Falando de... António Dinis da Cruz e Silva em “A Cidade do Homem”, de Amadeu Lopes Sabino
É da cidade do homem, António Dinis da Cruz e Silva. Elvas onde foi juiz auditor na guarnição militar entre 1764 e 1775 que nos fala. Desentendimentos entre o bispo Lourenço Lencastre e o deão José Carlos Lara que o leva a recusar-se a apresentar o hissope ao bispo, o mesmo sucedendo ao deão que lhe
É da cidade do homem, António Dinis da Cruz e Silva. Elvas onde foi juiz auditor na guarnição militar entre 1764 e 1775 que nos fala. Desentendimentos entre o bispo Lourenço Lencastre e o deão José Carlos Lara que o leva a recusar-se a apresentar o hissope ao bispo, o mesmo sucedendo ao deão que lhe sucedeu, seu sobrinho, Inácio Joaquim Alberto de Matos.
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Frequentador dos serões familiares em casa de Francisco José da Silveira Falcato, magistrado como ele, ia ouvindo o que da querela se propalava na pacatez da cidade de Elvas e o que o deão narrava das suas desavenças com o bispo, da parcialidade do cabido que o condenara a uma coima.
Sofrendo de problemas oftalmológicos, António Dinis ia memorizando o que ouvia, ele que como poeta estivera na fundação da Arcádia Lusitana em 1756. A Cruz e Silva associaram-se outros, Correia Garção, Reis Quita, Francisco José freire, Manuel de Figueiredo. Outros se juntaram, como José Anastácio da Cunha, Filinto Elísio, Tomás António Gonzaga e Cáudio Manuel da Costa, além de Basílio da Gama, Santa Rita Durão e o satírico Nicolau Tolentino de Almeida.
Todos os aderentes se serviram de um nome arcádico, tendo António Dinis da Cruz e Silva, adoptado o de Elpino Nonacriense.
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Utilizando como divisa a expressão latina Inutilia Truncat,não foi muito longa a vida da Academia, não indo além de 1777. Como indicia a expressão, o grande objectivo era banir da poesia o que fosse inútil, como as metáforas exorbitantes, as hipérboles, tentando imitar os clássicos, como Horácio, Píndaro, Teócrito, recusando o estilo gongórico e jesuítico, aproximando-se de Camões. Do talento de António Dinis sairão postumamente em 1801, em edição de Coimbra e em 1820, em Lisboa, as Odes Pindáricas onde elogia Vasco da Gama e Duarte Pacheco Pereira.
Dos serões em casa do magistrado Falcato, uma vez memorizados, versejava, ditando o que a sua verve produzia, limitando-se José Falcato a escrevê-los. Estava em embrião O Hissope, poema herói-cómico constituído por sete Cantos, que terão levado dezassete dias a ser compostos. Cantos de versos desiguais, de rima branca, cujos primeiros versos vale a pena conhecer:
Eu canto o bispo e a espantosa guerra/Que o hissope excitou na Igreja de Elvas.
Deste poema escreveu Gar-
rett em Bosquejo da história da poesia e língua portuguesa “O Hissope é o mais perfeito poema herói-cómico do seu género, que ainda se compôs em língua nenhuma: se no castigado da dicção o excede o Lutrin, no desenho da obra na regularidade do edifício, na imaginação, foi o discípulo de Boileau muito além do seu grande mestre”.
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O Hissope foi publicado pela primeira vez em 1802, em Paris, com a designação de Londres, reimpresso em 1817 e em 1821, sempre em Paris, então com a designação verdadeira.
Em Portugal não era permitida a sua impressão porque o poema era proibido, contudo durante a curtíssima estada dos franceses em 1808, foi feita uma edição cujos exemplares foram de imediato recolhidos, assim que os franceses foram expulsos.
A Cidade do Homem, produto de um escritor que em Elvas nasceu em 1943 e é condenado em 1972 por crimes contra a segurança do Estado e despachado para Penamacor, local onde assentavam praça todos aqueles que haviam sido condenados, independentemente da sua habilitação escolar, Amadeu Lopes Sabino incorpora a Companhia Disciplinar como faxina na Secção de Justiça, mas, mas depois de um breve período de “empenho exclusivo na limpeza”, “desmerecedor de tocar em armas, mas merecedor de empunhar vassouras e esfregões” (P.525), quando o sabem licenciado em Direito, encarregam-no de despachar dezenas de processos esquecidos nas gavetas da Secção, muitos deles com prazos excedidos, o que permitiu a libertação de muitos militares.
Aprofundando o conhecimento da vida de Cruz e Silva que em Elvas foi juiz e julgou soldados que dos quartéis da cidade esmolavam e desertavam para as aldeias e para Espanha, por falta de meios do estado para custear as tropas, em 555 páginas é possível ler uma época em que o Marquês de Pombal dita leis em Portugal e a rainha D. Maria I é implacável na revolta em Vila Rica, no estado de Minas Gerais.
Terminada a sua missão em Elvas em 1775, Cruz e Silva é colocado como desembargador na Relação do Rio de Janeiro, onde acrescenta o Canto VIII ao Hissope, por despacho de 1776, voltando à Metrópole em 1789, ano da Revolução Francesa.
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Se os ventos da Revolução chegam a toda a Europa, a exploração do ouro no Brasil está na origem de altercações em algumas regiões do Brasil para onde emigram muitos portugueses em busca de riqueza fácil e rápida.
Não era pacífico o clima no Brasil. A campanha do ouro era também uma oportunidade para o Rei aumentar os seus rendimentos. Empossado governador de Minas Gerais, em 1788, o Visconde de Barbacena impôs a entrega da derrama anual fixa de cem arrobas de ouro por habitante da província, castigando de forma severa os incumpridores.
Em 1790, Cruz e Silva é nomeado desembargador da Casa da Suplicação, o mais alto cargo legislativo. Nesse mesmo ano, alguns intelectuais, poetas eminentes, antigos colegas de Cruz e Silva na Universidade de Coimbra, participam na Conjura de Vila Rica, capital de Minas Gerais, visando a sua emancipação da mãe-pátria, influenciados pelos ideais de liberdade provenientes da Europa e que já tinham conduzido à independência os E.U.A. em 1776.
A Rainha D. Maria I convoca para o Rio de Janeiro uma comissão de magistrados, constituída por Sebastião Xavier de Vasconcelos Coutinho, António Gomes Ribeiro e António Dinis da Cruz e Silva.
A revolta, conhecida por Inconfidência Mineira, era liderada pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado de Tiradentes, despeitado, pedreiro-livre de quatro costados que conspirava contra a Coroa, que arrancava dentes, curava os desgraçados, era um homem caridoso. Os desgraçados pagavam bem a caridade. Era cirurgião-dentista, para a época.
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Julgado pelo tribunal de que Cruz e Silva fazia parte, o Tiradentes é condenando à morte por enforcamento, sofrendo o corpo, depois de morto, sevícias inimagináveis (p.494). Os outros cúmplices, alguns companheiros de letras de Cruz e Silva, acabaram por morrer no degredo.
António Dinis não assistiu à execução do Tiradentes, invocando doença, nesse dia foi visto de boa saúde no Rio de Janeiro, longe do local do “espectáculo”.
Em 1965, a ditadura militar promoveu o alferes a “Patrono Cívico da Nação Brasileira” e, no ano seguinte, impôs um modelo oficial para a reprodução de efígie do herói nacional: um santo laico, precocemente envelhecido, de cabelos compridos e o rosto talhado, evocação de um Cristo tropical.
Segundo o autor, Cruz e Silva, faleceu no Rio de Janeiro a 5 de Outubro de 1799, ocupando o lugar de chanceler da relação do Rio de Janeiro. Antes, em Janeiro do mesmo ano, acordara paralisado do lado esquerdo. O físico da Relação diagnosticou-lhe um estupor, receitando sangria e banhos de água fria.
Foi sepultado na Igreja dos Capuchinhos, demolida no início do século XX, quando o morro do Castelo foi arrasado, dos ossos não houve qualquer rasto.
Oswald de Andrade, escritor modernista brasileiro atribuiu-lhe uma adjectivação muito negativa. A execução do Tiradentes fez de António Dinis da Cruz e Silva uma figura negativa na História do Brasil, apesar de só lá ter vivido 23 anos.
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Não sendo um romance histórico, segundo o autor, e omitindo a documentação e os arquivos consultados, há acontecimentos e datas que são indiscutíveis e que não pertencem ao domínio da ficção. Sabemos que António Dinis da Cruz e Silva existiu. Sabemos que viveu em Elvas, que frequentou a casa do Falcato. Que esteve no Brasil e que foi um dos “executores” do Tiradentes. Teve o talento necessário para reavivar o que efectivamente existiu através de uma linguagem tersa. Em quase seiscentas páginas fez-nos um retrato de um Portugal do século XVIII, que poucos conheciam. Lembrou-nos que o retrato do bispo Lourenço Lencastre se encontra exposto no Museu de Arte Sacra, em Elvas. Viajámos pelo Nada que é tudo, pessoano, de Mário de Sá-Carneiro avivou-nos a memória com um pouco mais de Sol, eu era brasa. Muitos outro autores foram chamados à colação. Silva Gaio, Rui Knopfli e tutti quanti.
Quão belo é espreguiçar-nos em páginas onde a cada momento damos conta de que a Literatura Portuguesa é tão rica! E como é bom ter como cicerone alguém que nos ajuda a conviver com a língua, que nos faz distinguir dos outros: a portuguesa língua, à maneira de António Ferreira.
Não foi adoptado
o Acordo Ortográfico em vigor.
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