O manso e o guerreiro - VIII – Património genético

Tomé Guerreiro estava já há algum tempo à espera do seu amigo Júlio Manso e foi logo direto ao assunto sem qualquer introdução, brandindo o jornal Nordes de algum tempo atrás. – Já viu o que vem aqui escrito? – Não vi, mas o meu amigo vai dizer-me, com toda a certeza. – Claro que sim. Diz aqui

19 set. 2017, 15:09

Tomé Guerreiro estava já há algum tempo à espera do seu amigo Júlio Manso e foi logo direto ao assunto sem qualquer introdução, brandindo o jornal Nordes de algum tempo atrás.

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– Já viu o que vem aqui escrito?

– Não vi, mas o meu amigo vai dizer-me, com toda a certeza.

– Claro que sim. Diz aqui no jornal que a amêndoa coberta de Moncorvo obteve a certificação da União Europeia.

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– Estamos então de parabéns.

– Claro, todos nós, a começar pela Câmara Municipal que em colaboração com o Agrupamento de Produtores de Amêndoa, elaboraram, promoveram e candidataram o processo. Só é pena que não se tenha acautelado a preservação do germoplasma da espécie autótone e tradicional.

– Agora é que eu não entendi nada!

– A amendoeira, como sabe, ao contrário da oliveira, é uma árvore de vida curta. Por isso é necessário ir renovando os amendoais.

– Claro. Mas isso não é natural?

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– Naturalíssimo! O que acontece é que as novas árvores são de origem italina, espanhola e francesa, diferentes da tradicional.

– Provavelmente porque são melhores.

– Muito melhores! Por isso é que estão a ser preferidas às de antigamente.

– E isso é mau?

– Claro que não. É bom porque permitem maior rentabilidade, mais resistência às pragas e mais longevidade. Mas com o passar do tempo, com a substituição das árvores mais antigas pelas novas espécies, estamos, pouco a pouco a perder um património que é nosso.

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– E para que queremos nós esse património, para que servem essas velhas árvores se existem melhores espécies disponíveis.

– Meu caro amigo, isso nem parece seu. Para que o queremos? Ora essa, para o conservar, exatamente pela mesma razão por que conservamos os castelos, os fortes, os castros e outras antigas construções.

– Isso é diferente. São monumentos antigos e com muito valor.

– Diferente em quê? A questão é exatamente a mesma. A conservação dos monumentos não impediu a modernização da habitação. Conservar as construções antigas não quer dizer que tenhamos de manter a técnica e a forma antiga de edificar as habitações. As casas de agora podem e devem ser mais confortáveis, ter outro tipo de estruturas e comodidades. Mas isso não pode implicar a destruição ou sequer a deterioração do património edificado só por não ter essas características.

– Ou seja devem os agricultores optar por novas variedades mas deve ser assegurado o património original da tradicional?

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– Exatamente.

– Mas como?

– Assegurando a existência de alguns amendoais com as espécies tradicionais que embora tendo rendimentos mais baixos e menor resistência a pragas e doenças, garante que não se perdem as espécies que durante milhares de anos povoaram as encostas dos montes da Terra Quente.

– E porque hão-de os agricultores, cujos rendimentos são tão escassos, preocupar-se com essa questão em vez de aproveitarem todo o terreno disponível para plantações modernas e rentáveis?

– Tem toda a razão. Não compete aos agricultores assegurarem esse objetivo. Essa é uma tarefa das instituições do setor com o devido apoio da autarquia!

– E não há outra forma de garantir esse desiderato?

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– Sim, há outra forma que aliás é já usada em outros locais: isolando, conservando e preservando o respetivo germoplasma.

– E como é que se faz essa preservação?

– Isso é que eu não sei. Mas há, certamente quem saiba. Basta inquirir.

– Nem mais!

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