ÍTACA

Vladimir Maiakowski, jovem poeta da Revolução Russa, um dia lançou um grito reivindicativo assim: “Eu quero o meu futuro, já!” ( repare-se na analogia entre esta reivindicação e o imperativo revolucionário, lançado quase 50 anos depois, dos soixane-huitard de Cohn Bendit : “ Sê realista! Pede o impo

18 out. 2016, 09:45

Vladimir Maiakowski, jovem poeta da Revolução Russa, um dia lançou um grito reivindicativo assim: “Eu quero o meu futuro, já!” ( repare-se na analogia entre esta reivindicação e o imperativo revolucionário, lançado quase 50 anos depois, dos soixane-huitard de Cohn Bendit : “ Sê realista! Pede o impossível!”) Apesar disso também fez, um pouco paradoxalmente, um elogio à velhice, nestes termos pedagógicos: “se à noite chorares por Sol, não verás as estrelas”. Maiakowski quis transmitir não só confiança numa coisa da qual todos desconfiamos mas também dizer que a velhice não é mais que outro capítulo da vida e não o seu “dark side”, e que, em cada tempo, devemos olhar para o que de bom nos é mostrado e nunca ignorar os seus encantos.

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Não tendo eu uma visão tão idílica da terceira idade penso, além disso, que Maiakowski foi atraiçoado pelas suas próprias palavras. Na figuração que ele próprio elaborou, a velhice é a noite. “Um naufrágio!” teria vociferado em tempos “de Gaule” num lamento impotente.

É por isso que já não torno para Ítaca. Já estou velho para Ulisses. Além disso, um ano à deriva, porque o corpo e a alma transferiram entre si os seus males- Galeno dixit, tiraram sentido a qualquer retorno. Não que não haja lá Telémacos mas Penélope há muito que acabou a camisola e até já a entregou. Decidi, então, seguir o conselho do poeta Bandeira e “ Vou-me embora para a Pasárgada / que lá sou amigo do Rei / durmo com a mulher que quero / na cama que escolherei”. Vou-me embora para a Pasárgada.

Por Manuel Vaz Pires

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