação da informação, mas regrediram os agentes e os protagonistas no terreno. Antes, criava-se, decidia-se e executava-se; ia-se às aldeias, às vilas à rua e ao bairro e intervinha-se. Hoje, formula-se em Lisboa, aplica-se no gabinete e avalia-se entre quatro paredes. E a diferença fundamental é esta: já não se sabe vestir a camisola por causas públicas.

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