O Regime e seus acólitos
Mal comparadas Lisboa é Roma, não a Roma do império mas a Roma de Berlusconi, e São Bento o Vaticano. E, se assim for entendido, o presidente da república Marcelo será o papa Francisco português que, como é sabido, não é bem quisto por muitos cardeais da cúria republicana embora seja idolatrado pela
Mal comparadas Lisboa é Roma, não a Roma do império mas a Roma de Berlusconi, e São Bento o Vaticano. E, se assim for entendido, o presidente da república Marcelo será o papa Francisco português que, como é sabido, não é bem quisto por muitos cardeais da cúria republicana embora seja idolatrado pela maioria dos fiéis.
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Ainda nesta alegoria, que não pretende ser uma parábola, os partidos pouco mais são que seitas, os líderes partidários bispos e os deputados seus acólitos, coadjuvados por legiões de anjinhos que prometem levar os portugueses para o céu dos pardais, voando graciosamente na atmosfera rarefeita do Regime, lado a lado com os milhafres da desigualdade e da corrupção.
Tudo terá mais sentido se olharmos o Regime sem dó nem piedade, preferencialmente a partir da província de Trás-os-Montes que os políticos persistem em considerar uma colónia pobre e longínqua, habitada por nativos rudes e ignorantes e que ainda não comungam plenamente da religião democrática esotérica de confissão lusitana.
Claro que os transmontanos descrentes duvidam da apregoada infalibilidade dos profetas Costa, Jerónimo e Catarina escaldados que estão com os demiurgos que os antecederam. Para eles Lisboa será mais parecida com Brasília e São Bento com o Olimpo da mitologia grega, morada celeste de deputados vitalícios e de outros que tais e onde muitos dos fiéis militantes partidários sonham, um dia, montar barraca para o resto da vida.
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Crentes e não crentes num ponto parecem, todavia, estar de acordo: os deputados da nação, no actual quadro constitucional bem como os autarcas mais categorizados, não passam disso mesmo: de acólitos, que o mesmo é dizer, em linguagem mais terra a terra, de sacristães e sacristãs do Regime que lhes garante prebendas e sinecuras e apenas resmungam ou se revoltam contra os bispos quando sentem ameaçadas as suas mordomias.
Quando tal não acontece, porém, cumprem exemplarmente as tarefas que lhe estão acometidas: tocam o sino, recolhem as esmolas, acendem e apagam velas, servem a água e o vinho, tratam da palamenta e da ferramenta do ofício, batem com a mão no peito, a tudo dizem amém e sobem ao altar para as leituras litúrgicas.
Tanto assim é que apesar das muitas vozes de revolta, profanas e populares, que se fizeram ouvir recentemente, quando o cardeal primaz António Costa veio em visita pastoral à diocese de Bragança abençoar o TGV castelhano e amansar os transmontanos, nenhum acólito do Regime, deputado ou autarca melhor dizendo, ousou erguer-se em defesa da região.
Mais grave ainda: uma semana depois o mesmo cardeal primaz benzia a ferrovia Évora-Elvas que, pelos vistos, pretende ressuscitar o TGV de seu correligionário José Sócrates e que não será mais rentável nem terá maior impacto nacional e regional que uma eventual via Porto-Zamora, cruzando Trás-os-Montes de lés-a-lés.
Mais grave ainda: enquanto que no Alentejo o monumental empreendimento do Alqueva é uma positiva realidade, o velho sonho transmontano de ligar os rios Tuela e Rabaçal num sistema de rega que beneficie a vasta e fértil Terra Quente continua a ser uma quimera que esturrica os campos pelo Estio. Segundo o evangelho do governo da Geringonça meia dúzia de charcas bastarão para que as rãs continuem a coaxar a seu contento. A tudo isto os acólitos do Regime, deputados e autarcas melhor dizendo, dizem nada.
E depois queixam-se que os transmontanos não vão à missa.
Este texto não se conforma com o novo Acordo Ortográfico.
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